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Há universidades que poderão fechar

O filósofo e académico moçambicano Severino Ngoenha adivinha que o contexto social e económico de Moçambique poderá ditar a falência de algumas universidades privadas se, entretanto, não se redefinirem no mercado do ensino.

 Em sua opinião, para uma boa leccionação no Ensino Superior é necessário que se faça um investimento sério na formação e capacitação do corpo docente. domingo traz excertos da conversa com o académico.

Que avaliação faz do estágio do Ensino Superior em Moçambique?

É uma avaliação francamente positiva. Se olharmos para as origens do Ensino Superior, constatamos que em 1974 o país tinha uma única instituição do Ensino Superior que era a Universidade de Lourenço Marque, hoje Universidade Eduardo Mondlane (UEM). Depois surgiu o Instituto Superior Pedagógico, hoje transformado em Universidade Pedagógica (UP). O tempo foi determinando o surgimento de outras instituições de ensino, como o Instituto Superior de Relações Internacionais (ISRI), todas elas estatais. Mais tarde, o Estado moçambicano tomou a iniciativa de se esforçar em alargar algumas destas instituições para outros cantos do país, abrindo algumas delegações universitárias e escolas superiores. São esforços que me parecem muito importantes e louváveis uma vez que, neste momento, cobrem parte significativa das províncias do nosso país.

 Como vê o desenvolvimento destas instituições?

De forma salutar, porque algumas delas crescem e se notabilizam pelo seu próprio desenvolvimento desencadeando actividades promissoras e de grande nível. Isso é muito bom. Por essa razão considero que numa perspectiva qualitativa da educação a acção dessas instituições seja muito louvável.

Em sua opinião, o que se deve fazer para que uma escola superior seja realmente uma universidade?

É necessário que se faça um esforço no domínio da formação de professores. A qualidade do professor é muito importante! Creio que no nosso contexto seja necessário formar professores que estejam a um nível acima dos ensinamentos que dão aos seus estudantes. Esse é um aspecto importante. Sei que o Ministério da Educação decidiu que a partir do próximo ano os docentes universitários devem ter, no mínimo, o grau académico de mestre. É um bom ponto de partida, embora considere oportuno que, gradualmente, se comece a exigir que para a leccionação nas IES os docentes tenham uma formação doutoral. Isso poderá ser muito bom, porque vai elevar a qualidade do nosso Ensino Superior.

A demanda de graduados a nível de licenciatura e mesmo a nível de mestrado começa a ser questionada no aspecto qualitativo. Que tem a dizer sobre isso?

Um dos aspectos a ter em conta para que a qualidade de educação superior aumente prende-se com a questão da carga horária do próprio professor. Muitos têm trabalhado com uma carga horária elevada como se fossem professores do primário ou do secundário.

Que implicações tem isso?

Isso faz com que o professor multiplique as suas actividades em muitas outras instituições diferentes de ensino, tirando-lhe o espaço que seria necessário para investigação. A pesquisa é indispensável para que o professor seja, de facto,um verdadeiro professor universitário. Entendo que um professor universitário é um investigador. Ele deve publicar o seu pensamento. Se uma universidade não produz conhecimento, o espaço que ocupa deixa de ser o de uma universidade.

PESQUISA

O que acontece é que alguns desses docentes não têm recursos para investirem na investigação.

Não restam dúvidas! Penso que não se pode exigir tanto aos professores sem que tenham condições para tal.

A definição de linhas de pesquisa é mesmo importante neste exercício?

Naturalmente. A elevação qualitativa do Ensino Superior passa pela definição das linhas de pesquisa. Este exercício permite que os investigadores saibam o que devem pesquisar. A ideia é que as universidades não sejam apenas espaços de passagem de conhecimento, mas de produção do conhecimento.

Insisto nas condições para que as universidades produzam conhecimento.

