Nacional

Avião caiu 100 metros por segundo

Quando foi anunciada a queda do avião das Linhas Aéreas de Moçambique, muita gente ficou a pensar qual teria sido a reacção a bordo naquele trágico momento. Uma sensação que ninguém deseja experimentar.

Os 33 ocupantes do voo “TM 470” ficaram carbonizados. As investigações para o apuramento das causas foram accionadas logo na antepassada sexta-feira e as primeiras explicações técnicas começaram a ser produzidas.

Passam hoje nove dias em que o país ficou chocado com a queda de um avião de passageiros, com bandeira nacional, tendo provocado a morte das 33 pessoas que seguiam a bordo. O “Embraier -190”, fabricado no ano passado no Brasil, despenhou-se cerca de 100 metros por segundo, numa escala equivalente a 6 mil pés de altitude por minuto.

O trágico acontecimento do voo “TM 470”, das Linhas Aéreas de Moçambique (LAM), com destino à Luanda, vai ficar marcado para os utilizadores das carreiras da maior companhia aérea nacional, como para as autoridades da aviação civil moçambicana.

Desde que se constituiu a LAM, há 33 anos, nunca um avião de passageiros tinha se despenhado, facto que levou o Presidente do Conselho de Administração do Instituto de Aviação Civil de Moçambique (IACM), o Comandante João de Abreu, a classificar o momento como de “profunda dor e pesar”.  

UMA MANHÃ TRÁGICA

As primeiras explicações técnicas começaram a ser produzidas e agora o desastre aéreo está a servir de estudo para as diferentes instituições que lidam com o serviço de transporte aéreo.

O avião saiu do território nacional às 11.34 horas, atravessou o espaço aéreo sul-africano tendo, de seguida, entrado para uma área entre a África do Sul e o Botswana, num movimento que estava a ser monitorado pelo controlo de radar daquele país vizinho.

Ao sair, mais tarde, para o espaço aéreo do Botswana, a tripulação entrou em contacto-rádio com o controlo de radar de Gaberone, quase uma hora depois de ter descolado. Em Etinite, ponto que limita a fronteira entre a África do Sul e o Botswana, a tripulação recebeu autorização para voar numa rota directa para “AGRAM”, uma posição técnica, a qual devia manter o contacto com o controlo de radar de Gaberone.

Durante o percurso entre o Botswana e a Namíbia, a aeronave era visível nos radares do centro de controlo de Gaberone, dentro de um processo de vigilância em termos de serviço aéreo.

O radar do Botswana nota que a aeronave vinha com um perfil de voo cruzeiro de 38.000 pés de altitude, quase duas horas depois de ter descolado no Aeroporto Internacional de Maputo. O mesmo radar, apercebe-se que o avião iniciara uma descida repentina, que foi possível visualizar até uma altitude de 2 mil pés, cerca de 600 metros do chão, já à esquerda do território da Namíbia, quando deixou de ser visto nos ecrãs.

Segundo deu a conhecer João de Abreu, o Parque Nacional de Caprivi, na Namíbia, foi o local onde veio a cair o “Embraier-190” da LAM, numa velocidade estimada de 100 metros por segundo.

TUDO EM PEDAÇOS

As equipas de salvamento iniciaram os trabalhos na própria sexta-feira, logo que foi activado o sistema de alerta e de busca, tendo sido interrompidas devido ao mau tempo que se fazia sentir na área em que o avião se despenhou.

No sábado, dia seguinte, foram retomadas as actividades de salvamento, altura em que o Governo moçambicano decidiu mandar constituir uma comissão de inquérito para se juntar à comissão internacional, sob liderança da Namíbia. A Comissão Técnica de Investigação do acidente, que é chefiada pela Namíbia, país onde o avião se despenhou, integra Moçambique, Botswana, Angola e a “Embraier” na qualidade de fabricante.

O Instituto de Aviação Civil de Moçambique transmitiu a ocorrência aos órgãos internacionais de aviação civil, designadamente a ICAO, a NSTB e a FAA dos Estados Unidos, a CENIPA do Brasil, as autoridades aeronáuticas da Namíbia, do Botswana, Angola, Portugal, França, Brasil e China.

A equipa moçambicana, constituída por técnicos especialistas, partiu no Sábado para Gaberone, por ser o local mais próximo de atingir o lugar onde se despenhou o avião.

As equipas de salvamento procederam à recolha dos corpos dos passageiros para Windhoek, capital da Namíbia, bem como das caixas de registo do avião, as denominadas “caixas negras”, tecnicamente tratadas pelas siglas EFDR e ECVR.

Conforme explicou João de Abreu, as equipas investigadoras alertaram para o facto de, dada à complexidade da ocorrência, o processo de medicina legal poderá levar algum tempo, não se podendo estimar uma data para a conclusão da identificação das 33 vítimas.

