Reportagem

Odisseia no aeroporto

Advertência. Os factos que narráramos a seguir aconteceram. Dez anos depois, por imperativos profissionais, voltei à Nigéria, concretamente à Abuja, e, como da primeira vez, fiz escala em Lagos. A única variante é que em 2005 escalei primeiro Lagos e só depois Abuja. Desta vez foi ao contrário.

De 2005, tinha a recordação de como embarcamos no aeroporto doméstico de Lagos para Abuja. Nunca tinha visto nada igual. O que me era então familiar, e por isso não me surpreendeu, foi ver o boarding pass, na altura do check in, ser escrito à mão. Como entramos para a aeronave é que foi de todo singular.

Estávamos em amena cavaqueira nos bancos da sala de embarque quando alguém berrou qualquer coisa e eis que alguns passageiros saíram disparados para a placa onde o avião se encontrava. Estupefactos, rapidamente reagimos e corremos para o aparelho onde entramos às cotoveladas. Cada um sentou-se onde quis com a trouxa que trazia. Dois passageiros tiveram de fazer o voo, de cerca de 50 minutos, em pé. Só se sentaram, no corredor, durante a descolagem e aterragem.

Fizemo-nos transportar numa aeronave da banida companhia de aviação Bellview Airlins. Aliás, alguns dias antes do nosso desembarque à Abuja um Boeing da mesma companhia que fazia o trajecto Lagos-Abuja tinha caído e causado a morte de todos os 117 ocupantes. E o intróito termina aqui.

ABUJA

No dia 30 de Maio do corrente mês,  terminada a missão que nos levara à capital federal da Nigéria (cobrir a investidura do presidente Muhammad Buhari), por volta das 13 horas partimos em direcção ao Aeroporto Internacional Nnamdi Azikiwe. Íamos animados. Desaprovávamos as intermináveis filas de carros nas bombas de combustível sendo o país o primeiro do nosso continente na produção de petróleo e oitavo no mundo. No sentido oposto, elogiávamos as auto-estradas, cinco faixas para um lado e igual número para o outro e sem um único buraco. Cidade esbelta, moderna e larga.

Pouco minutos antes das 14 horas desaguavamos no aeroporto. Arrastamos as nossas malas e sacolas até ao balcão de check in e, não quis acreditar no que os meus olhos viam: os boarding pass (cartões de embarque) eram preenchidos à mão. Ainda assim, despachamo-nos a tempo. Valeu a nossa excelente organização.

SALA DE EMBARQUE

Por volta das quinze horas entramos na sala de embarque. Começava a odisseia. O nosso voo de ligação para Lagos, de onde tomaríamos o voo da South Africa Airways às 22horas e 20 minutos para Johanesburgo, estava marcado para às 17 horas.

Para matar o tempo cada um de nós escolheu como se entreter. Uns puseram-se a ler, outros a comprar jornais, outros optaram por assistir uma partida de futebol que passava na televisão, e outros ainda a experimentar as roupas africanas e sapatos a venda nas lojinhas do aeroporto.

O relógio marcou 15 horas. Depois 16 horas. Passou para as 17 horas. 18 horas. 19 horas. Avião da companhia área ARIK? Nem vê-lo. Os de outras companhias iam e vinham carregando e descarregando passageiros ao som da chuva miúda que ia caindo a intervalos. Estamos na região por onde passa a linha do Equador. Chove por tudo e por nada.

 Escusado será dizer que os nossos nervos por volta das 19 horas ficaram em franja. Alguns elementos do nosso grupo iam tentado obter explicações junto dos funcionários do balcão da companhia. A resposta foi: “esperem”. A dada altura, os funcionários desapareceram do balcão da sala de embarque. Céus. Pressentíamos que estávamos à beira de perder o voo seguinte, da SAA para Joanesburgo.

Dezanove horas e alguns pauzinhos, dois elementos do nosso grupo, depois de tanto refilarem no balcão do check in para onde tiveram de retornar e com toda aquela maçada de tira sapato, põe sapato, tira o cinto, passa pelo scanner, apalpadela aqui e ali por parte de elementos da polícia migratória, foram informados que o avião tinha finalmente aterrado.

Vieram disparados. Viram-nos impávidos. Estranharam. Perguntaram-nos se não tínhamos visto o avião. Respondemos que não. Caíram de quatro. Só quando por volta das 20 horas fomos informados pela instalação sonora do aeroporto que devíamos embarcar descobrimos o que tinha acontecido.

O avião efectivamente chegara, só que estacionara na zona internacional (escondeu-se). A entrada para o avião foi outra vez aos empurrões, tal e qual como em 2005. Dois agentes simularam que nos revistavam. A verdade é que não havia tempo para nada. O avião tinha de descolar. E porque o check in foi feito à mão, o que acarreta a probabilidade de ocorrência de erros, dois passageiros coincidiram no mesmo assento. Ninguém quis aborrecer-se com o outro e um deles foi sentar-se noutro lugar.

SERVIÇO DE

CATERING

Foi outro acontecimento insólito. Depois de toda aquela seca à espera do voo, quando os dois assistentes de bordo começaram a servir o lanche, nomeadamente sumo, um copo de água, um bolo e um guardanapo, o sumo só serviu para metade dos passageiros. Os outros tiveram que se contentar com o copo de água e o bolo. Um passageiro pediu mais um copo do precioso líquido. O assistente de bordo negou-lhe o pedido. O passageiro, desgastado psicologicamente, arrancou-lhe a garrafa das mãos e bebeu do gargalo. Rimo-nos até às lágrimas. O assistente de bordo fez um esforço tremendo para também não se juntar a nós e desatar às gargalhadas.