Quer dizer, devem-se criar utensílios para que as investigações sejam concludentes. Quando falo de utensílios ou de instrumentos, falo da criação de condições mínimas que as IES devem dispor. São os casos de laboratórios, nas áreas técnicas, e também de bibliotecas com livros que sirvam áreas de ciências humanas, particularmente, como a ética e a filosofia, que são domínios dos quais me integro. São estas algumas dessas condições!

OS DESAFIOS

DO ENSINO PRIVADO

 

Que desafios se impõem às universidades privadas em Moçambique?

Tenho a percepção de que as universidades privadas inundaram o mercado e só se pode inundar o mercado quando existe uma demanda da parte do público-alvo. Temos de acreditar que essa demanda não vai ser permanente em Moçambique.

Porquê?

Primeiro, porque a classe média moçambicana é pequena e quando ela tiver formado os seus filhos as privadas vão passar por momentos complicados.

Pode especificar essas complicações?

Vai metê-las em concorrência umas com as outras e algumas delas terão de fechar, porque não vão conseguir sobreviver. Devo acrescentar que não se trata de fenómenos novos no mundo. Já aconteceu isso em Portugal onde, nos últimos tempos, faliu a Universidade Moderna, com a S. Borges, no Rio de Janeiro, no Brasil. Quero dizer que o nosso mercado não vai ser infinitamente capaz de acolher todas as universidades que temos neste momento.

Mas há outras que podem resistir.

Existem algumas instituições e universidades privadas moçambicanas que me parecem bem posicionadas e em condições de sobreviver.

Porquê?

Por causa das vocações académicas que adoptaram.

Pode especificá-las?

A Universidade Politécnica tem feito um trabalho que lhe vai fazer ficar dentro do mercado, senão mesmo, no topo do mercado. Vejo também o Instituto de Ciências e Tecnologia de Moçambique (ISCTEM), que criou um espaço e disciplinas técnicas únicas no mercado nacional. O mesmo se passa com a Universidade São Tomás de Moçambique (USTM) que tem um historial que seinclui numa associação internacional de universidades (ICUSTA – Associação de Universidades do Mundo da Linha Filosófica de São Tomás de Aquino). Este aspecto pode-lhe permitir sobreviver, mas também associado ao facto de ser uma universidade que criou uma deontologia e ética específicas a nível da nossa sociedade. Sucede o mesmo com o Instituto Superior de Tecnologias de Comunicação (ISUTC), que tem uma disciplina específica das suas áreas de formação. A breve trecho teremos uma concorrência renhida entre as universidades privadas em Moçambique.

Quevantagens trará essa concorrência?

Trará vantagens qualitativas.

E das universidades estatais, o que se pode esperar?

As universidades estatais, apesar de não entrarem na linha de concorrência a que me referi, terão de se entregar bastante para melhorarem o seu próprio aproveitamento, já que o mercado, nessa altura, julgará os estudantes em função das universidades onde se formaram.  

Terão de desafiar a competição mercantil.

Se não forem capazes de serem competitivas no fornecimento de produtos, através de conhecimentos científicos desejáveis poderão enfrentar, pela dinâmica prevista, situações também complicadas.

Volto a insistir, como avalia os licenciados e mestres que produzimos?

Dum lado, produzimos gente com certas dificuldades (não diria sem qualidade), ou talvez, com uns diplomas que ficam aquém do que se pode esperar do nível de licenciatura ou de mestre.

A que se deve isso?

Enquadro esse problema no contexto mais geral ligado à massificação da educação que tivemos. Deve-se recordar que massificámos a educação numaaltura em que os portugueses saíram de Moçambique. Então, tivemos de fazer a Geração de 8 de Marco, etc., etc., e, desde 1975 estamos a reboque, respondendo os problemas da massificação que, por sua vez, também implicam problemas de qualidade. Por exemplo, quando temos estudantes que concluem a sétima classe sem saberem ler nem escrever não podem ser bons alunos no secundário. Isso tem as suas consequências também no nível superior, contribuindo para baixa qualidade. Temos também um outro problema grave que é da falta de cultura de leitura. A leitura é fraca, mas também enfrentamos problemas de domesticação da língua portuguesa. 

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