Nacional

Homem dedicado à promoção da paz

Texto de Francisco Alar e Fotos de Jerónimo Muianga e Inácio Pereira

O antigo Presidente da República de Moçambique, Joaquim Alberto Chissano, celebrou na passada quarta-feira, dia 22 de Outubro o seu septuagésimo quinto aniversário, junto da sua mãe e familiares em Malehisse,  Chibuto, província de Gaza, sua terra natal.

Pela ocasião, o semanário domingoquis brindá-lo com um conjunto de depoimentos de pessoas próximas, sobretudo para trazermos a vida deste grande homem, nos últimos dez anos, ou seja, dos 65 aos 75 anos de idade.

Na verdade, ficamos a saber de Leonardo Simão, que Chissano tem vivido uma vida dedicada à paz e desenvolvimento de Moçambique e de África, tendo como principal premissa que só com paz e estabilidade pode haver progresso.

CHISSANO DEPOIS DA PRESIDÊNCIA

Joaquim Chissano deixou o cargo de Presidente da República em 2005, dando lugar a um outro candidato da Frelimo, Armando Emílio Guebuza, que viria a tomar posse em Fevereiro de 2005, depois de ganhar as Eleições de 2004. Desde então só esporadicamente se sabe do que Chissano vem fazendo. Para preencher esta lacuna, nada melhor que ouvir uma das pessoas que trabalha directamente com o antigo Presidente da República.

Leonardo Simão explicou que Chissano sempre teve como ideal o desenvolvimento de Moçambique e da África e tem a convicção de que só com a paz e estabilidade o continente pode erguer-se. É assim que, apesar de ter afirmado que precisa deste tempo para se concentrar à família e ao país, Chissano vem se desdobrando em missões de construção da paz, desde eventos académicos até à missão de mediação e promoção da paz.

Assim, desde o fim do seu mandato como Chefe do Estado, Chissano trabalhou em missões de paz para Uganda, Guiné-Bissau, Congo e, no que levou mais tempo, Madagáscar, num processo que se arrastou por cinco anos, culminando com as recentes eleições gerais.

Chissano está presentemente empenhado na mediação do diferendo fronteiriço entre o Malawi e Tanzânia.

Prémio Mó Ibrahim

Logo após a cessação de funções de Presidente da República, um dos primeiros actos marcantes terá sido a atribuição do Prémio Mó Ibrahim em 2005. Efectivamente, o ex-presidente de Moçambique foi notícia e o seu nome atravessou osquatro cantos do planeta. A Fundação Mo Ibrahim atribuíu-lhe um prémio de cinco milhões de dólares americanos como reconhecimento pela excelência da liderança à frente dos destinos de Moçambique e pelo valioso contributo que tem dado para a resolução de conflitos em várias regiões do globo.

Numa entrevista que concedeu a este mesmo jornal logo após ser galardoado, Chissano afirmou não ter sido surpreendido pelo prémio, uma vez que já havia sinais de que muitos apostavam nele.

Homem apegado à terra

Quando Chissano anunciou que não se candidataria para um terceiro mandato presidencial, embora a Constituição da altura lhe garantisse mais um termo, muitos esperavam que este concorresse para empregos internacionais. Porém, se enganaram, pois ele o afirmou e cumpriu que não aceitaria um emprego internacional que lhe obrigasse a residir fora de Moçambique.

A assinatura da paz como o momento mais alto

Joaquim Chissano, que entra na governação de Moçambique a partir do Governo de Transição, em que exerceu o cargo de Primeiro Ministro, passando a Ministro dos Negócios Estrangeiros por praticamente toda a governação de Samora Machel, elegeu a assinatura do Acordo de Paz com Afonso Dlhakama como o mais alto. Só um homem comprometido com a paz poderia fazer tal escolha.

Curiosamente, quando, no momento do Adeus ao cargo de Presidente da República, foi pedido por este jornal para apontar momentos menos bons, teve dificuldade de indicar. Acabou apontando as cheias de 2000 como tendo sido a maior dor de cabeça. E não foi para menos.

 Chissano: homem meticuloso e crítico

– Leonardo Simão, director Executivo da Fundação Joaquim Chissano

Nesta busca de depoimentos sobre Joaquim Chissano, a primeira personalidade que abordámos foi o Dr. Leonardo Simão, que é também o director Executivo da Fundação Joaquim Chissano.

Quisemos saber, em primeiro lugar, como Simão teria conhecido Joaquim Chissano, ao que respondeu nos seguintes termos:

“Ouvi falar de Chissano pela primeira vez quando cheguei ao Liceu Salazar com o já falecido Alexandre Zandamela, em 1965. Nessa altura, foi nos dito que outros dois negros tinham passado por ali e haviam feito o liceu com sucesso. Estavam a falar de Joaquim Chissano e Pascoal Mocumbi que haviam terminado o 7º ano e seguido para Portugal. Portanto, eram a fonte de inspiração. Diziam-nos que se Mocumbi e Chissano conseguiram, nós também podíamos conseguir. É que o nosso sonho não passava de fazer o 5º ano para depois ingressar na enfermagem ou pequenos postos de escriturário, já que quinto ano era como se fosse um grau universitário”.

Por essas alturas já havia alguma consciência política?– perguntámos.

“Essa referência à passagem com sucesso de dois negros por aquele liceu não tinha nada de político. Era forma de encorajamento. Claro que nós sabíamos que o sistema colonial não queria educação dos negros”.

E como, então conheceu pessoalmente Chissano?

“Conheço Chissano desde o tempo do Governo de Transição em 1974. Mas o contacto pessoal directo aconteceu em 1987, quando já como Chefe do Estado moçambicano, Chissano visita a Inglaterra, numa altura em que eu era estudante e tínhamos nossa associação. Na altura, nem embaixada tínhamos na Inglaterra. Eu organizei o encontro da associação dos estudantes moçambicanos com o Chefe do Estado. Depois do meu regresso, em 1988, Chissano nomeou-me Ministro da Saúde”.

Há pessoas que dizem que Chissano não confia em ninguém. Como pessoa que esteve e está por perto, o que acha?

“Ele confia, sim. Mas não cegamente. Chissano é um homem meticuloso e com muita atenção. Ele quer como as coisas são. É um homem muito crítico e tem uma forte memória. Não se esquece de nada com facilidade. A verdade, porém, é que ele sempre deixou claro que qualquer um de nós poderia ser substituído a qualquer momento e que a chefia não era carreira. Da mesma maneira que naquela altura, nós na Frelimo, não se podia negar uma tarefa, também não precisávamos saber porque éramos substituídos. Chissano sempre nos aconselhou, enquanto dirigentes, a manter boas relações sociais com familiares e amigos para que ao deixar os cargos não tivéssemos dificuldade de inserção social”.

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