Reportagem

A vila onde o sol se põe às 16 horas

O distrito de Mecula localiza-se no extremo Nordeste da província do Niassa, no limite com Cabo Delgado e ocupa pouco mais de 18 mil quilómetros quadrados, pelo que cada um dos cerca de 14 mil habitantes poderia ocupar um quilómetro quadrado (km²,) à vontade.

 Como resultado, a fauna bravia e a flora predomina e, para evitar “pancadaria” entre o Homem e a bicharada foi montada uma cancela para controlar quem entra e sai. Quem chega a Mecula pode se surpreender com a chegada madrugadora da noite. Por volta das 16 horas, o sol se põe e a fauna começa a fazer das suas.

Viajar pela província de Niassa é como mergulhar num “alambique” de estórias invulgares que tem como fulcro a sua gente e a terra vermelha que, no tempo seco, pode produzir um manto de poeira capaz de entupir os poros e, no tempo chuvoso, gera lama para as mais cómicas escorregadelas de quem se faça aos caminhos e estradas.

Mesmo a propósito de areia, por toda a província, é praticamente impossível encontrar crianças com o corpo e roupas que apresentem as cores originais pois, e como se sabe, os meninos levam à letra a ideia de que “sujar faz bem”. Aliás, só de olhar fica claro que nenhum pai perde o seu tempo a dizer: “não faz isso filho, vais sujar”. Quem não quer rebolar, pode ficar quietinho. No fim do dia está sujo na mesma.

A tradição é outro elemento que dá vida e cor aos habitantes de Niassa. Que o diga quem teve o privilégio de circunvagar por este destino na época dos ritos de iniciação, quando são hasteadas capulanas multicoloridas em estacas cravadas nas palhotas de todas as aldeias. Não há momento igual em todo o país.

Quando o assunto é culinária, a população do Niassa não dispensa um prato de feijão manteiga. A curiosidade reside no facto de não se perder tempo com ingredientes de tipo chouriço, tomate, cebola, alho, pó de caril, cenoura, couve ou repolho. O feijão é simplesmente cozido e depois regado com óleo de cozinha e um pouco de sal para ser servido com xima de milho. 

Com o Lago Niassa a dar peixe Chambo a todos os anzóis e redes, grande parte dos habitantes desta província olha para este produto como coisa destinada a “vientes”, como eles chamam aos forasteiros, pois, o preço praticado por uma unidade frita, grelhada ou cozida é de tirar os olhos da cara.

Experimentamos pedir um Chambo grelhado para o jantar no restaurante da Pensão Ponto Final e nos demos muito mal. “Cada peixe custa 700 meticais”, disse a garçonete sem gaguejar. “O quê? Setecentos meticais por um peixe?”, barafustou desiludido um dos nossos colegas que estava determinado a experimentar um prato típico local.

Porque o Chambo “ginga demais”, a opção de muitos é comer um peixe minúsculo que pode ser encontrado fresco ou seco, a que apelidam de Ossipa ou Ussipa, que é servido com xima. Em Niassa, o arroz não é tão reverenciado como em outras paragens. Aliás, por todas as casas de pasto por onde passamos, a xima estava lá, a fazer as honras da casa.

Mas também tem a batata reno de Niassa que, sem exagero, pode ser encontrada em tudo o que é mercado, à semelhança do feijão, alho e cebola roxa. Mais pequena que uma bola de golf, a batata de Niassa possui um gostinho só sua e, quando cozida ou frita, ganha um tom amarelo bem vincado e mantêm uma rigidez que a torna diferente da batata reno comum que nos chega da África do Sul.

Nesta província também, se produz bastante amendoim mas, poucos usam-no para fazer caril. Este produto é torrado e comido assim mesmo. O que gera alguma incredulidade é que em todas as aldeias se vende óleo alimentar “importado” de outras províncias, quando se podia usar o amendoim para produzir óleo e fazer pratos fabulosos.

Para o caso do tomate, idem. Poucos apreciam este produto que é indispensável para a cozinha na cidade e província de Maputo a ponto de mexer com a inflação e deixar os mercados nervosos quando entende sumir da praça. Em Niassa, tomate serve apenas para “bater estilo”.

