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Paulina Chiziane figura cultural

A escritora moçambicana Paulina Chiziane foi a vencedora do Prémio Camões 2021, numa escolha unânime anunciada a 20 de Outubro. A autora encaixou 100 mil euros na conta, fruto do trabalho que vem desenvolvendo há mais de 30 anos.

A escritora tornou-se a primeira mulher moçambicana e africana a receber o Prémio Camões, que é considerado o maior galardão da literatura de língua portuguesa.

“Escondida” da pandemia do novo coronavírus no bairro do Albasine, onde reside, a notícia chegou-lhe através de uma chamada telefónica quando confeccionava o seu alimento. Gerida a emoção, Chiziane disse instantes depois que sempre foi uma mulher de provocar diálogo, através do seu pensamento e atrevimento, tudo com o intuito de ver Moçambique desenvolver-se.

Apesar de escrever e reflectir bastante sobre a condição humana, no geral, e da mulher, em particular, recusa ser feminista. Para ela, a finalidade do debate que procura sempre reacender é encontrar espaços para a realização tanto da mulher como do homem, num processo em que respeita as liberdades e escolhas individuais.

Destaque-se que, depois do Prémio Camões, houve outros tantos reconhecimentos à autora moçambicana que vive o dia-a-dia pela arte de pensar e lutar pelo bem comum. Uma das cerimónias de reconhecimento foi organizada recentemente pela Associação Bela Arte, em parceria com a Associação dos Escritores Moçambicanos e Secretaria de Estado da Juventude e Emprego, para celebrar a vida e obra da Paulina Chiziane.

Acrescente-se que Paulina tem endereçado, igualmente, diversos recados à juventude para que desperte para a vida, numa clara alusão negacionista em relação ao neo-colonialismo. É por isso mesmo que tem defendido de viva-voz que a terra deve ser entregue aos moçambicanos, incluindo os seus recursos, e que a juventude deve colocar-se na linha da frente da defesa dos interesses de um Moçambique livre do domínio estrangeiro. Afirma que “é preciso aprenderem a ler a vida. Não podemos aceitar perder até a terra”.

Paulina Chiziane foi a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique, em 1990, “Balada de Amor ao Vento”. Da sua obra fazem ainda parte “Ventos do Apocalipse”, “O Alegre Canto da Perdiz” (2008), “As Andorinhas” (2009), “Na Mão de Deus” e “Por Quem Vibram os Tambores do Além” (2013), “Ngoma Yethu: O Curandeiro e o Novo Testamento” (2015), “O Canto dos Escravos” (2017) e “O Curandeiro e o Novo Testamento” (2018). Este ano lançou em Maputo, com Dionísio Bahule, o livro “A Voz do Cárcere”, depois de ambos entrarem nas prisões e ouvirem os reclusos.

Alguns dos seus livros foram publicados em Portugal e no Brasil, e estão traduzidos em inglês, alemão, italiano, espanhol, francês, sérvio e croata, o que mostra que a sua grandeza ultrapassa as fronteiras do nosso país.

Cabe-lhe, e muito bem, pelos argumentos apresentados, a honra de ser a figura do ano cultural do domingo!

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