LAGOS E… VOO

PERDIDO PARA JHB

Aterramos em Lagos poucos minutos antes das 21 horas numa zona de fraca iluminação. Saímos do avião quase como entramos. Aos repelões. Fomos transportados por um mini bus Toyota Hiace até à zona de recuperação da bagagem.

Como o tapete rolante não funcionava, a bagagem foi deixada no limiar da porta. Precipitamo-nos sobre ela e cada um pegou o seu pertence. Havia urgência em seguir para o Aeroporto Internacional Murtala Muhammed, de Lagos.

Saímos para o exterior do aeroporto doméstico e… guerra entre taxistas. Dois quase chegam a vias de facto. Um zeloso polícia grampeou o carro de um dos contendores. Todo o mundo queria nos transportar e espoliar. Não tínhamos muito tempo para negociar porque o tic-tac do relógio não parava. Pela mesma distância cada taxista tinha o seu preço. Na cancela do aeroporto, o preço da corrida do táxi subia.

Quando finalmente o nosso carro parou na zona de voos internacionais ouvimos a resposta que nenhum de nós queria. O chek-in tinha terminado. Minutos depois o avião da SAA, imponente, e sem nós, deixava Lagos. Estávamos em terra e comprometido o 1 de Junho, Dia Internacional da Criança, já que a nossa expectativa era chegar a Maputo no dia 31 de Maio.

PROCURAR

HOSPEDAGEM

Foi a página seguinte. Mas primeiro era preciso discutir o preço com os taxistas, tudo isso sem termos a exacta noção da distância que tínhamos de percorrer. Por sinal pensões e hotéis é o que não falta nas redondezas do Mohammed Murtala Muhammed.

Conseguimos arranjar hospedagem no primeiro hotel ou pensão (não percebi bem) que batemos à porta, mas não havia quartos para todos, pelo que outros colegas tiveram que se alojar num outro estabelecimento hoteleiro contíguo. Mas havia mais uma encrenca para resolver. O check-out era às 11 horas, mas o nosso voo só seria às 22 horas. Conseguimos arrastar o check-out até às 13horas.

NOVAMENTE NO

M. MURTALA

Domingo, 31 de Maio, por volta das 16 horas chegamos ao aeroporto, mas antes um episódio para narrar. Pegamos um táxi que nos levaria ao aeroporto mas, para espanto nosso, a poucas jardas do M. Murtala fomos mandados descer. Tínhamos de ser transportados para outro taxi porque aquele, em estado pouco recomendável, não podia penetrar no recinto aeroportuário. A operação durou menos de três minutos e seguimos viagem. Foi uma oportunidade para cheirar e ver Lagos em miniatura. Terrível. Cemitério de chapas-100. A maioria amarelos. Quase todos de marca VW. Buracos nas estradas. Trânsito caótico. Buzinadelas.

ARTIMANHAS

Soou a hora do check-in. Alguns de nós tinhamos as malas cintadas. Mandaram-nos desmanchar. Depois era preciso apresentar o passaporte a uma funcionária que copiava os nomes para uma sebenta. Incrível. O que não dava para perceber era o porquê de descintar as malas se as mesmas tinham de passar imperiosamente pelo scanner.

Uns após outro fomos sendo atendidos. De repente alguns colegas são informados de que não tinham OK para aquele voo. Uma vez mais valeu a perícia e vastos conhecimentos de um elemento do nosso grupo que demonstrou por A+B que todos nós tínhamos lugar cativo no voo da SAA. Ultrapassamos a rasteira que o funcionário pretendia nos pregar para nos extorquir. Mas alguns de nós não tiveram a mesma sorte como se verá mais adiante.

Com os cartões de embarque na mão e convencidíssimos de que não perderíamos o avião para Johanesburgo, mesmo assim ainda havia pequenas barreiras por vencer. Apresentar-se ao pessoal da Saúde para medir a temperatura corporal com aquela pistolinha branca (ainda há o receio da Ébola), e cumprir com as formalidades da última barreira: passar pelo scanner e ser revistado ou melhor apalpado pelos homens da migração.

Foi aqui que alguns foram apanhados, sobretudo os que tinham nos bolsos algumas nairas (moeda nigeriana) para comprar um refresco ou uma sandes durante o tempo que ainda faltava para o embarque.

– What is this? Era o homem da alfândega.

– Money.

– Give-me (Dê-me).

– Why (porquê)?

Valeu a perícia e os argumentos de cada um para se safar daquela enrascada. Ladroagem a céu aberto. Mas as nairas de muitos passageiros, sobretudo estrangeiros, ficaram nas mãos e bolsos dos alfandegários. Decididamente alguns daqueles funcionários não têm decoro.

Soltamos um suspiro de alívio quando soou a hora de embarcar e mais lindo foi quando o avião descolou. Iniciava-se, finalmente, o regresso à casa.

As horas de espera em Joanesburgo não doeram muito porque estávamos a 50 minutos de Maputo.

Infortúnio meu foi detectar na hora da recuperação da bagagem no Aeroporto Internacional de Mavalane que a minha mala tinha sido vandalizada. Rebentaram a fechadura e destruíram literalmente os zipes da mala. Quando cheguei a casa e depois de retirar a minha roupa fui deposita-la na lixeira.

Até a próxima vez, Nigéria. O que nunca saberei é onde a mala foi vandalizada. Se em JHB ou Lagos. Mas isso é o de menos.

André Matola
matolinha@gmail.com

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