
Os agricultores do distrito de Boane, província de Maputo, estão satisfeitos com os actuais níveis de produção agrícola, em resultado das chuvas que têm vindo a cair na época que está a terminar. No entanto, a quantidade de água ainda é insuficiente: a barragem dos Pequenos Libombos, fonte para irrigação dos campos, para além do consumo humano, continua com níveis baixos, o que gera preocupação em relação aos próximos tempos.
O distrito de Boane é, de entre vários distritos da província de Maputo, o que vinha sendo fustigado pela falta de chuva desde o ano de 2015. Este facto propiciou a fraca produção agrícola nos últimos tempos, tanto para sector familiar, assim como comercial.
Contudo, parece que a situação está a normalizar-se, pois a chuva que tem vindo a cair levantou os ânimos dos produtores, que limparam os seus campos e lançaram a semente à terra.
Por enquanto, sentem que os resultados da produção são satisfatórios, e esperam não ter o problema de falta de comida como se verificou nos últimos meses, pois as culturas como a maçaroca, assim como algumas hortícolas cresceram perfeitamente.
Entretanto, sem dor de cabeça no momento, acredita-se que as consequências da escassez de água far-se-ão sentir a partir do próximo mês de Maio, uma vez que actualmente a maior parte dos campos ainda tem água, e o período chuvoso termina este mês, Março.
COLHEITA À VISTA
Em conversa com alguns camponeses de diferentes pontos daquele distrito ficámos a saber que se não chover nesta semana, nos próximos dias irão iniciar com os trabalhos de recolha da maçaroca da machamba.
Aliás, alguns referem que esta actividade já teria iniciado no mês passado, Fevereiro, se não tivessem resistido à pressão vinda dos indivíduos que escalam aquelas parcelas para convencê-los a venderem a sua produção. Trata-se de revendedores de produtos agrícolas frescos vindos das cidades de Maputo e da Matola.
Entretanto, o Governo distrital perspectiva para a presente época a produção de mais de 243 mil toneladas de culturas diversas, numa área de 38.713 hectares de área tratada. Há expectativa de que a meta poderá ser atingida, uma vez que, segundo os relatos dos camponeses, a primeira época foi encorajadora, sobretudo no sector das culturas de hortícolas e cereais.
Rafael Alberto, um dos agricultores do povoado de Gueguegue, confessou à nossa equipa de Reportagem que a época está a ser fantástica, comparativamente à do ano passado, 2016.
Rafael Alberto, membro da Associação de Camponeses 25 de Setembro, tem um campo de um hectare apenas de milho. Encontrámo-lo na sua machamba, animado, tendo anunciado que já é altura para começar com a colheita.
“Esta produção já está pronta, vou retirar próxima semana. Logo que terminar vou lançar outra semente”,disse.
A aposta na produção exclusiva de milho deve-se ao baixo custo, comparativamente a hortícolas, conforme referiu.
Por sua vez, Albertina Bila disse que este ano a chuva está a corresponder às expectativas. No ano passado, a sua produção foi fraca por causa do calor que arrasou a província de Maputo.
“Agora tenho um hectare de milho que vou tirar nos próximos dias, depois vou lançar batata-doce e feijões”,disse.
Por seu turno, Carlos Massingue, proprietário de três hectares de terra cultivada, disse que está satisfeito, mas lamenta a falta de meios de trabalho para alargar as áreas de produção.
“Gostaria que se estendessem as valas para permitir o curso da água do rio para esta parte de cima, estamos a sofrer para ter água de irrigação. Precisamos também de material de limpeza”, disse
UM MISTO DE SENTIMENTOS
Mesmo com os níveis de produção motivadores, os agricultores, assim como as autoridades administrativas do distrito de Boane mostram-se preocupados com o porvir. Tudo porque a quantidade de chuva que caiu não é suficiente para garantir boa reserva de água na barragem de Pequenos Libombos.
A população teme que a partir do próximo mês de Maio venha a trazer problemas, já que a época de chuva termina em Março.
Segundo a administradora do distrito de Boane, Teresa Mauaie, neste momento a barragem dos Pequenos Libombos tem apenas 26 por cento de água. Esta quantidade não é suficiente para atender às necessidades dos agricultores, assim como dos residentes nas cidades de Maputo e Matola, para além da vila de Boane.
Teresa Mauaie alertou que se não cair o suficiente para aumentar a quantidade de água existente, a meta que foi traçada para a presente época poderá ser comprometida, sobretudo no ramo de produção de hortícolas.
Entretanto, a preocupação não abrange os agricultores que exploram as terras localizadas depois do centro de tratamento porque estes usam a água que escapa naquele empreendimento.
“Tínhamos planificado a produção de 41 mil toneladas de hortícolas. Outra cultura que pode ficar comprometida é a banana, pois esta cultura precisa de muita água. Neste momento não temos problema porque choveu e os campos ficaram molhados, a dúvida que fica é sobre como vai ser nos próximos tempos”, disse.
Acrescentou que se a falta de água persistir naquele distrito poderá ainda condicionar o emprego de 1000 pessoas que estão afectos às diferentes empresas do ramo agrícola.
“Estamos a mobilizar os empresários para não esperarem da água da chuva, orientando-os a abrir furos. De qualquer forma, há um projecto de brevemente fazer-se a barragem no rio Movene para agricultura. A outra aposta da administração é a abertura de represas para reter água para a irrigação”, disse.
Segundo a administradora ao longo do Rio Movene existem cerca de 1000 hectares de terra, destes apenas 400 é que estão a ser explorados. No entanto, acredita-se que com a abertura de represas serão alargadas as áreas de culturas naquelas margens.
Enquanto isso, espera-se que o nível de enchimento atinja pelo menos 35 por cento, pois com esta quantidade poderá ser possível partilhar entre os produtores e os clientes do FIPAG, de forma intercalada.
“Precisamos de repensar qual é a possibilidade de regar em dias alternados para não matar a agricultura”, disse.
LUTA COM OS ARREIROS
A acção dos areeiros está a preocupar a administração do distrito de Boane, pois bloqueia a circulação da água no rio Umbeluzi. Aliás, já foram orientados a interromper a actividade, porém na calada da noite vão carregar a seu bel-prazer.
Para o efeito, há uma campanha que está em curso com vista a sensibilizar os praticantes da actividade de extracção de areia para as obras a interrompê-la, visto que estes não respeitam as normas de exploração daquele recurso.
A administradora de Boane, Teresa Mauaie, afirmou que está a trabalhar com as autoridades municipais no sentido de tomar medidas que desmotivam esta prática. Uma das medidas que poderá ser tomada consistirá na apreensão dos camiões e do produto.
“Queremos montar brigadas fixas nos locais que já identificados. Ao licenciado que for apanhado lhe será retirada a licença e aos que não têm este documento será apreendido o camião para além de multá-lo”.
Texto de Abibo Selemane

