Internacional

A sofrer, mas com orgulho pela pátria

Zimbabwe é o país que mais dá nas vistas no contexto da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) porque há cerca de 15 anos alfinetou os interesses britânicos ao expropriar a terra aos colonos ingleses para devolvê-las aos verdadeiros donos da terra. Foi uma decisão ousada que desencadeou uma profunda crise social e económica que, entretanto, começa a ser superada. Só os zimbabueanos conhecem o “pão” que tiveram que engolir.

Aterramos no Aeroporto Internacional de Harare quando passavam vinte minutos das 21 horas. Obedecemos às formalidades exigidas pelos serviços de emigração e rumamos em direcção ao Cresta Jameson Hotel, localizado no centro da capital.

Tínhamos a referência de que a maior avenida de Harare leva o nome de Samora Machel e, mal entrámos nela, percebemos que aquela via tem a grandeza do nome que lhe foi atribuída. É nas suas margens que se encontra o banco central, entre outras instituições de soberania.

Entretanto, o choque foi testemunhar com os próprios olhos que praticamente não há iluminação pública nestas estradas, incluindo as vias adjacentes e em muitos edifícios devido à racionalização que é feita para conter custos. Parte da beleza urbana some com a escuridão.

A pátria de Robert Mugabe já foi a segunda maior economia da África Austral, depois da África do Sul, com uma pujante actividade agrícola, exploração de diamantes, agro-processamento, indústria, intenso comércio interno e internacional, incluindo para a Europa e Estados Unidos da América.

O Zimbabwe também já foi uma nação de relevo no que se refere à formação de recursos humanos, com alguns dos melhores funcionários bancários do continente. No desporto, idem. Os zimbabueanos tinham sempre algo a dizer.

Tudo isso aconteceu tranquilamente até por volta do ano 2000, altura em que expirou o acordo de Lancaster House, alcançado quando este país conquistou a Independência Nacional. Tal acordo estabelecia que a terra deveria ser devolvida pelos colonos britânicos aos nativos.

No lugar de uma entrega pacífica, tendo em conta que em 1980 essa matéria foi até rotulada de “gentleman agreement”, ou seja, acordo de cavalheiros, na hora os tais colonos os britânicos começaram a inventar estórias para contornar a sua materialização.

Porque os desatinos se tornaram intensos, o governo zimbabueano deixou que a população tomasse a terra e respectivos meios de produção, ao mesmo tempo que os farmeiros eram “convidados” a desandar do país.

A partir daquele instante instalou-se a crise económica, uma vez que os fazendeiros levaram consigo o sustentáculo da agricultura que eram os bancos e respectivo dinheiro. Os zimbabueanos ficaram com a sua terra, mas sem meios para fazer uso adequado dela.

A par da falta de dinheiro para investir na produção, muitas, senão todas, as empresas de capitais europeus e americanos que desenvolviam actividades complementares fecharam as portas e deixaram milhões de pessoas no desemprego até hoje.

A decisão de bater com a porta na cara dos zimbabueanos tinha o objectivo de pôr o país de joelhos a implorar por um eventual retorno à primeira forma, porém, isto nunca aconteceu porque o governo local entende que a terra é uma questão de soberania. É a base para uma verdadeira independência económica.

Perante este quadro, o Zimbabwe foi elevado à categoria de inimigo dos interesses britânicos e americanos, pelo que passou a sofrer amargas sanções económicas que implicam, entre outros, não ter empresas multinacionais de origem europeia ou norte americana no seu solo, à excepção da Coca-cola, que parece não estar nem aí para esse tipo de assuntos.

SOFRER SEM PERDER A COMPUSTURA

Apesar de a vida ter ganho um sabor acre naqueles primeiros momentos, com chefes de família a ficarem desnorteados por falta de pão para dar aos filhos, consta que a população sempre teve presente que aquela decisão tinha que ser tomada para conferir uma independência total e completa ao país.

Aliás, o Zimbabwe precisava fazer jus à célebre frase de Samora Machel que diz que “com a independência libertamos a terra e o Homem. No caso deste país, só se havia libertado o Homem, faltava a terra para completar o enredo.

Com efeito, e apesar de ser um país com a economia debilitada, a população deste país não perdeu a compostura e continua a preservar valores éticos e morais bastante altos a ponto de ser fora de comum ser assaltado na via pública. “Aqui não se roubam faróis e espelhos ou telemóveis. Há criminalidade, sim, mas não é um caos”, diz-se nas ruas.

Sem grandes alternativas para sobreviver, os zimbabueanos souberam improvisar soluções contando com a ajuda dos países vizinhos e também com o apoio de colossos económicos como a China, Tailândia e Emiratos Árabes Unidos, assim como de empresas privadas estrangeiras que tem estado a dar apoio financeiro e de meios de produção.

Como resultado dessas novas alianças não ocidentais, por exemplo, o Zimbabwe resgatou a sua posição de líder mundial da produção de tabaco, tendo recuperado de menos de dois milhões de toneladas anuais para cima de 2.6 milhões de toneladas.

Por outro lado, a aposta no ramo agrícola passou a ser orientada para produtos de exportação com bastante procura nos mercados orientais, com particular incidência para a soja, algodão e produtos alimentares diversos.

Depois da reforma agrária, a população foi orientada a assumir a responsabilidade de produzir comida e culturas de rendimentos como tabaco, algodão a soja. Hoje temos cidadãos zimbabueanos que são campeões nisso. É verdade que temos dificuldades para ter financiamento, mas começam a surgir empresas que querem fazer parte do nosso desenvolvimento”, disse fonte governamental que não quis ser identificada.