Os governos de Moçambique e da Namíbia reforçaram as medidas com a alocação de especialistas das áreas da medicina legal e científica, com vista a abreviar os trabalhos. Na sexta-feira passada, uma especialista de medicina legal em Moçambique partiu para a capital da Namíbia para reforçar as equipas que já se encontram a trabalhar na identificação das vítimas do acidente aéreo.

O Governo de Moçambique destacou membros do Conselho de Ministros para contactar e visitar os familiares das vítimas, prestando-lhes conforto e apoios em termos logísticos.

O MISTÉRIO DAS CAIXAS NEGRAS

As caixas negras do registo do voo fatídico, até aqui considerada como a principal fonte que vai desmistificar o que terá acontecido com o avião, já seguiram para a leitura na NTSB dos Estados Unidos da América.

Tal como explicou o Comandante João de Abreu, havia a hipótese de as caixas serem lidas em apenas três países, designadamente Inglaterra, França ou Estados Unidos da América. O facto de a americana “NTSB” estar envolvida na comissão investigativa, acabou-se por considerar melhor efectuar a leitura nos Estados Unidos.

Na sexta-feira passada, estava a ser escutada a gravação das comunicações do contacto entre a tripulação e o controle do radar de Gaberone, para apurar mais dados, prevendo-se que o relatório preliminar possa ser conhecido no período de 30 dias.

João de Abreu disse que as equipas investigação necessitam de algum tempo para trabalhar na recolha de dados do acidente, que está categorizado, na linguagem aeronáutica, como “Major Acident”.

O presidente do IACM defendeu que todos os acidentes com o nível daquele que ocorreu com o “Embraier-190” necessitam de algum tempo para serem esclarecidos.

As caixas negras são as fontes de leitura em que se poderá ficar a saber quais foram as últimas conversas havidas entre os pilotos a bordo, bem como a comunicação que houve entre o avião e o radar, a fim de se encontrar as razões que ditaram uma mudança do perfil do voo “TM 470”, que passou a voar de um perfil em cruzeiro para um nível de descida.

“Ainda é prematuro dizer que as outras unidades da Embraier que estão voar pelo mundo, incluindo as da LAM, possam estar sujeitas à inspecção. Logo que tenhamos a indicação da causa de raiz, naturalmente que o fabricante está envolvido e é aquele que tem o maior interesse em que se corrija qualquer problema que possa ser identificado”, explicou João de Abreu.

Como as naves

levam-nos de um a outro ponto

Em aviação, o que está legislado é que o avião deve reportar que se encontra numa dada posição, passando obviamente a informação da localização da sua vertical, sem deixar de fornecer a hora. Nessa comunicação, a tripulação inclui como dado de “report” a sua estimativa de tempo para atingir uma vertical seguinte.

Tal como explicou João de Abreu, a tolerância permitida é de três minutos, período que, se o avião não apresentar resposta, os controlares tratam de contactar os aviões que estejam a sobrevoar na zona para entrarem em contacto com a aeronave que deixou de ter ligação.

A tolerância que é dada naquele passo seguinte é de 15 minutos e, findo esse período, pode ser lançado o sinal de incerteza. Passados 30 minutos, se a situação se mantiver, os controladores lançam um sinal de alerta para todos.

Quando se entra no sistema de alerta, é da responsabilidade do último controlador de tráfego aéreo que estava a fazer o controlo efectuar o aviso ao controlo do território para onde o avião se direccionou. No caso do “Embraier”, o controlo do Botswana devia ter alertado a Namíbia e Luanda, tendo se registado um atraso nas comunicações, mas que irá constar da matéria que está sendo investigada. 

O “Embraier” na pessoa de quem pilotou

O Comandante Abreu, figura bastante conhecida na história da pilotagem em Moçambique, considera o avião da marca “Embraier” como um meio de transporte moderno e seguro.

Tal como explicou, o último avião que pilotou na sua carreira foi curiosamente um “Embraier”, tendo tido o privilégio de ir buscar os três aviões no país onde foram fabricados.

Acrescentou que pôde atravessar o Oceano Atlântico em 12 ocasiões, pilotando os aviões da marca “Embraier”, desde o Brasil, país de fabrico, até ao Aeroporto Internacional de Maputo.

“É um avião com tecnologia de ponta, opera com motores já certificados e que, na sua história, são usados para fins militares. É um avião muito bom e seguro. Tem seis horas de autonomia, portanto pode se voar a vontade cinco horas”, destacou.

Pilotando as aeronaves, João de Abreu descolou em São José de Campos, no Recife, passou pela Ilha do Sal em Cabo Verde, ligando de seguida Acra, no Gana, de onde efectuou um voo directo para Maputo.

