Opinião

UMA VEZ MAIS SOBRE OS NOSSOS FUNERAIS E AS NOSSAS CULTURAS

“Porque os vivos sabem que hão-de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tão pouco terão eles recompensa, porque a sua memória jaz no esquecimento” Ecl. 9:5

Sempre que tomo conhecimento da morte ou falecimento de alguém que me é próximo, fico horrorizado não somente pela morte mas sobretudo por pensar nos ritos que se deverão fazer, no momento do seu velório e enterro de acordo com a religião predominante da pessoa que faleceu (ou morreu), consciente no entanto de que a morte é o grande enigma da existência humana e que será a última coisa que sucederá a cada um de nós a seu tempo. Os funerais sempre tiveram (e terão, provavelmente), grande importância para o Homem, (dependentemente da sua evolução), o qual manifesta diversos comportamentos interiores e exteriores perante a perda. Por isso, invariavelmente os funerais têm sido cerimónias de grande dignidade, e nalgumas vezes (muitas vezes), ultrapassam as capacidades financeiras da família do finado. Vamos aos factos: Abdul Manafe, 66 anos, natural da Ilha de Moçambique, Muçulmano fanático, desde jovem nunca cortou a barba nem andar com a cabeça sem solidéu (Taqiyah), e corpo coberto de Thoub (Jalabiyah). Muito Jovem ainda, abandonou a Ilha e rumou para Maputo fixar residência e praticar os seus negócios. Bígamo e pai de muitos filhos (12), alguns a estudar fora do Pais, patrão de mais de três centenas de trabalhadores, ficou famoso e respeitado pela sua filantropia. Naquela fatídica manhã, após abandonar a Mesquita, ao virar da esquina foi surpreendido por um enigma tão incompreensível quanto inevitável: a MORTE. Súbita e violenta, apareceu-lhe em forma de um aparatoso acidente de viação. No mesmo acidente e nas mesmas circunstâncias, perdeu a vida também o jovem Carlos Narciso 25 anos, seu motorista e guarda-costas, natural da Maxixe, (Inhambane). Ex-militar recém desmobilizado Carlos Narciso deixou uma viúva grávida. As cerimónias fúnebres de ambos, realizaram-se em locais e dias diferentes. O Funeral de Abdul Manafe, como mandam as regras do Islão, teve lugar na tarde do mesmo dia do acidente tendo as exéquias fúnebres iniciado numa Mesquita, onde o finado foi coberto por uma espécie de sudário, (um lençol branco disposto sobre a mortalha perfumado de incenso), terminou depois no Cemitério, Zona Muçulmana. A duração de todas as Cerimónias, quer a da Mesquita bem assim como do Cemitério não foi para além de uma hora e o finado foi sepultado sem nenhum Urna. Em ambas as cerimónias não se leu nenhuma Mensagem senão alguns versículos do Alcorão, referentes a oração do morto, “Swalat jhanaza “. Do Cemitério cada um dos participantes seguiu para o seu destino. Já os restos mortais de Carlos Narciso, foram transladados para Maxixe numa sofisticada e caríssima Urna conforme a exigência da família, onde teve de permanecer na Morgue três dias à espera de alguns familiares que se encontravam fora da Maxixe. Durante as Cerimonias fúnebres, tanto na Igreja como no Cemitério), foram lidas muitas Mensagens: dos pais, dos irmãos, dos colegas de serviço, do seu Núcleo, do seu Partido, e por ultimo da jovem viúva). As despesas gastas pelo funeral deCarlos Narciso, (Urna, Publicidade nos Jornais, Transporte, Coroas de Flores, Roupa de luto Comida e Bebidas),ultrapassaram em mais de Cem vezes o seu salário. Afinal, que conceito temos nós dum Funeral!?

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