Porque a situação do desemprego é tida como exponencial, ouvimos vários cidadãos em diferentes locais da cidade de Harare os quais confirmam o facto, mas muitos afirmam que a definição de desemprego é variável porque alguns entendem que quem faz negócios de esquina é desempregado.

Para sustentar, apontam que há cidadãos que desenvolveram pequenas iniciativas e que hoje se tornaram em pequenos e médios empresários. “O que importa é que estamos a fazer as coisas por nós mesmos e ninguém nos vai voltar a puxar o tapete e esperar que tenhamos um colapso. É disso que nos orgulhamos”, dizem. 

CIDADÃOS ATENTOS

Como seria de esperar, a decisão de resgatar a terra mereceu profundos aplausos por parte da maioria dos cidadãos locais, mas também gerou uma onda de protestos vindos de dentro e de fora do país, com a imprensa ocidental a rotular o presidente Robert Mugabe de todos os epítetos possíveis e imaginários.

Antes de chegarmos à cidade de Harare, capital do Zimbabwe, buscamos informações disponíveis sobre este país e muito do que já foi publicado indica que se está perante uma ditadura, sem democracia, liberdades, entre outros afins.

Entretanto, depois do contacto com a realidade local, deu para perceber que se está perante uma sociedade bastante atenta e vigilante para eventuais actos que possam pôr em causa a sua integridade como país, uma vez que estão conscientes de que anda por aí “um búfalo ferido” pela expropriação da terra.

A título de exemplo, qualquer jornalista estrangeiro que entenda desembarcar neste território passa por um pente fino, incluindo a declaração dos seus equipamentos, nomeadamente camaras fotográficas, de vídeo, computadores que devem ser registados numa base de dados.

De igual modo, os jornalistas devem indicar o que vem fazer, onde e quando, e só podem começar a recolher estórias mediante autorização da Zimbabwe Media Commission (Comissão Zimbabueana de Média) que atribui um cartão com nome, número, prazo de validade, categoria do jornalista, fotografia, entre outros.

Para o nosso caso, que fomos destacados para cobrir a cerimónia de abertura da 105ª Feira Agrária, o procedimento foi o mesmo e, mesmo estando na comitiva presidencial, vários colegas de profissão moçambicanos foram abordados pelas forças de segurança para apresentarem a sua identificação.

FEIRA À MODA ANTIGA

Apesar de todos os nomes que o Zimbabwe recebe da imprensa ocidental, particularmente o seu presidente, Robert Mugabe, a economia local começa a pulsar novamente graças a um conjunto de acções governamentais voltadas para a assistência social e económica, também conhecida por Agenda do Zimbabwe.

A referida agenda tem por objectivo estimular o investimento feito pelos próprios cidadãos zimbabueanos, os quais respondem com a criação de pequenas e médias empresas que são bastante acarinhadas pelo governo, como podemos testemunhar na Feira Agrária (Agri-Show), realizada durante toda a semana passada em Harare.

Trata-se de um evento que é realizado há 105 anos e que serve de montra da vitalidade económica que o Zimbabwe preserva, apesar da crise que ainda abala esta sociedade. E por falar em vitalidade, observamos que os números que corporizam esta feira nem parecem de um país rotulado de debilitado.

No ano passado, por exemplo, a Sociedade Agrária do Zimbabwe, entidade que organiza o certame atraiu para aquele recinto mais de 550 organizações empresariais que se exibiram em 710 standes que cobriam uma área de 76 mil metros quadrados, o que representava 83 por cento da área disponível.

No que se refere aos visitantes, o show agrário de Harare, organizado em 2014 foi visitado por cerca de 178 mil pessoas durante 10 dias, 60 por cento dos quais adultos. Mas, para rentabilizar o espaço, o Parque de Exposições funciona o ano inteiro e no ano passado acolheu mais de um milhão de visitantes.

O que torna esta feira algo invulgar é o facto de funcionar em moldes que lembram os bons e velhos tempos da Feira Internacional de Maputo (FACIM) quando ainda funcionava na baixa da cidade de Maputo, onde os expositores se apresentam em standes independentes.

Por outro lado, grande parte dos expositores traz os produtos acabados, mas não perdem a oportunidade de fazer demonstrações ao vivo sobre como fazer, onde e quando. Os visitantes deliram com isso e voltam em número cada vez mais crescente. É como se fazia na FACIM de 1977, 78 e 79.

Mais ainda, as Forças Armadas se apresentam e exibem armas de fogo desde pistolas, metralhadoras, tanques, helicópteros, motores de aviões de combate, entre outros, e até permitem que as crianças experimentem dar uns tiros com AKMs que levam pólvora seca.

A polícia do Zimbabwe também participa neste show e vem com tudo. De motorizadas a cavalos. Quem quer dar um passeio a cavalo fica à vontade e vai. Pequeno ou adulto. É só fazer uma pequena fila. Quem quer experimentar a sensação de montar numa mota que se usa para a escolta presidencial, idem.

Um maior e melhor certame está a ser planeado. Concluímos este ano a estratégia de cinco anos que vai tornar este local um centro de excelência na facilitação e promoção do desenvolvimento da agricultura do nosso país, onde vamos incluir seminários, entre outros eventos”, disse fonte ligada à organização do evento.

Jorge Rungo

jrungo@gmail.com

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