Viagem

com gosto à aventura

A chuva teimava em cair aos quarteirões e molhava aquele solo vermelho e hábil em produzir lodo. Tínhamos que partir para Mecula, destino que só conhecíamos pelo mapa e por uma réstia de informação colhida na imprensa e internet onde só se apura que Mecula conta com cerca de 14 mil habitantes que ocupam a volta de 18 mil  quilómetros quadrados, o que corresponde a uma densidade populacional que roça os 0,80 habitantes por quilómetros quadrado.

Mesmo a propósito de densidade populacional, observa-se que Niassa é a única província no território nacional com cerca de uma dezena de habitantes por quilómetro quadrado. Na zona Norte, por exemplo, a Zambézia regista acima de 37 habitantes, Nampula anda a volta de 50 e Cabo Delgado em mais de 20 habitantes por quilómetro quadrado.

Com estes elementos em mão, embarcamos num Mitsubishi Pajero, também conhecido por “bochecha”, com um poderoso motor 3500, daqueles que devoram ferozmente a gasolina, que nos fora cedido pela Electricidade de Moçambique (EDM) área de Lichinga. E partimos por volta das seis horas e trinta minutos.

A estrada que Lichinga à sede do distrito de Marrupa é uma pêra. Aliás, é uma das poucas estradas asfaltadas de que a província dispõe. Consta que foi construída nos tempos que lá vão, quando o actual edil da cidade de Maputo, David Simango, era governador de Niassa, lá pelos meados da década 90.

Apesar de estar em bastante bom estado, o governo local entendeu tomar a louvável decisão de ampliá-la para acomodar o crescente tráfego automóvel. Cerca de sete quilómetros depois do centro da cidade, a via bifurca para Mandimba, a direita, e para Marrupa, à esquerda, com passagem pelo distrito de Chimbonila e Majune.    

De Chimbonila em diante viajasse na companhia da floresta que se adensa a cada quilómetro, uma paisagem formidável graças às montanhas cobertas de vegetação e de uma paz salpicada pelo chilreio de pássaros de todo o tipo. A partir daqui é comum encontrar famílias inteiras de macacos sentados de forma relaxada no meio da estrada e galinhas do mato a bicarem grãos em pleno asfalto.

Outro detalhe que anima a viagem são as placas de sinalização que apontam para a travessia de elefantes que, aliás, é facto que por ali circulam manadas de elefantes, tendo em conta que há enormes dejectos destes ao longo da via.

Cerca de cinco horas depois, emerge a placa revigoradora que diz “Bem-vindos a Marrupa” e o alívio invade-nos. Afinal, temos percorrido cerca de 350 quilómetros, pelo que só nos faltam escassos 140 quilómetros para o nosso destino. No entanto, é aqui onde a viagem termina e começa a aventura.

Cancela

e o pôr-do-sol

A partir daqui sobra areia vermelha enlameada pela chuva que teima em cair por toda a província de Niassa, justificada pelo facto de estarmos na época de chuvas e ciclones. Naquele troço abundam curvas, contracurvas, subidas e descidas, pequenas pontes, floresta densa à moda dos trópicos, muitos macacos e pássaros. Em cerca de 100 quilómetros só cruzamos com três camionetas e atravessamos um punhado de aldeias cercadas de campos de milho.

Porque estamos a rumar em direcção à Reserva de Niassa, que cobre o distrito de Mecula em 100 por cento, percebemos que os camponeses improvisaram guaritas onde crianças se posicionam para vigiar a aproximação de pragas, macacos, hipopótamos, pássaros, entre outros animais.

Cerca de 100 quilómetros depois, avistamos a ponte sobre o rio Lugenda, uma obra de arte longa e estreita que anuncia a chegada à cancela de acesso à Reserva de Niassa, cujo acesso é permitido mediante registo da viatura, número de ocupantes, objectivo da visita e data prevista de saída. Já se começa a perceber que se está a entrar num território com “donos”.

Depois da praxe, seguimos pelos restantes 45 quilómetros de olho mais que aberto pois, as evidências de presença massiva de animais bravios estão escarrapachados por quase todo o piso. Respirámos de alívio ao chegar ao Quinto Bairro e ver casas, barracas, gente a circular a pé e à vontade.

