Reportagem

Quando a falta de pigmentação vira verdadeiro drama humano

Texto de Bento Venâncio

.Cidadãos albinos apelam ao Governo para colocar travão à onda de rapto de albinos em Nampula

Numa escola primária em Maputo, a capital do país, uma professora discriminava um aluno albino, alegando que não era humano. O menino, com dificuldades de visão, devido à sua condição, foi atirado para a última fila da turma. 

A professora não queria vê-lo perto dela e do quadro.

A mãe do menino meteu queixa e o caso chegou à Associação Amor à Vida, que presta advocacia pelos direitos de cidadãos albinos.

Não fosse esta queixa, o menino teria deixado de estudar. Já gosta de ir à escola. Já regressa à casa com algo escrito no caderno, conta-nosIhidina Siril Bariate Mussagy, presidente de uma associação que conta com 670 cidadãos albinos filiados em todo o país.

A história deste menino de 7 anos de idade mostra até onde vai o “monstro” do preconceito: segue direitinho à escola, onde alunos e professores deviam oferecer educação no verdadeiro sentido da palavra.

As histórias que reproduzimos à parte retratam exactamente uma discriminação que começa na escola e estende-se mais tarde pelo resto de uma sociedade aberta a mitologias negativas e hoje sangrentas.

domingo procura, neste trabalho,mostrar que albinos são cidadãos normais. Têm sangue da mesma cor de outros seres humanos. E vivem de corpo e alma, seguindo princípios universais de convivência humana.

AMOR À VIDA

Sentiam-se discriminados, a viver num mundo à parte. Por isso, alguns cidadãos albinos optaram, no ano passado, em criar uma associação que pugnasse pelos seus direitos e sua inserção social. Lutam contra o preconceito, contra o estigma social.

A ideia da criação da associação surge pelas piores razões. Adelícia Nicocora, presidente da organização em Nampula, sofreu duas tentativas de rapto, no ano passado.

Vivendo no terror e votada ao isolamento, decidiu abrir um clube no facebook que dia após dia foi ganhando membros. Inicialmente com o nome “bonecas” ficaria mais tarde com o nome “Amor à Vida”, ideia de Eunécia Daniel Manuel, linda menina de 18 anos.

Eu é que dei nome “Amor à vida” ano passado, diz-nos cheia de orgulho. E explica: optamos por este nome por ser algo mais leve, que não levasse à discriminação. Além disso indica ao caminho do amor ao próximo e consigo mesmo, sublinha.

Na associação cidadãos albinos ajudam outros mais necessitados. Cuidam de crianças abandonadas e também de idosos, lutando pela disponibilização assistência médica e medicamentosa.

Os protectores solares são os mais solicitados  sabido que o sol é inimigo da pele de pessoas que vivem com albinismo (ler texto à parte). Associação pugna igualmente pela venda de óculos a preços bonificados, uma vez que albinos sofrem de problemas de visão.

Refira-se que semana passada dezenas de protectores solares foram distribuídos pela associação em Gaza e Nampula, com apoio da embaixada da Suécia.

A presidente da associação, Ihidina Siril Bariate Mussagy, apela ao Governo, em particular ao Ministério da Saúde para colocar óculos à disposição de cidadãos albinos carenciados e disponibilize protectores solares a preços bonificados nas farmácias públicas.

Não há protectores solares nas farmácias públicas. Quando chegam têm um custo elevado, às vezes custam três mil meticais e nem sempre temos esse valor disponível, diz-nos Alda José, membro da associação.

APELO PARA O FIM DA “VENDA DE ALBINOS”

A Associação Amor à Vida  pede ao Governo para manter a determinação no combate aos sequestros de albinos em Nampula, norte do país.

Com cinco cidadãos sequestrados, segundo fontes oficiais, a associação sublinha que seus membros vivem aterrorizados (ler depoimentos à parte).

Sublinha que os números oficiais contrastam a realidade vivida no terreno, pois são cada vez reportados mais casos de rapto de albinos. Recentemente perdemos quatro membros em Nampula, garante a presidente da associação.

Se só em Nampula não conseguem controlar como que será de nós caso a onda de sequestros se espalhe no centro e sul do país?,questiona.

Cidadãos albinos

estão com medo

– Alda José

Alda José, 25 anos, condena, veementemente, o sequestro de cidadãos albinos em Nampula e pede acção mais firme e vigorosa das autoridades.

O nosso apelo vai para a Polícia em Nampula para trabalhar de modo a travar esses casos de sequestros. Mesmo eu ando com medo, pois estudo no regime pós-laboral, disse, acrescentando: infelizmente só agora estes casos estão a ter maior repercussão na media.

