Nacional

Crime no feminino

Texto de Jaime Cumbana

No Estabelecimento Penitenciário Feminino de Ndlavela vivem maioritariamente mulheres condenadas à penas de prisão maior, principalmente relacionados a homicídios qualificados, tráfico de drogas e pessoas e de desvios de fundos nas instituições. Na reclusão assumem novos valores e encaram o futuro com esperança de vida digna.

É dos poucos centros prisionais que não causa tantas “dores de cabeça” ao sector da administração da justiça: reporta pouquíssimos casos de tentativa de fuga ou relacionados à motins.

Para quem chega à terminal de transportes públicos do bairro T3 e segue estrada de terra batida ao interior, rumo ao bairro de Ndlavela, o único sinal elucidativo da existência de um estabelecimento penitenciário é um enorme muro e robusto portão.

No seu interior mais se parece com uma quinta onde os gringos passam os fins-de-semana a cuidar e contemplar o verde das hortícolas, num quintal de perder de vista, com vários aviários.

Chama-nos atenção o uniforme laranja de mulheres internadas (reclusas) cuja circulação é limitada pelas quatro paredes do estabelecimento penitenciário.

Na verdade, a expressão internas, ganha dimensão real no estabelecimento de Ndlavela porque elas estão numa espécie de internato com quatro espaços comuns (camaratas), sendo que em cada uma cabem umas 50 camas e ainda resta espaço para os pertences indivíduais.

As condições de reclusão são das melhores que podem ser encontradas em qualquer estabelecimento prisional do país: camas individuais, televisores próprios, para além dos disponibilizados pela direcção da penitenciária.

Judite Florêncio, directora da penitenciária, disse que tem havido poucos casos de indisciplina ou tentativa de fuga. Acrescentou que algumas senhoras estão a cumprir penas pesadas e já mostram arrependimento pelo crime cometido, apostando forte na formação que recebem para a vida pós-cadeia.

Apuramos que elas são instruídas a cuidarem das hortas, aves, recebendo igualmente formações na área de educadoras de infância, tecelagem, tapeceira, corte e costura.

Destaca-se nas actividades lúdicas a criação de dois grupos de canto coral e dança tradicional. “Cantamos para dizer à sociedade que não somos criminosas. Pedimos perdão à Deus e à sociedade pelo que fizemos, para que saibam nos aceitar quando regressarmos a convívio social”, dizem as internas.

As autoridades do sector da justiça consideram que as condições de reclusão são óptimas, pois para lá da boa organização em termos higiénicos e saúde, estão albergadas 102 pessoas, tendo o estabelecimento uma capacidade para 300 internas. Destas 97 estão em cumprimento de penas como condenadas, enquanto sete encontram-se na situação de prisão preventiva.

Existem algumas internas que não possuem informações detalhadas sobre o andamento ou estado dos respectivos processos.

As penas variam de dois (penas correccionais) há 24 anos de prisão maior, porém existem processos na fase de instrução preparatória.

Vendia drogas na “Colômbia”

– Gisela Sixpence

Gisela dedicava-se à comercialização de estupefacientes na Zona Militar, Colômbia, até que foi surpreendida pelas autoridades policiais e detida. Foi julgada e condenada há oito anos de prisão, dos quais já cumpriu três.

“Vendia todo tipo de droga, incluindo cocaína, mas prefiro não falar mais disso”, disse à nossa Reportagem.

Ela mostra-se arrependida, pelo menos no discurso, pois afirma que se a vida voltasse para trás procuraria um emprego honesto, ser boa mãe para as duas filhas, uma boa filha para a sua mãe, em suma: uma pessoa que fosse exemplo para a sociedade.     

“A reclusão tem sido uma escola para mim, pois estou a aprender que não podemos viver do jeito que vivíamos lá fora; devemos procurar ganhar a vida de uma forma honesta”, aponta.

Gisela afirma que as formações que recebeu na áreas de corte/costura e educadora de infância serviriam de trampolim para o recomeço da vida após cumprimento da pena.

Transportava cocaína da África do Sul

-Turcine Ndovo

Turcine foi condenada a 24 anos de prisão maior. Expressa-se mal na língua portuguesa, mesmo assim disse que está na cadeia há oito anos por transporte de cocaína da África do Sul para Maputo. Não aceitou contar como e aonde arranjava a droga, apenas se limitou a afirmar que a cocaína era dela.

“Arranjava lá mesmo (África do Sul) porque tinha colegas que entregavam. Também tinha uma chefe, mas…”disse sem completar a frase.

Após detenção não teve nenhuma informação da quadrilha a que esteve ligada, tão pouco sabe se a mesma continua a operar.

Mostra-se arrependida da prática dos crimes a que foi condenada, mas optimista quanto ao futuro, em função dos ofícios que está a aprender no internato de Ndlavela.

Desviei fundos do Estado

– Delfina Zandamela

Delfina foi condenada há 22 anos de prisão maior, dos quais já cumpriu 11, por desvio de fundos na Repartição Especial de Maputo no Ministério das Finanças.

Tendo em conta que já cumpriu metade da pena irá solicitar os bons ofícios de quem de direito para receber a liberdade condicional.

Mostra-se arrependida pelo envolvimento no acto ilícito que interrompeu a sua carreira na função pública. Agora a alternativa são os ofícios, corte e costura, tecelagem e criação de frangos.

“Se tiver a sorte de receber liberdade condicional posso embarcar pela criação de frangos, costura ou cuidar de hortícolas”, disse Delfina Zandamela.

Até a data da sua detenção ela vivia no bairro Ferroviário arredores da cidade de Maputo e é mãe de quatro filhos.

 

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