“Eu fui o piloto que abriu a rota para Luanda. Voei por diversas vezes naquela rota. Trata-se de uma rota boa, com muitos apoios. Depois de “Agram”, entra-se em Kwito Canavale, que tem um campo de aviação espectacular, talvez dos melhores em África, ao lado temos o Huambo que é um grande suporte em caso emergência. Depois temos o Kwito Bié e, a seguir, temos Luanda. Não é uma rota desprotegida, mesmo quando se sai do espaço aéreo moçambicano temos Palaborwa, temos o “Francis Town”, o “Vitória Fouls” e Gaberone”, frisou.

Querendo desfazer dúvidas relacionadas com questões climatéricas, levantadas como uma das possíveis causas do acidente, João de Abreu ressalvou que o “Embraier” da LAM não foi o único avião que passou naquele momento na rota que a aeronave tomou.

Aidentificação dos corpos

Para o processo de identificação das vítimas, encontram-se envolvidas duas comissões distintas, as quais se encontram numa fase preliminar do trabalho de análise dos restos mortais dos ocupantes do voo “TM 470”.

O processo de identificação por via da análise de DNA não é o único, como nos explicou o Comandante Abreu, havendo possibilidade de ser feito através da face dentária, pelo traje que a pessoa vestia, assim como analisando a cicatriz ou eventual tatuagem no corpo do passageiro.

Tal como referiu, a equipa encarregue de realizar o trabalho de medicina legal ainda não solicitou a ida dos familiares das vitimas para uma possível recolha de amostra para levar a cabo o exame de DNA.

Hermínio era um comandante competente

O Comandante Abreu disse que não teria dúvidas em “passar o testemunho” a Hermínio Fernandes, pessoa que chefiava a equipe da tripulação que se encontrava a efectuar o voo “TM 470”.

Tal como descreveu, o Comandante Hermínio era um profissional competente, tendo voado muitas vezes lado-a-lado com ele na qualidade de co-piloto, e que possui mais de 1300 horas de voo. A sua experiência na área da aviação ronda as 9 mil horas de voo, possuindo um gabarito elevado.

Hermínio Fernandes era instrutor e os novos pilotos que terminaram a formação, incluídas as cinco mulheres que foram formadas na Academia da Etiópia, passaram pela sua capacitação.

Quanto ao co-piloto, Gracio Gregório, possui experiência, com uma tarimba elevada de voos nos aviões “Q 400”, da “Bombardier” canadiana, ao serviço da empresa “MEX”.

Tanto o piloto, como o co-piloto, possuíam todas as valências necessárias para dirigir voos, tendo feito recentemente a junta médica, bem como os testes de proficiência em simulador no mês passado.

Os restantes membros da tripulação, designadamente o chefe de cabine, os dois assistentes de bordo e o técnico de manutenção, foram descritos como sendo profissionais com larga experiência de voos.

CTA cancela

realização da “Gala Anual”

A Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA) decidiu cancelar a Gala Anual do Sector Privado, marcada para o dia 16 de Dezembro, em solidariedade para com as famílias das vítimas do trágico acidente de avião do voo da companhia das Linhas Aéreas de Moçambique, ocorrido no dia 29 de Novembro, onde perderam a vida 33 ocupantes a bordo e que colocou o País em luto. Sendo a Gala um momento festivo e de fortalecimento de laços entre o governo e o sector privado, o Conselho Directivo da CTA decidiu cancelar a efeméride.

Refira-se que, para este ano, na Gala Anual do Sector Privado seriam distinguidas e premiadas as entidades que mais contribuíram para a melhoria do ambiente de negócios e crescimento económico do País e que contaria com cerca de 600 convidados, entre membros da CTA, membros do Governo, empresários parceiros de cooperação, académicos e membros da sociedade civil.

Última Hora

Arrancou exame de ADN

Uma equipa de especialistas começou, na sexta-feira, a recolher amostras de ADN dos familiares das vítimas da queda do voo “TM 470”, que se despenhou na Namíbia.O processo decorre em Maputo e pretende facilitar o processo de identificação das vítimas, bem como permitir a entrega dos seus restos mortais e pertences às famílias.
A empresa Linhas Aéreas de Moçambique (LAM) ressalvou, através de um comunicado, que o procedimento é confidencial: «O processo vai ser conduzido em privado e os dados permanecerão confidenciais para sempre. Nada será revelado a ninguém que esteja fora deste trabalho, apenas terão conhecimento as pessoas que recolhem a informação, as pessoas que apoiam as famílias neste processo, os técnicos dos laboratórios que farão as análises e as próprias famílias»
A companhia aérea revelou ainda que as vítimas serão homenageadas num memorial, a edificar a médio prazo.

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