Para nossa entrevistada urge que a sociedade olhe para albinos como cidadãos normais, iguais aos outros, parando com estigmatização e com esta onda de perseguição.

Alda José disse que sofreu discriminação na escola primária. As crianças eram ensinadas em casa que não podiam chegar perto de albinos. Às vezes ficava sozinha na carteira, lembra.

Disse ainda que já teve uma amiga que disse que podiam brincar juntas, na condição de não se tocarem mutuamente “para não transmitir a cor”.

Alda recorda, com muita amargura um episódio na escola primária que a marcou até hoje. O professor atirou-me com giz apenas porque sou albina, refere.

E a tristeza não pára por aqui. Já na escola secundária, um professor de inglês vendo-a a aproximar-se mais ao quadro, devido aos problemas de vista, lançou um ultimato infeliz: se tens problemas podes parar. A educação não é para todos.

Mesmo assim, Alda José não desistiu de estudar. Frequenta agora o segundo ano no Instituto de Relações Internacionais e Diplomacia.

Ouvia casos

de sequestros na Tanzania

– Eunécia Daniel Manuel

Para Eunécia Daniel Manuel, 18 anos, não é nenhuma novidade o que está a acontecer em Nampula. Antes de acontecer em Moçambique, já ouvia casos na Tanzania. E sempre tive o receio de que, tarde ou cedo, Moçambique registaria sequestro de albinos.

Eunécia disse que tomou conhecimento do primeiro sequestro através da sua amiga Adelícia Nicocora. Foi a primeira a dizer-me que havia sequestro de albinos em Nampula, apontou.

Para a nossa entrevistada é condenável o que está a suceder. Acho que os sequestradores não têm consciência das coisas que fazem. Não nos podem discriminar e matar devido à nossa pigmentação. Somos todos humanos, argumentou.

Eunécia disse-nos que ela e o irmão mais novo são os únicos albinos da família. sublinhou que nunca se queixou de discriminação em casa.

Acrescentou que sentiu desconforto na escola primária. Outras crianças batiam-me com caniço e maltratavam a minha pele, recorda.

Aluna de primeiro ano de Psicologia Clínica, na Universidade Pedagógica, Eunécia faz da luta contra o preconceito contra albinos uma batalha da sua vida. Quero mostrar as pessoas antes de sermos albinos, temos a raça dos nossos pais. A raça do mundo

Eunécia apela aos outros albinos para não se excluírem da sociedade. Salientou que não podem se votar ao ostracismo, devendo apostar muito nos estudos. Temos que ter atitude. Estudar mais. Desta forma as pessoas vão olhar para nós de outra maneira, apelou.

Ser humano não

pode ser mercadoria

– Armando Alfredo de Sousa

Armando Alfredo de Sousa, 24 anos, confessou que nunca na vida pensou que um ser humano pudesse ter a coragem de ver outro ser humano como mercadoria.

O que está a acontecer em Nampula ameaça-nos. Ser humano não pode ser visto como mercadoria para ser comercializado, disse, reiterando:somos humanos. Ouvir falar de raptos é algo que nos desgasta.

Disse ainda que se o Governo preocupa-se em assegurar vida de animais, contra caça furtiva, devia prestar mais atenção com albinos que são seres humanos.

Armando disse-nos que a discriminação dói e é mais severa quando mata. Sublinhou que sentiu-se mal na infância quando se apercebeu que era diferente de outras crianças e sofreu na pele a rejeição sobretudo na escola primaria.

Contou-nos o episódio de um professor que, na primeira classe, evitava convesar com o aluno só porque era albino. Foi na Escola Primária de Matadouro, em Inhambane.  O professor Mahotela, que tinha fama de mau, era inimigo declarado de albinos. Oprimia-os e punha-os no canto deles, disse, acrescentando: reprovei três vezes na primeira classe.

A professora Jossefina, que esteve com ele da segunda à sétima classe, teve atitude diferente. Aproximou-se mais e ofereceu mais apoio. Apoiou-me bastante por ver que tinha dificuldades visuais. O albino pode desistir. Só olhar para o quadro é um problema sério. É muito difícil olhar para o quadro, afirmou.

 Ciente destas dificuldades, a professora Jossefina foi até a casa do aluno albino para dar aulas suplementares e hoje o seu aluno Armando frequenta o primeiro ano de Ensino de Francês na Universidade Pedagógica.

