Editorial

A vida em tempo de cheias

Durante muitos anos o nosso país raramente vivia exposto a terramotos, furacões e outras catástrofes naturais que faziam o dia-a-dia de milhares de pessoas no planeta. Sobre chuvas torrenciais e outras tempestades, a população tinha vaga percepção em aulas de Geografia quando se falava das monções na Ásia. Parecia algo tão distante de nós embora o Oceano Índico fosse (e é) contribuinte natural no gradiente de chuvas que afectam ciclicamente a Ásia.

Diante da cruel realidade ditada pelas cheias que afectam milhares e milhares de moçambicanos, parece que essa sensação de “país imune” começa de facto a ficar diluída nas águas que agora sufocam parte do sul e, sobretudo o centro e norte do país.

Em tempo de crise, tudo o que queremos ouvir são palavras de alento. Queremos solidariedade. Queremos tudo menos críticas. No entanto, perante as circunstâncias não podemos deixar de colocar o dedo na ferida. Pico tira-se com pico, diz a sabedoria popular. Se é verdade que há milhares de inocentes nesta tragédia – que se repete todos os anos, diga-se – também há outros tantos que só se podem queixar do seu descaso. As autoridades estão roucas de tanto apelarem às populações para não erguerem as suas casas nas zonas tradicionalmente propensas às inundações. Debalde. As pessoas, depois das cheias, lá voltarão a habitar e próximo ano, voltaremos à mesma canção.

É uma situação complicada. Para quem sempre viveu numa determinada região, o desterro é a última coisa em que pensa mas, diante dos factos, por que teimar para depois perder tudo? É um contra-senso evitável que exige medidas radicais.

A água conhece o seu caminho, mapeado pela natureza e pelas circunstâncias acidentais que o próprio Homem cultiva no seu dia-a-dia. É o tal mapa que tudo transfigura quando este mesmo Homem se esquece da equação natural e desafia as variáveis que condicionam as inundações já cíclicas. 

Estamos a falar de algo presente no nosso quotidiano e que que com consistência aflora a raiz do nosso pensamento. Trata-se de algo na idiossincrasia de planos presentes e futuros, obliterados pelas nossas resistências e/ou limitações.

Podemos chamar à esta reflexão o facto de termos agora água em demasia. Contudo,  daqui a algum tempo teremos uma seca infernal. As culturas que sobreviverem às cheias, serão esturricadas pelo sol causticante. Triste sina a nossa.

Não haverá mecanismo de retenção e armazenagem de água para uso sustentável de recursos?  Esta aqui um bom TPC para o novo Ministro das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos.

Retomemos a reflexão anterior. Parece que em Maputo e Matola o cenário vai mudar; os dois edis decidiram cortar o mal pela raiz: na Matola várias infra-estruturas erguidas nos corredores naturais da água estão a ser selectivamente derrubadas. A ideia é deixar a água seguir o seu curso e aliviar zonas residências que – por causa dos tais bloqueios – transformaram-se em “piscinas” transtornando, naturalmente, a vida dos respectivos habitantes.

Em Maputo cidade, a edilidade também decidiu demolir perto de quatro centenas de casas erguidas em zonas propensas a cheias. Na realidade é a derradeira tentativa de acabar com um mal que se repete anualmente; os moradores de algumas dessas casas receberam terrenos em zonas seguras há anos mas voltaram a ocupar as antigas moradias. Outros, mais maldosos, venderam  e ou alugaram as antigas casas a incautos cidadãos que agora se vêm aflitos por causa das cheias. Demolir e tomar o espaço é o “Plano Marshall” para acabar com a torpeza.

Agora o ano lectivo escolar está à porta, impõe-se uma reflexão igualmente importante. Quando temos cheias, as escolas são os primeiros locais de acolhimento das vítimas das intempéries. Os alunos – que as vezes se contam entre os sitiados – não têm acesso às salas de aulas entretanto transformadas em casernas. E isso repete-se todos os anos no início do ano lectivo. Será que vale a pena continuar a dar murros em ponta de faca? É só uma pergunta…

Por outro lado, quando chega o Inverno começa outro sofrimento: os meninos e meninas das primeiras classes têm aulas no período matinal. No verão não há assim tantos problemas mas no Inverno a história é outra; é vê-los as 6 da manhã, entorpecidos pelo frio, a caminharem para as respectivas escolas. As vezes ainda a escuridão impera. Não seria de pensar – como acontece noutras paragens – em adoptar um horário especial para o Inverno?

A natureza não faz nada em vão, disse Aristóteles. Tudo o que existe, é por alguma razão. Se assim for, temos que aprender a gerir os problemas que nascem no dia-a-dia, porque queremos crer que é possível instituir princípios baseados na percepção de que todos nós desejamos a felicidade e não o sofrimento. Para isso, muitas vezes, basta não ignorarmos os nossos e os sentimentos dos outros.

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