Editorial

Bombas de efeito retardado

A sociedade tem tendência a impor, nos seus membros, determinados modelos e padrões para quase tudo. Alguns modelos são mais visíveis do que outros. Um dos que mais se destaca na actualidade é o modelo de beleza. 

Tanto para os homens como para as mulheres. A preocupação com o corpo, com estética era, até há alguns anos, um mundo reservado quase exclusivamente para as mulheres. Mudaram-se os tempos, mudaram-se os paradigmas. Agora a correria desenfreada rumo ao corpo perfeito é a meias…

A ditadura da beleza é tanta que há pessoas dispostas a fazer sacrifícios de toda a sorte para conseguirem os seus objectivos. Nem o aviso de Arthur Schopenhauer  de que “o maior erro que um homem pode cometer é sacrificar a sua saúde a qualquer outra vantagem” parece demove-los dessas empreitadas que vão da simples maquilhagem até às cirurgias de estética quando não da febre dos músculos. E é sobre este último quesito que pretendemos compulsar. Na edição que o leitor tem em mão, o domingo traz uma reportagem sobre a proliferação de ginásios de musculação um pouco por todo o lado. Se os há com qualidade e pessoal capacitado, também há outros tantos que mais parecem oficinas a julgar pela quantidade de ferros, fuligem e pelo lusco-fusco da iluminação.

Nesses espaços, acotovelam-se dezenas de jovens e adultos que, inspirados pelos heróis dos filmes de acção americanos, nomeadamente Jean Claude Van Damme, Sylvestre Stallone, o Rambo, ou Arnold  Swarzenneger, o comando, suam as estopinhas puxando ferros e levantando roldanas de peso desconhecido. Aliás, cartazes com esses colossos de músculos hipertrofiados são comuns nessas “garagens”. A nota comum é que a maior parte dessas oficinas de músculos não têm pessoal (treinadores) cientificamente preparados.

Especialistas em Educação Física dizem que muitos destes locais não oferecem condições mínimas para serem assumidos como ginásios e, pior do que isso, os instrutores não percebem uma vírgula do assunto, o que pode levar os frequentadores a ganharem defeitos físicos de difícil reversão. O assunto é de tal ordem preocupante que os referidos especialistas em educação física avisam para um não longínquo problema de saúde pública. E o alerta é sério porque, para além de praticarem exercícios físicos bastante intensos sem o devido acompanhamento, muitos dos candidatos a “Rambos” também tomam preparados químicos (vitaminas) que são vendidos em algumas farmácias e supermercados. Suspeita-se que alguns até tomem substancias proibidas perigando, naturalmente, a sua saúde.

 

Porque existe um profundo risco de mazelas físicas irreversíveis, os “experts” em Educação Física vão mais longe ao sugerir que se comece a cogitar na regulamentação do funcionamento destes recintos para se evitar o pior, sobretudo entre adolescentes e jovens. Segundo eles, o corpo humano precisa de actividade física sim mas, há limites que devem ser respeitados para cada indivíduo. Alertam que há princípios que devem ser observados para incrementar o aumento da massa muscular (hipertrofia),nomeadamente treinamento adequado com a resistência de pesos e demais actividades físicas; Nutrição especializada, incorporando proteínas e outros suplementos alimentares visando a liberação de harmónios para aumentar a síntese proteica e repouso (descanso) adequado para a recomposição muscular. Conforme dizem, a prática excessiva de actividades desportivas sem acompanhamento de indivíduos qualificados pode provocar vários problemas para o praticante, nomeadamente, a ruptura muscular, desalinhamento da coluna vertebral e, em alguns casos, hérnias. No auge do esforço, podem ocorrer acidentes cardiovasculares e rompimento de vasos sanguíneos.

Na prática da musculação, muitos atletas acabam recorrendo ao uso de esteroides anabolizantes para o aumento de massa muscular de modo mais eficaz em um prazo de tempo menor, esta prática é prejudicial à saúde,já que estes são harmónios sintetizados. Muitos jovens são incentivados pelos “treinadores”  indicando a quantidade que eventualmente dará mais resultados em cada jovem. Mas essa prática não tem nenhuma base científica comprovada. O uso de esteroides anabolizantes e do fisiculturismo aumentam proporcionalmente a cada dia, e é cada vez mais comum ver atletas jovens usando anabolizantes para obterem mais força, músculos e definição.

Nalguns ginásios visitados pelo “domingo” foi possível ver jovens com músculos hipertrofiados, alguns dos quais movendo-se de forma robótica devido ao tamanho dos bícepes e músculos nas coxas. Nota-se a olho nú que tais músculos foram ganhos com recurso a substancias proibidas. Aliás é preciso referir que no mundo fisiculturismo (desporto com regras bem definidas) há histórias de atletas que, por causa do consumo de substâncias proibidas, tiveram enfartes ou rompimento de intestinos durante as provas de exibição ou mesmo durante os treinos. Embora entre nós a pratica do fisiculturismo não seja ainda visível, os jovens que hoje enchem os referidos ginásios, no fundo, almejam ter corpos definidos como aqueles dos atletas profissionais. A questão é como vão chegar lá.

As autoridades da saúde e do desporto têm aqui mais um desafio a juntar ao rol de problemas que já enfrentam; há que encontrar um antídoto para travar não só a pratica de actividades fisicamente nocivas como também os “perigos invisíveis” do consumo de “multivitaminas” e outras substâncias que, a breve trecho, irão ter efeitos sobre a saúde cardio-vascular e ou cerebral de alguns “atletas”.

À busca da saúde, pelo que se pode depreender, pode ter efeitos bastante perniciosos para as pessoas que, sem olharem a meios, buscam a perfeição corporal em lugares igualmente inapropriados.  Mark Twain ensina que  a  única maneira de conservar a saúde é comer o que não se quer, beber o que não se gosta e fazer aquilo que se preferiria não fazer.

Alguns preferem simplesmente carregar ferros!

 

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