Artes & Letras

Entrevista com artista plástico

O desenvolvimento cultural, sobretudo nas artes plásticas na província de Tete, está a conhecer um retrocesso devido a falta de material básico, designadamente tintas, pincéis entre outros.

O mundo da pintura, que na década 90 arrebentou naquela província, com particular destaque para a cidade de Tete, está a conhecer um decrescimento paulatino conforme declararam ao domingoalguns artistas plásticos lá radicados.

Um dos decanos da pintura em Tete é Newton Joaneth, com quem mantivemos uma longa entrevista sobre a sua vida, que em seguida descrevemos.

 

Quem é afinal o Newton Joaneth?

Newton Joaneth é um artista plástico residente em Tete, e está a sensivelmente a 27 anos, natural de Nampula, trabalha em artes na componente de pintura artística, faz parte de um lote de três irmãos, casado, de 51 anos de idade e pai de 5 filhos.

Como é a Pintura como arte em Tete?

Eu penso que quando agente fala da arte e das mais diversas componentes, a arte é componente sólida para educação de um povo, é um meio de comunicação no qual o artista transmite os seus ideais, aspirações, retrata muitos factos passados em termos de registos históricos e não obstante perspectiva o futuro.

Pode se viver da arte em Tete?

Viver da arte não é muito fácil porque realmente eu tenho dito várias vezes em Moçambique há muitos e muitos aqueles que pintam mas há poucos profissionais da arte porque nem todo aquele que pinta é artista, o artista praticamente é a personagem que vê muito da sua força, o artista tem a natureza, as pessoas, o “modus vivend”, as manifestações culturais como um registo muito sólido da sua memória. Arte é cor, luz, harmonia, equilíbrio, uma série de componente relativas a cultura principalmente a pintura em si porque é da minha área.

O profissional da arte é um indivíduo que tem que trabalhar para convencer o que é obra da arte porque é um quadro artístico? uma escultura da arte é uma coisa que impressiona qualquer pessoa que conheça dessa área e a sensivelmente 36 anos que a minha carreira tem e até os 18 anos de pintura, eu ainda me considerava aprendiz de pintura, eu começo a sentir realmente leão de arte quando começo entender melhor alguns aspectos da arte pictória.

Fale nos destes 36 anos de pintor?

Ao longo de um processo de 36 anos não é fácil equilibrar, ter um patamar, uma qualidade de vida estável. No inicio a vida é muito difícil porque viver de obra de arte não é vender tomate, não é vender cebola, não é vender óleo, não é fazer o transporte de pessoas por exemplo e nos primeiros anos da vida artística, é uma complicação séria mas com o andar do tempo o curriculum fala, faz o artista, o artista sabe viver o seu valor por aquilo que ele fez durante os anos que passaram como pintor ou como artista plástico. Sabe, houveram alturas que eu pensei em desistir de pintar porque as coisas não andavam como eu queria e o mercado não era aquilo que eu desejava mas a vontade me venceu fiquei embriagado na arte, adoro a arte, gosto de ver obras de arte. Eu não ganho inspiração num gabinete ou num ateliê mas sim quando dou voltas de carro principalmente a pé pelas ruas apreciando as paisagens e de preferência gosto de estar sozinho porque eu me entendo e o meu melhor amigo sou eu, quero ver o mato, o rio, as florestas, os animais, a natureza. Já vivi em várias cidades do país mas quando cheguei a Tete gostei de cá ficar e uma das coisas que mais me inspira em Tete é o rio Zambeze.

Como é encarada a arte plástica na província de Tete?

Em termos profissionais eu não regionalizo a arte nem em termos de origem ou local onde eu vivo.Encaro a arte como uma componente universal porque a minha obra já não esta só em Moçambique, a minha obra esta nos Estados Unidos, na França, Itália, em Portugal, na União Soviética, na Espanha, na Bulgária e em muitos outros países. Em Tete onde vivo há poucas possibilidades para grandes vendas da minha producao, posso vender uma e até cinco obras por mês e as vezes nem uma sequer e vender noutros pontos do país. As minhas obras são vendidas fora do país e me sinto um artista internacional na medida em que tenho obras fora do país.

Em que momento sentiu a necessidade de se expressar como artista?            

 Desde criança eu tinha uma brincadeira muito esquisita, eu sujava os pés todos com areia e ficavam brancos e desenhava os pés todos e me recordo que em 1979 em Inhambane fiz uma imagem do Vasco da Gama no caderno e mostrei a professora e na altura a professora era branca no tempo colonial e ela disse que eu tinha muito jeito para o desenho e que quando eu fosse mais crescido seria um desenhador e eu levei aquilo na brincadeira porque para mim um desenhador era aquele que desenhava bonito e bem. Em 1981 faço a exposição colectivo que era uma exposição de escultura, desenho, pintura, e outras vertentes culturais poesia também e tive o grande privilegio na minha primeira exposição de expor com o malogrado Malangatana Valente Nguenha em Nampula e como poeta estava lá o falecido Rui Nogar, João Bonete artista plástico e por sinal um grande amigo e colega na pintura.

Vim a Tete a procura de emprego porque havia um mercado muito forte da arte na HCB e havia estrangeiros em demasia e não só por isso como também havia pessoas que já conheciam as grandes galerias como o museu do Lubre na França, do Bunker em Portugal e grandes pintores do século passado no caso de Van Goc, Paulo Picasso, El Greco, e foi com estes que acabei ganhando mais experiencia na minha vida profissional.

 Onde encontra o material para o seu trabalho?

No mercado nacional já existe a venda muito material para arte plástica. Com o meu esforço pessoal já organizei certa de 13 exposições ondee na sua maioria na cidade de Tete e Vila do Songo, e já apareci em algumas colectivas  em vários pontos do país e devo dizer que sou membro de Clube de Arte em Maputo. Tive oportunidade de tomar parte em alguns workshops no Maputo, Beira e Nampula.

O que seria prioritário para divulgar mais a arte em Moçambique?

A Arte em Moçambique vai ganhar e já esteve muito bem e com avalanche todo do estrangeiro para o nosso país eu estou certo que a arte terá adesão mesmo havendo museu de arte em Tete vai haver muitas visitas em Tete porque há muita gente na nossa província e estou a preparar me para esse afluxo dessas pessoas que estão em Tete ate já estou a preparar um ateliê que será a minha sala de visitas porque eu sei que a arte vai dar muito, não me refiro ao dinheiro porque não se fala de dinheiro quando se fala da arte mas não digo que não gosto de dinheiro…risos mas falo de projeção de Tete com o mundo artístico, como um sitio onde se falará da arte e se ver a arte como algo muito importante.

Que mensagem deixa aos novos artistas?

Vão a escola fazer licenciaturas, trabalhar nas empresas para ajudar a desenvolver este país porque viver só da arte não é fácil e já me arrependi várias vezes em desistir… continuem a pintar mas vão formarem se nalguma coisa, o país precisa de muitos homens.

 

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