Editorial

Diálogo tem como alternativa o próprio diálogo

Um grupo de mulheres denominado “Mães, Esposas, Irmãs e Filhas pela Reconciliação Nacional e Paz Plena” reuniu-se quarta-feira última, em Maputo, numa oração ecuménica, na Praça da Paz, para orar pela paz.

 Em Tete, no mesmo dia, outras dezenas de mulheres, provenientes de todo o país e congregadas na Associação das Secretárias de Moçambique (ASSEMO) marcharam pelas ruas daquela cidade para dizer “Paz sim, guerra não no país”.

São ecos de vozes que sabem que a alternativa à paz é a própria paz e a alternativa ao diálogo é o próprio diálogo e não o uso da força. A paz é o maior valor da humanidade, harmonizada no amor ao próximo, na tolerância com o outro. A guerra é uma negação desses valores

As “Mães, Esposas, Irmãs e Filhas pela Reconciliação Nacional e Paz Plena” vieram dizer que “não existe causa alguma, coisa nenhuma que justifique a perda de vidas humanas, geradas por nós, os milhões de mães moçambicanas. Basta de matanças! Não queremos enterrar os nossos filhos e as nossas filhas, tornarmo-nos mães dos nossos netos”.

Vieram dizer que “as balas não escolhem! Não perguntam de que partido a pessoa é. Não perguntam a idade. A opção da guerra vai trazer luto para todos nós. Nada justifica a matança dos moçambicanos por moçambicanos. Queremos que os nossos filhos cresçam num país livre de ameaças. (…) Todos, sem excepção pertencem a uma única e grande família. Como em todas as famílias, temos formas de ser, estar e pensar diferente”

Na cidade de Tete, o grito ecoou no mesmo sentido durante a marcha intitulada “Grito pela paz”, onde se reiterou que “o conflito armado não nos leva para lado nenhum, pelo contrário cria ódio e separação de famílias”.

O nosso maior escritor, Mia Couto, na sua oração de sapiência, intitulada “o que era uma casa, a casa que era um país”, proferida também esta semana, na cerimónia em que lhe foi conferido o Doutoramento Honoris Causa pela Universidade Politécnica, disse o seguinte sobre este assunto candente na vida do país neste momento: “Todos os povos amam a paz. Os que passaram por uma guerra sabem que não existe valor mais precioso. Sabem que a Paz é um outro nome da própria Vida. Vivemos desde há meses sob a permanente ameaça do regresso à guerra. Os que assim ameaçam devem saber que aquele que está a ser ameaçado não é apenas um governo. O ameaçado é todo um povo, toda uma nação” 

E acrescentou: “(…) Mas é preciso que os donos das armas escutem o seguinte: não nos usem, a nós, cidadão de Paz, como um meio de troca. Não nos usem como carne para canhão. (…) Merecemos todo o respeito, merecemos viver sem medo. Quem quiser fazer política que faça política. Mas não aponte uma arma contra o futuro dos nossos filhos”.

Para nós, não podia haver palavras mais sábias, para dissuadir as mentes que neste momento pensam em fazer uma nova guerra no país para se beneficiarem de “qualquer coisa”, que, achamos, se calhar pode ser conseguida, se for o caso, à mesa do diálogo.

Já lá vão quase 23 anos em que a paz se mantém. Moçambique pode orgulhar-se de haver sido fiel aos compromissos assumidos em 1992.

Ao longo destes anos, no dia 4 de Outubro comemorámos sempre o silenciar das armas, e o triunfo do diálogo como metodologia de solução de conflitos.

A paz não se confunde com a ausência de guerra, mas esta ausência é condição imprescindível para a construção da paz, paz esta que é um processo e nunca uma conclusão.

 Paz é desenvolvimento. Quem o disse, de forma lapidar, foi o Papa Paulo VI, na sua famosa enciclica, Populorum Progressio (O Progresso dos Povos) ao afirmar que “desenvolvimento é o novo nome da paz”. Referia-se ao desenvolvimento da pessoa humana, que tem como base a implementação dos seus direitos fundamentais. Assim é que, nesta linha de considerações, a fome é contra a paz, o mesmo acontece com a doença, com a liberdade de informação e pensamento, etc.

Os que hoje pensam em fazer uma nova guerra em Moçambique são contra esta corrente. As guerras no país não são bem vindas, sejam quais forem os patrões que lhes encomendem.

A guerra é sempre devastadora, cruel. Coloca irmãos contra irmãos, destrói infra-estruturas e bens (*) e atinge o cerne do desenvolvimento dum país. Deixa marcas indeléveis no tecido económico, social e humano.

A guerra dos “16 anos” deixou tudo isto que aqui relatamos e muito mais, e ninguém, que ame o seu povo, o seu país, quer ver isto repetido, seja a mando de quem queira que seja, como aconteceu com o conflito iniciado em 1976.

É que nesses 16 anos de guerra até ao Acordo Geral de Paz, em 1992, a população sofreu na carne todos os atropelos à sua dignidade. Saída do domínio colonial, via-se impossibiltada de gozar da sua liberdade. Nem as estradas, nem as pontes, nem os hospitais, nem as escola, eram lugares de segurança. De um momento para o outro, apareciam os então chamados “bandidos armados”, mais feras que homens, e tudo varriam à sua passagem. Mesmo, aqui, nos arredores de Maputo. As pontes de diálogo cuja construção se ia tentando, desabavam todos os dias no terreno da maior das crueldades.

 E foi aí que se chegou à certeza de que a guerra a nada conduziria, só restava o diálogo persistente, humilde, tenaz, sem desfalecer. Afonso Dhlakama, também ele, estava ciente de que a guerra o não conduziria ao poder.

Esperamos que mantenha agora essa lucidez e não se deixe enganar pelos arautos da guerra. Esperamos que ele mantenha essa lucidez e abandone a retórica da violência que vem usando nos últimos meses e se enquadre no processo democrático.

Democracia não é, porém, ausência de conflitos. É, isso sim, ausência de conflitos armados. Democracia é precisamente o sistema de aprofundamento dos conflitos, não da sua gestão, aprofundamento esse que faz parte integrante da metodologia da sua superação.

A única democracia digna deste nome é a democracia crítica, em que tudo se discute e pode ser revisto, através do diálogo militante e solidário.

Por isso, alinhando com o nosso escritor-mor, neste espaço também apelamos: quem quiser fazer política que faça política. Mas não aponte uma arma contra o futuro do país, do povo e da nação moçambicana.

(*) = Os dados históricos citados neste espaço na nossa última edição foram obtidos no blogue do Professor Doutor Carlos Serra

 

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