Luís Sanúdia foi o primeiro a manifestar-se disposto a narrar-nos como se vive por ali. “Agora já nos sentimos mais a vontade porque temos energia eléctrica. A nossa vida vai mudar. Também já nos comunicamos por telefone celular e penso que esses são alguns progressos que não podemos ignorar. Se tivesse vindo em Dezembro assistiria a uma outra realidade. De pura pobreza”.

Apesar de satisfeito com aqueles sinais de desenvolvimento, Sanúdia não deixou de apontar o que ainda dói por ali. “A vida é muito cara por aqui por causa da falta de transporte. Para nos deslocarmos à cidade de Lichinga temos que desembolsar cerca de 700 meticais só para a viagem de ida”.

Para além da tarifa de transporte, que não está ao alcance de todos, os habitantes de Mecula enfrentam também preços altos de todos os produtos industrializados. Por exemplo, um refresco à garrafa (de 300 mililitros) custa 40 meticais em qualquer esquina. A cerveja também não fica para trás. Custa 50 meticais mesmo sem ter passado por uma geleira. Onde o comprador “chia” é quando o assunto é açúcar. Um quilograma custa 50 meticais, quando em todo o resto do país não passa dos 30 meticais. Quem quer cobrir a casa com chapa de zinco deve desembolsar, no mínimo, 350 meticais por chapa.

Como se isso fosse pouco, a produção agrícola anda e desanda na mesma época porque elefantes, búfalos, javalis, macacos, passarinhos, entre outros, não hesitam em usar as machambas como seus “restaurantes” em modelo “boca livre”, onde se come e não se paga conta. É como se o milho, mandioca, feijões, batata e amendoim fossem “sugestão do chefe”.

No quesito Educação, os residentes de Mecula festejam o facto do Governo local ter planos de introduzir o Ensino Médio Geral, aproveitando a chegada da corrente eléctrica. Até ao ano passado, os alunos que quisessem frequentar a 11º e a 12ª tinham que abandonar Mecula e empreender viagens para Marrupa (150 km) ou Lichinga (cerca de 500 km).

Cândido Awasse, de 22 anos de idade, gere uma pequena barraca que funciona como mercearia e espaço de diversão nocturna, na medida em que possui uma aparelhagem, daquelas que levam lâmpadas psicadélicas nas colunas. A música que soa mostra claramente que os músicos da vizinha Tanzânia têm mercado do lado de cá. “Na época chuvosa a água dos rios galga as pontes e, por vezes, derruba-os, impedindo a nossa circulação. Quando isso acontece, ficamos isolados do resto da província”, disse Awasse.

O Secretário Permanente de Mecula, Manuel Paulo da Fonseca, entende que o distrito tem muitos desafios mas, acredita que a chegada da corrente eléctrica à sede do distrito muita coisa vai mudar para melhor. “Onde devemos investir mais é na reparação das estradas, construção de uma maternidade, introdução urgente do curso nocturno e expansão da rede eléctrica”, disse.

Enquanto percorríamos aquela vila sede, cujas dimensões, estrutura e ambiente fazem lembrar um bairro, os residentes indicaram-nos que só poderíamos permanecer por ali por mais tempo caso quiséssemos dormir por ali porque ninguém pode atravessar a cancela depois das 18 horas. “O distrito está coberto pela Reserva de Niassa, pelo que a circulação de pessoas é controlada”, disseram.

Por outro lado, o monte Mecula, que circunda a vila, funciona como “acelerador” da noite. Por volta das 16 horas, quando o sol cai na parte de trás daquela montanha, uma forte penumbra toma conta do ambiente, trazendo a noite mais cedo do que o normal.

De facto, àquela hora, o sol já rumava em direcção ao pico daquela montanha que e começaram a emergir sinais de um anoitecer madrugador. Colhemos rapidamente as imagens e trocamos alguma conversa com populares curiosos com a nossa presença e deixamos Mecula para trás. Trinta minutos antes do fecho da cancela, atravessamos a ponte sobre o rio Lugenda. 

 

Jorge Rungo

jrungo@gmail.com

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