A imprensa britânica noticiou, recentemente, que o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Keir Starmer, bloqueou um pedido do presidente dos EUA, Donald Trump, para permitir que forças norte-americanas utilizem bases aéreas no Reino Unido durante qualquer ataque “preventivo” contra o Irão.
Ao que tudo indica, Starmer não está confortável com a possibilidade de o seu aliado do outro lado do Atlântico violar, mais uma vez, o direito internacional atacando um Estado sob falsas alegações. Esta postura da liderança do Reino Unido constitui um insólito, pois sugere haver um distanciamento entre os dois aliados, se tivermos em conta que, geralmente, os britânicos alinham, de forma automática, do lado das aventuras militares dos norte-americanos.
Com efeito, neste artigo analisamos esse aparente afastamento sob três dimensões: o padrão histórico de alinhamento militar britânico com os EUA; os fundamentos jurídico-políticos do “não” britânico às aventuras militares dos EUA; e as implicações estratégicas para a “relação especial” e para a política externa britânica no contexto pós-Brexit. Pelo que foi noticiado, Starmer recusou a utilização, pelos EUA, das bases Royal Air Force Fairford, na Inglaterra, e de Diego Garcia, território ultramarino britânico no Oceano Índico, para qualquer ataque contra o Irão. As duas bases têm servido há muito como importantes pontos de apoio militar dos EUA no estrangeiro para operações longe do seu território.
Diego Garcia, em particular, tem sido uma peça central por vários motivos. Primeiro, a ilha está situada entre África, Médio Oriente e Sudeste Asiático, o que a torna um ponto ideal para projeção do poder militar, vigilância e logística em todo o sul da Ásia e no Médio Oriente. Essa localização permite a rápida mobilização de forças aéreas e navais em momentos de crise, além de ser um ponto de reforço logístico para operações de longo alcance.
Segundo, a base serve como um ponto de partida avançado para aeronaves estratégicas (como bombardeiros pesados), reabastecimento e suporte de operações sem depender exclusivamente de bases dentro da Europa ou do Médio Oriente. Pelo que está documentado, em conflitos passados, como nas guerras do Golfo (1990/1) e no Afeganistão, a base foi usada para voos de longa distância e suporte logístico.
Terceiro, além da pista de pouso, a instalação abriga infraestrutura para vigilância, comunicações e apoio naval — oferecendo aos EUA e ao Reino Unido capacidade de monitorar grandes áreas do oceano, detectar movimentos de forças adversárias e coordenar operações regionais. Quarto, historicamente, a base tem sido um importante símbolo da cooperação militar entre o Reino Unido e os EUA. A sua importância vai além de uma simples localização geográfica — ela representa um nó estratégico de segurança para o Ocidente numa região onde há actores como Irão, China e grupos armados influentes. Leia mais…

