Reportagem

A ruína democrática

O Grande Hotel, localizado na cidade da Beira, província de Sofala, é o único no mundo que não funciona há décadas, mas, preserva a lotação esgotada durante todo o ano. É uma ruína sem luz, água, saneamento e, por isso, cheira horrivelmente mal.

 Em muitas portas estão afixados pósteres da Frelimo, Renamo e MDM, por vezes frente a frente. Em termos políticos, o Grande Hotel é uma ruína democrática.

Cada esquina do interior daquele monstro é uma banca e, naquilo a que chamam de casas, pedaços de tecto caem a cada instante. Portas, janelas, corrimãos e parapeitos foram arrancados, o que faz com que alguns residentes caiam lá do alto, quebrem braços e pernas, ou morram.

Relatos colhidos junto de moradores indicam que as maiores vítimas das “quedas livres” são as crianças que, como se sabe, ignoram os perigos de correr numa passarela aérea sem parapeito ou em escadarias sem corrimão. Mas também tem adultos que vem dar ao chão por embriaguez ou por falta de domínio dos caminhos enegrecidos pela falta de luz.

Do Grande Hotel já se disse tudo, incluindo em chinês, alemão, russo, italiano francês e zulu. Jornalistas e especialistas em construção civil de todos os quadrantes do mundo por ali passaram para apreciar aquele escombro ironicamente majestoso e partiram deixando para trás o mesmo recado. “Tirem estas famílias daqui e deitem este edifício abaixo”. Entretanto, o prédio continua em pé, com um número crescente de “hóspedes”, a desafiar a sanidade mental colectiva.

Reza a história que o Grande Hotel foi um hotel de luxo que funcionou a partir de 1955, rotulado de “Orgulho da África”, por ser o maior e mais caprichado hotel do continente africano daquela época, construído pela Companhia de Moçambique, que mais tarde se viria a transformar no actual Grupo Entreposto.

Porém, e apesar de toda a musculatura, esta unidade hoteleira funcionou em regime de “abre-fecha” até por volta de 1963, porque o seu mentor, Saúl Brandão, esperava conseguir obter uma licença de exploração do casino interno, mas, o governo colonial português recusou. Sem aquela autorização, se tornava impossível viabilizar o empreendimento que beneficiara de investimentos fabulosos.

Só para citar um exemplo, há indicações de que a factura final da obra foi três vezes mais alta que o planeado. Por causa disso, os serviços de quarto foram encerrados em 1963 e o espaço passou a acolher somente conferências e alguma actividade desportiva na sua piscina de dimensões olímpicas até à passagem do ano de 1980 para 1981.

Por causa da guerra civil que durou até 1992, o recinto foi transformado num refúgio para mais de três mil pessoas que passaram a disputar a escuridão, resultante da falta de corrente eléctrica, a chafurdar nos montes de lixo espalhados pelo interior e exterior, a respirar o fedor do lixo doméstico e de dejectos deles mesmos e a competir por alguns litros de água, todos os dias.

Porque a realidade que ali se vive só tende a piorar, salta à vista o facto de a piscina ser usada como um colector de água para lavar roupas, qualquer canto servir de mictório, mas, sobretudo, o facto de estarem a crescer árvores nos pisos superiores o que provoca danos estruturais severos e conduzem ao desabamento de várias paredes.

A nossa equipa de Reportagem visitou recentemente o local, conversou com alguns moradores e foi vilipendiado por outros tantos que protestavam de plenos pulmões contra a nossa presença. Para eles, quem vem de fora é “inimigo” que pretende zombar da sua triste sina.

Seguindo a máxima chope que reza que “sa thuma mwane” (serve lá em casa) os moradores do Grande Hotel pegaram em tudo o que tivesse valor e deram os mais variados destinos. Aliás, o jornalista austríaco, Florian Plavec, do jornal “Kurier”, descreveu em 2006 que “praticamente tudo que tinha qualquer valor foi saqueado, incluindo a sua casa de banho em mármore e azulejos, pisos de madeira, pias e banheiras.

De tão medonho que é o ambiente interno, se um transeunte é assaltado nas imediações daquele degradado edifício, o ideal é não ensaiar uma perseguição ao ladrão. Será inútil. Lá dentro tem esconderijos por tudo quanto é canto. São cerca de 400 quartos espalhados por três pisos.

O que parece engraçado é que todos os partidos políticos com assento parlamentar têm amigos e simpatizantes ali dentro. Em muitas portas estão afixados pósteres da Frelimo, Renamo e MDM, por vezes frente a frente. Em termos políticos, o Grande Hotel é uma ruína democrática.

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