Opinião

SOBRE PRIVATIZAÇÃO DAS GUERRAS

Roma imperial já utilizava mercenários, revoltaram-se eles em Cartago e inúmeras vezes na sede do império, a partir de um certo momento ditavam quem ascendia ao poder. Na época medieval e

 inícios da Idade Moderna, surgiram os mercenários suíços, vítimas da miséria nas suas montanhas.

Hoje subsistem os suíços na guarda papal, mais decorativos que operacionais, embora houvessem participado no passado nas guerras entre o poder papel e os seus inimigos. No século XIX a França criou a Legião Estrangeira, que existe até aos nossos dias, alimentada por foragidos da justiça, e já nos anos que se sucederam II Guerra Mundial, à Guerra da Indochina e Argélia, por antigos nazis, soldados à busca de emprego, etc. A África do Sul do apartheid a eles recorreu, Batalhão Búfalo, gente raptada noutros países, voluntários vindos da Rodésia e da Europa.

Desde 1949 que Convenções de Genebra e seus protocolos adicionais proíbem o mercenariato, em África, desde 1997 que a OUA interdita essa infâmia.

Nos nossos dias em que os Estados Unidos em especial levam a cabo conflitos em várias partes do mundo, quando as baixas de nacionais americanos criam reações negativas na opinião pública, o recurso a mercenários generalizou-se, chegando a mostrarem-se os seus números superiores aos das tropas americanas, em especial no Afeganistão e Iraque. A doutrina militar americana e em países do Primeiro-Mundo tende a valorizar cada vez mais as empresas privadas de segurança, a privatizar as guerras, transferindo as baixas para os mercenários.

De destacar que se tornam cada vez mais importantes os mercenários provindos das fileiras das antigas tropas e grupos especiais do apartheid.

Paralelamente buscam-se robots que substituam as tropas e multiplicam-se os ataques, assassinatos e mortandades com os chamados drones, aviões não pilotados, telecomandados ou programados de antemão para atingirem os alvos.

Se, pelo caminho, ficam vítimas inocentes, bem, apenas se registam anónimos danos colaterais.

Há que destacar o papel dos mercenários e guerras privatizadas em África, assim como dos drones.

Nos tempos mais recentes os mercenários mostraram-se essenciais na secessão do Catanga e no assassinato de Lumumba.

Dados indiciam que um avião de fabrico francês, Fouga Magister, tripulado por um mercenário belga, estaria envolvido em Setembro de 1961 no derrube do avião que transportava o então Secretário-Geral da ONU, Dag Hammarsjkold. Bob Denard, francês que serviu militarmente na Indochina e depois trabalhou para organismos estatais franceses, esteve também a soldo do apartheid, promoveu vários golpes de estado nas Comores e até tentou proclamar-se Chefe de Estado.

Mercenários constituíram a elite das forças do Biafra secessionista.

O Zimbabué deteve e julgou e condenoumercenários sul-africanos comandados por um britânico, Simon Mann, antigo oficial britânico que se preparavam para atacar a Guiné Equatorial. Afirmou, Simon Mann que operava em conjunto e parceria com Sir Mark Thatcher, residente na África do Sul, filho da antiga Primeira-Ministra britânica.  

Nas guerras sujas de diamantes contra sangue, na Serra Leoa e Libéria, esta escumalha constituiu uma força determinante. Muitos ataques contra o regime derrubado na Líbia levaram-se a cabo com mercenários e drones.

Há que reconhecer, tristemente, que nenhum Tribunal Penal Internacional se preocupou com mercenários brancos, embora as convenções internacionais pertinentes não discriminem raças, cores da pele, religiões. Sem ironias baratas há que constatar que o TPI apenas serve para julgar sérvios e negros.

Várias empresas de segurança no nosso país pertencem, sobretudo aos antigos do apartheid e mercenários saudosistas do colonialismo português.

Parece que os efetivos destas forças, nos números, se mostram superiores ao dos totais dos membros das nossas Forças Armadas e PRM juntos. Há que refletir. Criará esta situação um problema de segurança nacional? Obviamente, que elementos armados, comandados e dirigidos por estrangeiros com passados duvidosos suscitam preocupações bem legítimas e sérias para quem refletir sobre o problema, sobretudo conhecendo o historial passado desses dirigentes das empresas privadas de segurança que aqui operam.

Parece que algumas antigas ou atuais altas patentes estariam envolvidas como sócios dessas empresas. Há negócios que sujam belas histórias de realizações. A nódoa numa toalha limpa e branca fica muito mal.

Neste continente já testemunhamos muitas barbas de vizinhos a arder, faz pois sentido para precaver males maiores que púnhamos as nossas de molho e com extintores bem perto.

Um abraço à prudência,

Sérgio Vieira

P.S. Em Moçambique, na clandestinidade, sob a tortura, sob massacres e prisões, com armas na mão lutou-se para libertar a terra e os homens.

Os recursos naturais no solo, no subsolo, nas águas, nas plataformas continentais libertaram-se com sangue, suor e lágrimas, para beneficiar o povo, estas gerações e as vindouras.

Agora descobriu-se que uma transnacional do gás queria fazer fora do país uma transação substantiva sobre recursos nossos, para diminuir o que pagaria de impostos.

Muito bem, o que impede o Estado de sancionar? De não autorizar a venda e até cancelar a licença de prospeção dessa empresa por notória má- fé, encoberta com argúcias jurídicas?

Um abraço a uma riposta firme e não negociada, castigue-se o prevaricador,

SV

Re. P.S. Parabéns Mulher Moçambicana pelo teu dia, nascido da luta e da revolução. No teu Hino estão inscritas as tarefas do teu combate. Contra ti todo o tipo de oportunismos e contigo todos que se batem pela vitória dos oprimidos. Um beijo,

SV

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