
Cristão do mundo inteiro celebram hoje, 25 de Dezembro, o Natal, data de nascimento de Jesus Cristo, figura central do cristianismo. No contexto nacional a comemoração é alargada aos ateus e os que professam outras religiões pois se rotulou que este é também o Dia da Família. Seja como for, os festejos deste ano estão cobertos de um manto de dificuldades financeiras, calamidades naturais, tensão político militar, crimes violentos, enfim.
A quadra festiva natalícia e de fim do ano de 2016 chegou, mas veio com “cara de poucos amigos” e, por isso, tem um sabor diferente. Aquela azáfama dos outros anos, caracterizada por uma intensa procura de produtos alimentares, roupa e calçado novo, brindes, procura por transportes inter-provinciais e pelas melhores praias esfumou-se.
Aliás, o comércio ressente-se desse amargo clima a ponto de limitar-se a ensaiar, de forma tímida, a subida de preços. Em tempos que lá vão, por estas alturas as manchetes estariam orientadas para o açambarcamento de produtos, compras sem limites, terminais de transportes a registarem enchentes de passageiros, entre outros. Mudaram-se os tempos.
O quadro que agora assistimos resulta do facto de o ano que agora finda ter decorrido com uma carga de problemas naturais e outros manufacturados pelo Homem. Para o caso da seca, os avisos começaram a ecoar em 2015.
O Instituto Nacional de Meteorologia (INAM) alertava para a possibilidade de ocorrência de “chuvas normais com tendência para abaixo do normal”para a zona Sul do país ao mesmo tempo que chuvas e ventos fortes fustigavam o Centro e Norte.
Este quadro casou-se com outras de má memória relacionadas com a saída de milhares de famílias moçambicanas residentes no Norte da província de Tete para a República do Malawi, por motivos associados à tensão político militar. Por aí em diante, 2016 foi decorrendo aos solavancos até serem reveladas as badaladas dívidas escondidas que revolveram por completo a economia nacional. Importa referir que em meados de 2015 a Associação Moçambicana dos Economistas apontava para o recrudescimento da variação cambial e do abrandamento económico que tinha como fulcro uma extensa lista de motivos.
No menu de complicações pelas quais a economia padeceu neste ano destacam-se a também os ataques perpetrados pela Renamo a pessoas e bens públicos e privados, e o fim da era de investimentos nas pesquisas de recursos minerais na província de Tete e dos hidrocarbonetos em Cabo Delgado.
Depois vieram as desistências dos principais parceiros económicos em continuar a prestar o seu apoio ao Orçamento do Estado, tendo à cabeça o Fundo Monetário Internacional (FMI), situação que teima em prevalecer até aos dias de hoje.
Fruto imediato deste corte na ajuda orçamental, muitas empresas se viram na contingência de reduzir a sua mão-de-obra, facto que empurrou muitos chefes de família ao desemprego, com as imensas consequências sociais daí resultantes.
À mistura, o ano também foi marcado por várias situações de cariz social cuja marca central foram violações sexuais, assaltos à mão armada e com rituais de tremenda violência sobre as vítimas, como aconteceu nos novos bairros da cidade da Matola, acidentes de viação, assassinatos, linchamentos, uso inadequado das redes sociais, entre outros.
“NÃO DEVEMOS DESFALECER”
Apesar de todo este quadro, o porta-voz da Igreja Católica em Moçambique, Dom João Carlos, aponta que os moçambicanos devem manter a cabeça erguida e ter fé no futuro “porque Deus está presente no meio do seu povo. Por isso encorajamos a todos a não desfalecerem”.
Dom João afirma ainda que o Natal é a celebração do nascimento do Salvador, que é Jesus Cristo, e que a partir desta centralidade brota muita alegria. “Tanto é que está claro que Jesus não veio à terra de forma extraordinária e espectacular. Ele não nasceu num hospital. Veio ao mundo de forma simples, nasceu num estábulo, fez-se homem e teve um lar que foi a família de Nazaré”.
