Bula Bula

Sobre migrações e quejandos…

O que o desenvolvimento nos dá a ver… os nossos antepassados devem estar a contorcer-se de tanto rirem lá do alto de onde nos vigiam noite e dia. É que não lembra ao diabo que a modernidade, ao invés de facilitar a vida do Zé Povinho, esteja a provocar-lhes calos nas plantas dos pés.

Não é que com o advento da televisão digital, que obriga a migrar do analógico para o tal, iniciou, em paralelo, outra migração: da casa de uns para a dos outros… para ver televisão. Faz lembrar o que acontecia nos anos 80, quando a televisão era simplesmente experimental. Nesses tempos – de boa memória – o pessoal migrava para o círculo do bairro onde se podia curtir o “Espaço 40”, “Espaço Noticioso”, entre outros programas, que animavam as noites.

Bula-bula esteve há dias lá pelas bandas de Boane, província de Maputo, e constatou que há um número elevado de famílias que está à nora por causa da migração digital… é que ficaram privadas do sinal de televisão e – como uma desgraça nunca vem só – faltam os famosos descodificadores.

Com efeito, há uma romaria aos vendedores autorizados dos famosos descodificadores. Diz-se até que há gente que paga adiantado e depois fica semanas num tormento de espera que só visto. Um amigo de Bula-Bula comparou a longa espera à travessia do deserto dos que fugiam do faraó. O ponto é que alguns já desesperam.

Uma das “vítimas” dos descodificadores lamentou o facto de “estar a perder as cenas que estão a acontecer no julgamento das dívidas não declaradas”. Fê-lo num tom de dar dó, logo ela que se afeiçoou pelo Mutotinha. A outra, amarrando com alguma destreza a capulana que ameaçava despenhar, disse que o marido já andava com as orelhas vermelhas “porque para não perder as minhas novelas favoritas tenho de ir todos os dias à casa da minha irmã”. Rematou dizendo que “isso não é bom”.

A verdade é que as lojas não têm descodificadores… aqueles da TMT que, pelo preço, parecem atrair mais o Zé Povinho. Parece que se está a ensaiar uma viagem no tempo, para aquelas alturas em que quem tivesse um aparelho de televisão na zona era um autêntico Bill Gates. Mandava no pessoal todo… podia, inclusive, para diminuir a afluência, mandar algumas crianças tomarem banho como condição para se sentarem no chão frio da sala.

Alguém ponha a mão na coisa, porque o cenário começa a criar embaraços. Migrar sim… mas para o digital e não para seara alheia!

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