Reportagem

Engenheira Química envolta em causas sociais

Iolanda Cintura é engenheira química de profissão. Sonhou em ser médica, mas sua tia escolheu primeiro. Acabou sendo mesmo engenheira. Nas páginas que se seguem, a governadora da cidade de Maputo fala das dificuldades que enfrentou para se adaptar às causas sociais, ela que estava habituada ao mundo das equações químicas e de ensaios laboratoriais.

Continua a exercer a profissão de engenheira?

Com os cargos que tenho vindo a assumir, não exerço em termos práticos e concretos. Mas acredito que para alguma coisa a parte de formação técnica contribuiu nesta função de governação. Acredito que a ferramenta técnica que adquiri com a formação tenha ajudado no exercício das minhas funções…

Onde se formou?

Formei-me na Faculdade de Engenharia da Universidade Eduardo Mondlane.

Em que ano?

Em 1999.

Onde nasceu ?

Nasci na província de Manica a 24 de Outubro de 1972.

Frequentou o ensino primário em Manica?

Sim , mas por pouco tempo. Frequentei a pré e a primeira classe na vila de Manica antes de rumar à Chimoio . Permaneci na capital provincial até quarta classe. Depois uma tia minha pediu que fosse com ela à cidade da Beira. Acabei matriculando na cidade da Beira e mais tarde fui à Maputo onde fiz os outros níveis.

– Como foi parar à engenharia química?

Era uma área que eu gostava. Haviam duas áreas. Minha primeira opção era Medicina. Queria ajudar as pessoas. Era este o meu pensamento. Mas a minha tia (Maria da Glória Meque), com a qual eu vivia, estava também a fazer Medicina e é médica hoje.

Como gostava também de Química acabei indo para engenharia química.

Qual foi seu tema de defesa?

Aproveitamento de resíduos sólidos de carvão vegetal para produção de bríquedes. Inspirou-me o facto de haver muito resíduos sólidos de carvão vegetal , o que poluía o ambiente.

É casada?

Sou casada com Mário Seuane.

Quantos filhos tem o casal?

Dois filhos. A mais velha 11 anos, o mais novo 6.

“Nossa meta é

não termos crianças

sentadas no chão”

A governadora da capital parece apostada em atacar o sector de Educação. Sentencia que não gostaria de ver alunos no chão em pleno Maputo. Fala com convicção de quem quer ver o assunto “arrumado” de imediato e ressalta a necessidade de parceria engajada com o município de Maputo. Nesta entrevista, Iolanda Cintura fala ainda dos desafios que enfrentará em questões como desemprego jovem, pobreza urbana e saneamento básico.

Já conhece profundamente os problemas da cidade de Maputo?

Não é fácil ter conhecimento profundo em tão pouco tempo. Tive oportunidade de interagir com os membros do Governo de praticante quase todos os sectores. Também tive oportunidade de ter o contacto com os documentos do balanço do quinquénio passado para apreciar o que foi feito e quais são os desafios.

Também já tive oportunidade de ter contacto com os munícipes. Tenho um plano de visita aos distritos municipais. Já consegui visitar dois distritos municipais que são Kamavota e kamabukuana .

Tenho uma ideia daquilo que são os grandes desafios da cidade de Maputo e eu acredito que é preciso de aprofundar ainda mais o conhecimento. Uma das áreas que vimos que temos que continuar trabalhar, não obstante os progressos feitos , é Educação.

Há progressos muito bons, que foram feitos desde quinquénio passado. Falo da construção de novas escolas, novas salas de aula, mas ainda há desafios…

Quais são esses desafios?

Aquisição de carteiras. A nossa meta é não ter nenhuma criança sentada no chão. Ainda temos algumas escolas com crianças sentadas no chão. Temos no nosso plano a aquisição de carteiras este ano. O município também tem no seu plano a aquisição de mais carteiras.

Por outro lado, a situação das enxurradas na cidade de Maputo afectou também algumas escolas. É preciso melhorar as condições em termos de saneamento do meio para garantir que nas nossas escolas a água possa conseguir escoar-se pelos canais apropriados…

Mas esse problema não afecta só as escolas…

Sim. Não afecta só as escolas. Alguns bairros foram igualmente afectados pelo problema de saneamento do meio. Sem dúvida este é um dos grandes desafios que Maputo tem.

Alguns bairros como Hulene, Magoanine e Albasine têm casas construídas em locais não recomendáveis. Penso que temos que abrir valas de drenagem e melhorar o próprio processo de urbanização que é da responsabilidade do município de Maputo.

