Desporto

Atletas do século: porquê e para quê?

Todas as sociedades têm as suas referências, que se destacam ou se destacaram nas várias áreas, da política à sociedade, da medicina à música, da ciência ao desporto.

São os seus mais brilhantes filhos, figuras cujos feitos perdurarão como exemplo para inspirar gerações vindouras.

 

Moçambique, mercê dos séculos de resistência à colonização, viu muitos dos seus filhos “esquecerem-se” de si próprios em benefício do país que os viu (e fez) nascer. Os seus nomes e exemplos estão registados em avenidas, escolas, praças e pracetas.

Também o desporto, todo ele uma manifestação mobilizadora de massas, produziu ídolos que marcaram gerações, estrelas que atravessaram fronteiras, homens e mulheres em cujos nomes nos revemos e sentimos orgulho.

 

GRANDE HONRARIA…

QUE RECONHECIMENTO?

Em devido tempo – seguramente há mais de 20 anos – em nome do Estado moçambicano, o Ministério dos Desportos decidiu eleger os maiores dentre os maiores.

Especialistas da área reuniram um conjunto de atributos e não foi de ânimo leve – pensamos nós – que escolheram os três atletas do Século. Uma ideia bonita, com sustentação e prontamente aplaudida por quem gosta de ver reconhecimento e justiça.

Foram eles: José Magalhães, nesta altura no escalão dos 70 anos; Cândido Coelho, com 60 e poucos e Lurdes Mutola a passar a fasquia dos 40 anos.

Quem viveu e acompanhou a trajectória desportiva destes atletas e o seu papel – em épocas distintas – na difusão da nossa actividade desportiva, tem que reconhecer que a escolha foi justa. Daí que todos nós, moçambicanos, nos tenhamos que rever nestes “ícones”, independentemente das preferências quanto a modalidades ou clubes.

Numa cerimónia sem muita pompa, os três atletas do século foram brindados com troféus cujo peso pouco se tem valorizado.

 

“SORTES” DIFERENTES

E daí para cá???

Lurdes Mutola, porque a mais recente glória, ainda beneficiou (beneficia?) de algum apoio do Estado, traduzido em bens imóveis e facilidades de outra ordem. Usando o prestígio e a capacidade em fazer coisas, a Menina de Ouro tem uma Fundação, sempre pronta a apoiar o desporto e alguns objectivos sociais. Lurdes tem utilizado a sua experiência em benefício dos atletas mais novos, sendo actualmente treinadora da estrela sul-africana que responde pelo nome de Caster Semenya.

Quanto aos outros dois “seculares”…

Para além da entrega do troféu, à data da distinção, que mais fez o Estado para dignificá-los e, consequentemente, o troféu que os coloca no “panteão” de heróis do desporto nacional?

José Magalhães, de longe o maior “sprinter” moçambicano de sempre, vive incógnito em Nampula, com dificuldades, graças a uma reforma de longos anos nos CFM, como operário. Será que o desporto e as suas incomparáveis marcas, não justificam um apoio específico?

Em situação idêntica está Cândido Coelho, o mais eclético atleta de sempre, o maior declatlonista do então espaço português, atleta ímpar e que renunciou a um chorudo contrato com o Benfica de Lisboa, para não virar as costas ao nascimento do seu país.

São dois atletas do Século, que nem sequer servem para “inglês ver” e moçambicano recordar!

Recentemente, Moçambique enquadrou, com muito brilho, os X Jogos Africanos. Lurdes Mutola, de forma apagada, integrou a equipa feminina de futebol e por aí se ficou. Dos outros dois atletas do Século, por mais incrível que pareça, nem sequer um convite para ocuparem os lugares que merecem.

Isso não é o que acontece em Cuba, com Juantorena e Stevenson; em Portugal com Rosa Mota, Carlos Lopes e o “nosso” Eusébio. Nem noutros países com história, com memória, que usam as suas “bandeiras desportivas”, amiúde, par reviverem feitos e inspirarem gerações.

 

ANTES TARDE

QUE NUNCA

Muitos outros atletas, de várias modalidades, merecem reconhecimento. Não esmola. Mas há níveis. Os do Século estarão, seguramente, na 1.ª linha. Será por eles que se deve começar. Não é um problema de pessoas, mas de Estado. Que tem que fazer jus a uma distinção, para que todos nos continuemos rever nela e neles. Para manter viva a chama dos seus feitos. As estrelas, não devem continuar a entrar pela porta grande, para depois terminarem incógnitas. Por vezes na miséria.

Lurdes Mutola tem uma avenida, uma Fundação e condições sociais dignas. José Magalhães e Cândido Coelho, têm… sorte diferente. Poucos já (re)conhecem os seus feitos.

Mas nunca é tarde. Importa imortalizá-los em vida, pelo “peso” do título que ostentam e, a partir deles, difundir a mensagem de que o País não esquece os seus melhores e mais representativos filhos.

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