Ninguém tem direito

a tirar a vida de ser humano

– Laurinda Tembe

Laurinda Tembe, 27 anos, salienta que ninguém tem direito de tirar a vida a um ser humano.  Sinto-me aterrorizada, com medo, de sair a rua, a escola. Condeno os acontecimentos de Nampula, refere.

Apela ao Governo para que aplique penas exemplares aos promotores do negócio de venda de órgãos humanos e sublinha que albino é ser humano também.

Laurinda frequenta a Escola Superior Monitor. Está no primeiro ano do curso de Gestão de Meio Ambiente.

Agora não choro por mim

Ihidina Siril Bariate Mussagy, Presidente da Associação Amor à Vida

Ihidina Siril Bariate ( o que significa “guie-nos no caminho certo”, em árabe), 23 anos, disse à nossa Reportagem que chorou muito no passado pelo facto de ser cidadã albina e viver numa sociedade em que o preconceito está, às vezes, acima de tudo.

É lamentável o que acontece, mas já não choro por mim, afiança, acrescentando: para mim, a  combinação preconceito/magia negra é que dita regras no seio do negócio obscuro de venda de órgãos de cidadãos albinos.

Sublinhou não entender como é que este “negócio” floresceu tão rápido em países como Congo, Tanzania, Burundi, antes de chegar à Nampula, em Moçambique.

Será que matar um ser humano justifica riqueza fácil e nós somos tão valiosos até não merecermos a vida?,questiona.

A nossa entrevistada referiu que começo a estudar tarde devido a visão. Não tinha óculos, porque eram caros. Senti logo discriminação. Ficava a  um metro do quadro, conta.

 Sentava sozinha e chorava, mas com tempo aprendi a saber que sou o que sou. Hoje já não choro por ser discriminada, reiterou.

 Ihidina Siril Bariate Mussagy graduou em Maio deste ano em Contabilidade e Auditoria na Universidade Wutivi.

O que é albinismo?

Albinismo é uma condição causada pela deficiência na produção de melanina. Pessoas com esse problema são muito brancas e, dependendo do grau, apresentam alterações até mesmo na cor dos olhos e dos cabelos.

As cores da pele, dos olhos e dos cabelos são determinadas pela quantidade de melanina produzida em nosso corpo. A melanina tem, como principais funções, garantir a pigmentação e a proteção da pele contra a radiação solar. Quanto mais melanina uma pessoa tiver, mais escura será sua pele e vice-e-versa.

CAUSAS DE ALBINISMO

O albinismo é causado por uma mutação genética. Diversos genes podem estar envolvidos nas causas da doença, sendo que cada um destes fornece instruções específicas para a produção de várias proteínas envolvidas na produção de melanina.

A melanina é produzida por células chamadas melanócitos, que são encontrados em na pele, no cabelo e nos olhos. A mutação genética pode resultar na ausência total de melanina ou em uma diminuição significativa na quantidade de melanina produzida pelo corpo, levando aos sinais e sintomas clássicos do albinismo.

Os sinais e sintomas clássicos de albinismo são, geralmente, bastante visíveis e aparentes, principalmente na pele, no cabelo e na cor dos olhos.

Pele

Apesar de a cor da pele ser um dos factores que mais comummente contribuem para a identificação de uma pessoa com albinismo, ela pode variar em diferentes tons.

Para algumas pessoas com albinismo, a pigmentação da pele não muda nunca. Para outras, no entanto, ela pode aumentar com o passar do tempo, principalmente durante a infância e a adolescência. A produção gradual de melanina pode levar ao surgimento de sardas, pintas e outras manchas na pele.

Cabelo

A cor do cabelo pode variar também, desde tons muito brancos até o castanho – dependendo muito da quantidade de melanina produzida. Pessoas com albinismo e que tenham ascendência africana ou asiática podem apresentar cabelo louro, ruivo ou castanho. A cor do cabelo também pode escurecer com o passar dos anos, conforme aumenta a produção de melanina.

Cor dos olhos

A cor dos olhos de uma pessoa com albinismo pode variar de azul muito claro ao castanho e, assim como a cor da pele e do cabelo, também pode mudar conforme a idade.

Visão

O albinismo também costuma levar ao surgimento de sinais e sintomas directamente relacionados à visão, como o movimento rápido e involuntário dos olhos.

Independentemente da mutação genética, a deficiência visual é uma característica recorrente de todos os tipos de albinismo. Esses prejuízos são causados pelo desenvolvimento irregular das vias do nervo óptico do olho para o cérebro e do desenvolvimento anormal da retina.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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