Nós temos que colaborar com eles (o município), a par da educação cívica dos munícipes no sentido também colaborarem não construindo em locais inapropriados e seguindo orientações das autoridades.

A cidade de Maputo tem também o desafio de melhorar a limpeza. Para além da água, temos o lixo. É preciso que cada um de nós colabore…

Mas temos também a questão da pobreza urbana e desemprego …

Sim. Temos a questão da ocupação de jovens, em termos de emprego. Grande parte estão no mercado informal a desenvolver actividades precárias no dia- a- dia. Nós teremos que continuar a trabalhar para encontrar soluções para questão de emprego para jovens.

A questão do emprego, do auto-emprego, está ligada à formação técnica, profissional, vocacional de jovens. Isso já pude constatar.

Temos um plano de actividades e acções especificas para ir ao encontro à essas e outras preocupações que afectam a cidade de Maputo.

No rol dos desafios que mencionou qual escolheria se mandasse escolher apenas um?

É uma pergunta difícil. Eu considero todos desafios prioritários. São várias frentes que devem ser atacadas. Por exemplo não diria que poderíamos deixar as escolas de lado para caminhar por outras prioridades. Estou a falar de prioridades das prioridades que devem ser geridas em simultâneo. E esta é a dificuldade de governar uma cidade como esta…

“NÃO ESTOU ASSUSTADA

COM PROBLEMAS DA CAPITAL”

Não a assusta a complexidade dos problemas da capital?

 Penso que temos que assumir os desafios com responsabilidade. Estamos conscientes da magnitude dos desafios da cidade. Alguém tem que assumir. Eu costumo dizer que temos a sorte e a felicidade de a cidade de Maputo ter o município e o Governo. Se nós soubermos trabalhar bem em colaboração, vamos conseguir continuar a lograr resultados positivos.

Não é por acaso que estão estas duas estruturas na cidade. É mesmo pela dimensão dos desafios que a cidade apresenta,         que é diferente de qualquer outra cidade ao nível do país.

Não diria que ficaria assustada, mas assumo o desafio e registo, com muita satisfação, a existência de outra entidade que, se trabalharmos em estreita consideração com ela, poderemos ir de encontro dos anseios da população da cidade de Maputo.

Encontrou a cidade de Maputo ressentindo-se do efeito de enxurradas. O que fez o seu Governo diante da situação presente?

Estamos perante uma situação cíclica. Todos anos tem havido chuva que afecta a nossa população. E aqui há um trabalho coordenado e articulado com o município.

Como sabe, nós estamos no mesmo espaço que é da responsabilidade do município. Portanto, há responsabilidades partilhadas entre Governo da cidade e município de Maputo. 

Houve aqui um trabalho de alertar a população quando tomamos conhecimento das condições atmosféricas. Avisamos para que tomasse as devidas precauções. Uma delas foi de retirar os bens dos locais onde iriam ocorrer inundações. Alguns munícipes acataram, buscando casas de familiares para guardar bens.

Os comités de gestão de risco ao nível das comunidades foram activados. Apoiaram na informação e sensibilização. Paralelamente, o Conselho Municipal de Maputo, no seu trabalho de gestão das infra-estruturas, fez o acompanhamento da situação no terreno e algumas medidas foram adoptadas. Há casas que estão no curso de água. Estão claramente identificadas. No passado os ocupantes foram persuadidos a sair ao abrigo de um programa de reassentamento, mas regressaram…

Para esses casos não será necessário adoptar medidas radicais?

Infelizmente isso acontece. Estão previstas algumas medidas radicais. Penso que acompanhou que o Conselho Municipal de Maputo já anunciou que algumas casas serão demolidas. Estão em locais completamente inapropriados.

Nas minhas deslocações para contacto com a população tenho apelado para observância das orientações que as autoridades dão. As pessoas têm, infelizmente, o hábito de construir em locais impróprios, não autorizados…

Aprendi muito

no Ministério da Mulher

Já tem alguma trajectória na governação do país. Passou do Ministério da Mulher e da Acção Social. Qual foi a lição que mais a marcou?

Foi uma grande oportunidade ter trabalhado ao nível do Ministério da Mulher e da Accao Social. Foi uma grande escola. O ministério lida com a população mais vulnerável do país. E quando olhamos para as suas necessidades são várias e transversais. Lá tive oportunidade de encaminhar ou lidar com necessidades da população mais vulnerável no que refere a Educação  (quando olhamos para a criança) e à Saúde (quando olhamos para a saúde da mulher e criança).

