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Tatuados com ossadas de cão

Esta chegou ao Bula através de colaboração prestável dum assíduo leitor nosso. Ele conta o seguinte: Em Moçambique inexiste um segmento específico de consumo de cannabis sativa, vulgo soruma. Se os rapazes, aqui na cidade, usam-na para “zaragatices” e/ou 

qualquer fim auto-destruidor, em alguns lugares de Moçambique, camponeses há que a usam para para aumentar a produção e a produtividade, no lar e na machamba.

Falando de hábitos, vícios e cultura, há que referir que em Gaza há uma máxima que defende que indivíduos que estão constantemente a levar porrada foram “tatuados com ossadas de cão”. Mas talvez seja míster perceber um pouco a natureza desta máxima antes de avançar: em Gaza, o cão é dos animais mais desprezíveis; o pior insulto a um natural de Chibuto ou Guijá, por exemplo, seria chamá-lo de ngwana (cão). Depois do insulto proferido rolam joelhadas e cabeçadas à “Chimbutso Muzaya” e alguém sai infalivelmente ferido, isto porque não se pode ofender alguém usando do tão baixo insulto. O canino tem quase uma função felina: caçar para o dono. Este come toda a carne derivada do trabalho do animal sem dar sequer um osso ao abnegado trabalhador/caçador. Aliás, ai do cão se se aventurar a comer a sua própria presa.
A única situação em que o cão tinha direito de provar uma refeição oferecida pela mão do dono, era aquela em que o dono desconfiava que a sua própria mulher, o quer matar, porque aí, quem tinha de fazer a prova da comida era o fiel cão. No caso de cair morto, o dono saberia que a comida estava envenenada e, caso não, podia comer sem qualquer problema e ainda com direito ao arrependimento pela parte que foi para o khombomuni (azarado) do cão.
Lembrar ainda que o cão não podia se atrever a sair do seu quintal desacompanhado do dono, porque era barbaramente apedrejado e encurralado, até à morte. Hão-de ver que não são loucas, pois as gentes de Gaza quando designam um indivíduo que está constantemente a apanhar, como tendo sido tatuado com ossadas de cão.
Voltando ainda à nossa referência de Gaza, aliás, aqui é sempre onde as coisas acontecem, a Polícia da República de Moçambique, parece ter sido tatuado com osso de cão. Ela está sempre a levar porrada quer ela tenha razão ou não. Num passado recente, quando o músico moçambicano Azagaia – hoje confesso consumidor – foi detido pela Polícia por posse de soruma as pessoas vieram ao de cima, “encurralaram” a Polícia e “apedrejaram-na”.
Afinal, a Polícia tinha razão? Questiona o cidadão indignado com as revelações do músico segundo as quais a soruma fê-lo perder emprego, lar e amigos. Se a Polícia tinha razão? E isso interessa a quem foi tatuado com ossadas de cão? E o visado quando confrontado se a suruma era a causa dos seus males, ele defendeu que não, a soruma na sua óptica não era o problema, o problema era sim a sua relação com ela. Defendia assim os que a usam para o bem. Ainda lhe resta (um pouco de) coerência.

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