Artes & Letras

Mapiko

O homem que não tem a música dentro de si e que não se emociona com um concerto de doces acordes é capaz de traições, de conjuras e de rapinas, disse-o Shakespeare. Concordo em absoluto com este homem de artes, cuja expressão máxima conseguiu ao serviço do teatro.

A música, faz bem. O nosso Chico António definiu a música como uma combinação harmoniosa de sentimentos; que na natureza tudo é música até o simples farfalhar das folhas secas. Chico está mais do que certo. Agora pergunto: Como não gostar dos recortes sonoros de Fany Mfumo, Eusébio “Zeburane” Tamele, Mingas, Stewart Sukuma, Wazimbo, entre muitos outros que, com rara mestria fizeram essa combinação de sentimentos? Quem é que não esboça um sorriso quando ouve uma bela composição?

Pois, eu gosto de boa música. Só da boa. E nós, aqui no país, temos muita e boa música. Tanto “moderna” como “tradicional”. A riqueza é tanta que há quem chame Moçambique “mosaico cultural”. É tal a profusão de ritmos que podíamos produzir discos como quem faz pipocas… havendo dúvidas, os arquivos da Rádio Moçambique e do Instituto de Património Cultural podem desfazê-las num instante!

Pois, dizia que, temos boa música. Intriga-me, por isso, que grande parte das rádios nacionais, pelo menos as que se captam aqui na cidade de Maputo, se dediquem, sem pejo nenhum, a passar quase exclusivamente música estrangeira, com particular realce para a famosa “Passada”. Não há xenofobia musical nessa minha constatação. É apenas um facto. Que não haja confusão nenhuma. Eu aprecio uma data de artistas de outros tantos países africanos, europeus, asiáticos e americanos. Gosto de boa música… pode ser da Mongólia, Butão ou Suriname… gosto mesmo!

Mas não deixa de me aquecer as orelhas quando, em hora e meia de rádio, num “Zapping” por diversas estações radiofónicas, oiço apenas música estrangeira. Acontece-me com uma regularidade incrível. Acho que as vezes os astros conspiram contra a minha pessoa. Passo de estação em estação e só oiço “Passada”. Fico passado. Não haverá critérios para a divulgação musical? Do tipo “X” porcento tem de ser nacional e “Y” estrangeiro? Acho que isso devia estar plasmado nas políticas editoriais das nossas estações radiofónicas. Devia ser obrigatório.

Repito: não faz sentido nenhum (pelo menos na minha cabeça) que uma rádio nacional passe mais de uma hora sem tocar nada dos artistas locais. Acho isso incrivelmente estúpido. As rádios e outros órgãos de comunicação social, têm o papel de (in) formar. De contribuir para a edificação de uma sociedade melhor. Forjar cidadãos. Alimentar espíritos.

Ora, não me parece que seja líquido que o estejam a fazer ao passarem horas a fio sem sequer se lembrarem de tocar alguma coisa da nossa lavra. Toquem tudo o que quiserem mas – por todos os santos – lembrem-se da prata da casa. Se não pode ser em grande estilo, pelo menos que seja do tipo 50 porcento nacional, 50 porcento estrangeiro. O que não está certo é só passarem música – alguma até de qualidade duvidosa – de fora. Depois queixamo-nos que os jovens não têm referências sobre o seu próprio país. É um contra-senso. É uma desgraça total.

A dor que me dilacera é imensa porque noutras paragens, noutros continentes e mesmo países vizinhos, honestamente, não me lembro de ouvir, ainda que de passagem, de música moçambicana. Lá fora só tocam a música deles. Querendo ouvir sons de outras realidades, só comprando os respectivos discos. Não acho que essa deve ser a nossa postura. Não vamos ser radicais mas, por favor, toquem também a nossa música. Essa fobia pela música nacional não lembra o diabo. Não faz sentido absolutamente nenhum que uma pessoa ligue o rádio e durante hora e meia só oiça música estrangeira… por mais boa que seja! Haja amor-próprio.

E já agora, em jeito de remate: parabéns Televisão de Moçambique pelo programa “Reviver”!

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