Tive a felicidade de olhar para este grupo alvo, que é a população vulnerável, na sua vertente transversal. Dirigi um ministério também bastante complexo.

Praticamente é o que venho encontrar aqui. Tive a oportunidade e a felicidade de aprender a lidar com a população. Quando fui ao ministério não tinha esta experiência, esta abordagem, este contacto com a população. Penso que foi uma grande escola , uma grande aprendizagem.

Passei a saber lidar com a população, a gerir os problemas trazidos  e a articular com os vários sectores para encontrarmos uma solução mais equilibrada. É esta a grande lição que trago do ministério para o governo da cidade de Maputo.

PROBLEMAS SOCIAIS

NUNCA ACABAM

Acha que no Ministério da Mulher e da Acção Social encontrou solução para os problemas essenciais?

Os problemas foram encaminhados. Acredito eu que foram definidos programas, políticas e também alguma legislação que permite que hoje os vários sectores possam abordar a questão dos mais vulneráveis. É um processo. Penso que é uma construção do dia-a-dia. E os problemas sociais nunca serão acabados. Essa é uma das lições que eu aprendi. Todos os dias nós temos que ir lidando com eles. Ir resolvendo. E à medida que formos resolvendo um problema social, há um outro que vai surgir como consequência de crescimento…

Vinha da Direcção dos Combustíveis antes da nomeação à ministra. A adaptação foi fácil?

Não foi fácil . Foi um choque tremendo. Vinha de uma área muito específica. A minha área de formação é muito técnica. Sou engenheira química. Não foi fácil passar a lidar com a área social .

Confesso que fiquei noites e noites para tentar entender por onde começar. Tive a sorte de encontrar uma equipa muito boa ao nível do ministério que em termos técnicos me apoiou bastante…

Como foi parar na Direcção Nacional de Combustíveis?

Foi logo que terminei a faculdade. Como ingresso no Ministério dos Recursos Minerais e Energia, sempre trabalhei na área de combustíveis. Fazia toda gestão da importação dos combustíveis, a gestão de preços de combustíveis, a gestão das infraestruturas petrolíferas, ou seja a rede de distribuição de combustíveis, os tanques de armazenagem de combustíveis, a gestão da distribuição de gás. Lembro-me, com muita satisfação, que participei na produção de politicas , estratégias de energia, a legislação especifica que regulamenta a distribuição de gás natural. No âmbito da melhoria de conhecimentos técnicos fiz uma formação na Noruega, uma certificação profissional em Economia de Petróleos…

Foi lá onde recebeu o epíteto de “dama de Combustíveis”…

Trabalhei área de combustíveis numa altura em que o mundo sentiu a aquela subida como nunca se tinha sentido antes em paralelo com a crise financeira mundial. Foi quando os preços dos produtos petrolíferos foram disparando de uma forma jamais vista nos últimos anos. Tive a sorte de estar a frente do sector a gerir estes problemas. Não foi fácil.

Aquele é sector dominado por entidades privadas que querem ver o seu lucro ou seu investimento recuperado. Por outro lado, o combustível é algo que influencia a vida diária da nossa população. Tínhamos este outro lado de impacto social. Gerir estas duas coisas antagónicas não foi fácil, mas penso que fomos gerindo. Houve colaboração de muitas empresas que faziam distribuição, mas com muita luta. Naquela altura, com boa orientação do Ministro da Energia, conseguimos encontrar um equilíbrio para irmos gerindo a situação. Foi um desafio trabalhar nos combustíveis. O sector ajudou-me a crescer .

Qual é o seu maior sonho?

Gostaria de ver a criança moçambicana de boa saúde e a formar-se para que no futuro possa contribuir ao desenvolvimento do pais.

Praticou desporto?

Sim. Já joguei basquetebol na a equipa do Costa do Sol. Parei de jogar quando fui à Faculdade de Engenharia. Era difícil conciliar. Tinha que sair da Malhangalene a pé para faculdade…

Gosta de culinária?

Adoro. Cozinha é um dos meus passatempos predilectos. Meus irmãos e amigos vinham me visitar quando queriam comer bem . Eu ficava horas e horas a cozinhar. Até hoje faço isso.

Qual é o prato favorito?

Não tenho um específico. Gosto e investir receitas. Vou inventando pratos…

Bento Venâncio
bentok1000©yahoo.com.br

 

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