Opinião

As multidões da campanha eleitoral 2014: como interpretar?

Sem querer ser saudosista, sinto que os comícios da época de Samora Machel estavam na moda e atraiam multidões. De lá para cá muita coisa mudou, e o comício tem perdido o seu prestígio. Entretanto, esta campanha eleitoral contrariou esta acepção.

Nas imagens televisivas ficou patente que o eleitor aproximou-se dos candidatos e participa activamente no movimento político e, neste texto, proponho uma tentativa de intepretação deste fenómeno.

A televisão mostrou um Daviz Simango cabisbaixo e sem vigor em relação às suas aparições nas últimas eleições. Em algum momento, em zonas urbanas localizadas, com destaque para Beira, Simango conseguiu arrastar alguma multidão. Entretanto, notou-se uma clara falta de emotividade em seus comícios. O que se viu na media lembrou-me “A Sabedoria das Multidões” de James Surowiecki, colunista e editor da área de negócios da revista New Yorker que se refere à teoria de comportamento de manada (Teoria desenvolvida por Gustavo Le Bon) que defende que existem situações em que indivíduos em grupo reagem todos da mesma forma, mesmo sem existir direcção planeada.

 

Os brasileiros chamam também ao fenómenno de "Mariavai- com-as-outras" mas, quando as pessoas descobrem que aquela acção está sobrevalorizada começam a desfazer-se dela de forma colectiva. Sinto que o que aconteceu com Deviz Simango é mais ou menos isso.

Por arrastamento, e sobretudo na zona centro, as pessoas foram aos comícios, e houve multidões que o seguiram, mas o esvaziamento de discurso e a imagem enfraquecida do candidato (confirmada pela grande entrevista dada na STV) corroeu a sua franja de apoiantes. Simango perdeu o seu capital, coisa que Manuel de Araújo e o seu delfim Geraldo já notaram, daí as suas recentes aparições públicas em clara tentativa de disfarçar a situação. Será por isso que vários militantes do MDM “desertaram"?

O caso do Filipe Jacinto Nyusi é exactamente o contrário do fenómeno Simango. Nyusi começou por ser considerado um desconhecido no panorama político nacional, entretanto em pouco tempo tornou-se uma celebridade, ao que tudo indica graças a 2 factores: (1) a máquina organizacional da FRELIMO; (2) A forma como construiu a sua imagem de um Homem jovial energético, visionário e ideias clara de como contribuir para a melhorar o posicionamento do país na linha da frente do desenvolvimento. Daí que a justificação das multidões nos comícios de Nyusi.

Arrisco-me a dizer que os comícios de Nyusi equipararam-se a espectáculos de estrelas de músicais. Nyusi transbordou alegria e demonstrou empatia com o seu público. Nyusi dançou com o povo e dançou bem, uma das novidades no concerto político nacional.

Foi notória a forma entusiastica de gente que saudou Nyusi por onde andou. Entretanto, as redes sociais e alguns circulos eleitorais ainda "debocham" dos que pensam que Nyusi traz algumas ideias possam melhorar Moçambique.
Mas os banhos de multidões indicam que o povo está com Nyusi e está consciente de que o presidente de Moçambique não pode fazer tudo o que quer, não pode dar emprego a todos, o país ainda tem muito por palmilhar, compreende que vivemos um momento instável de imprevisíveis transformações nas correlações internacionais de forças económicas, políticas, entre outros.

Apesar disso, a multidão que celebra Nyusi acredita que é extraordinário que um mecânico filho de camponeses seja eleito presidente de Moçambique, que é maravilhoso que tal homem deva sua eleição, em grande parte, à superioridade do seu brilho, do seu carisma e das suas ideias e que é esplêndido que, ao eleger Nyusi, os eleitores moçambicanos tenham claramente repudiado a demagogia dos restantes partidos e candidatos.

Curiosamente, e sob influência de supostos comentaristas e analistas, muitos afirmam que Nyusi nada diz de novo. Isso é uma falsidade. De modo educado, porém firme, ele deixou bem claras os factores de continuidades e de descontinuidade. A aposta na iniciativa privada como uma das prioridades, a contrução de mais barragens; o combate às doenças hídricas, a criação de um programa de habitação para jovens carenciados em estreita ligação com o sector financeiro, etc. Essas ideias são inovações que atraem multidões.

A ideia de que Moçambique mudou – que Nyusi não só afirma mas encarna – e de que devemos mudar com ele é, no fundo, a grande novidade de Nyusi.

Há também Afonso Dhlakama. Líder da Renamo que tem sido bafejado por banhos de multidões. Como interpretar?

Sem querer tirar o mérito, há um elemento que ajudou a (re) popularização de Afonso Dhlakama, nomeadamente o seu desaparecimento prolongado para a a tão propalada “parte incerta”. Históricamente, o mistério atraiu massas. A sua ausência de cerca de um ano é, sem dúvidas, um dos factores de atracção da pessoas para os seus comícios.

Entretanto, os comícios, e o discurso, em concreto, apresentaram algumas fragilidades que comprometeram a (re) afirmação política de Afonso Dhlakama como um presidenciavel de referência, nomeadamente as fraquezas que se denotam nos discursos. O discurso deste candidato não é sustentável, tão-pouco ideológico.

Um outro aspecto, que se denota deste partido é que este vive unicamente da popularidade de seu líder. Não se vêem outras estrelas do partido a fazerem campanha, contrariamente a outros dois partidos. Onde andam os Macuanes, Ivones, Mazangas e outros?

O facto é que na Renamo está o seu líder que, em última instãncia atrai pessoas para os seus comícios, mas fica cada dia mais claro que o partido não tem uma estrutura partidária consolidada e as plataformas ideológicas não são claras. Deste modo, auguro que as multidões de Dhlakama poderão não corresponder aos votos.

 

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