Para os fiéis cristãos, católicos ou não, o porta-voz da Igreja Católica afirma que a celebração que terá lugar hoje em todas as paróquias será marcada pela explicação sobre o percurso que aquela família teve, incluindo a experiência da perseguição, emigração, do parto em lugar inapropriado, entre outros factos que continuam a afligir a muitas famílias até aos dias de hoje.
“Muitos esperavam que Ele viesse ao mundo de forma pomposa e, por isso, não o reconheceram o que, por outras palavras equivale a dizer que a solução para as nossas angústias encontra-se onde menos esperamos”, frisou.
No que se refere à forma como o mundo celebra esta data, Dom João Carlos referiu que um pouco por todo o lado veem-se luzes acesas em edifícios, Árvores de Natal, lojas, entre outros locais públicos e privados que são manifestações que, na sua óptica, devem ter efeito reflexivo.
“Sim, devemos acender luzes, porque Jesus é a Luz, mas essas luzes não apenas embelezar o exterior. Precisamos de iluminar o nosso interior para podermos superar o ódio, rancor e a violência que tem estado a marcar o nosso quotidiano”, disse.
Sobre o facto de parte da sociedade preferir denominar ao 25 de Dezembro de dia da Família, Dom João Carlos recordou que o Papa Pio X foi quem introduziu a celebração da Sagrada Família que, aliás, decorre durante oito dias contados a partir do dia 25 de Dezembro.
Segundo referiu, as famílias dos dias de hoje estão desafiadas a lidar com inúmeras crises resultantes do crescimento e desenvolvimento da sociedade. “E é preciso recordar que não existem escolas que ensinam a ser família e muito menos a ser família perfeita. Por isso, precisamos buscar modelos na família de Jesus que soube encarar várias dificuldades. Há que sublinhar que os primeiros valores são ganhos na família”, frisou.
FAMÍLIAS UNIDAS
Para Fernando Neves, pastor da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), estabelecido na cidade de Lichinga, província de Niassa, o 25 de Dezembro deve ser encarado como a celebração da família unificada e que é capaz de superar crises.
Conforme referiu, o que alimenta a espiritualidade da data é o facto de a família que trouxe Jesus ao mundo ter sido capaz de se manter unida e em harmonia quando foi perseguida e em todo o sofrimento pelo qual passou.
“No caso do nosso país, assumimos que o governo representa os pais, cuja missão é guiar e educar a sociedade, que são a representação dos filhos, para que esta tenha equilíbrio e, por essa via, se minimizem as tensões que assistimos e que levam a que cada um puxe para o seu lado e se mine a Paz”, sublinhou.
Como tem sido apregoado por todos os quadrantes da sociedade, o pastor Fernando Neves repisou que a Paz que os moçambicanos tanto almejam só se materializará quando cada um buscar a Paz em si mesmo. “Uma pessoa nervosa, rancorosa e angustiada não tem condições de construir uma família que é a célula-base da sociedade, porque é preciso compreender-se como casal e também poder entender os filhos”.
Mais adiante, Neves referiu que para assinalar esta data, os fiéis desta igreja ofereceram um almoço solidário a 80 crianças internadas no Hospital Provincial de Niassa. “É o Natal possível tendo em conta as crises que vivemos e que oramos permanentemente para que passem o mais breve possível”.
A nossa Reportagem também ouviu o Pastor Marcos Macamo, da Igreja Presbiteriana de Moçambique (IPM), o qual referiu que em todo o percurso histórico do homem sempre houve turbulências. “As crises fazem parte da nossa existência terrena. O problema é que nem sempre estamos preparados para enfrentar essas situações”, sublinha.
Perante a tensão político-militar que ainda prevalece, afirma que a religião, seja ela qual for, procura estabelecer o equilíbrio e a união que podem ser forças muito superiores às armas. “O que temos estado a fazer é apelar aos nossos fiéis, e não só, a nunca perderem a sua fé. Temos que invocar o poder supremo e estarmos cientes de que a vida é feita de sucessos e fracassos. Depois da tempestade vem a bonança”.
NATAL NA ÓPTICA DOS MUÇULMANOS
Também abordamos um líder religioso muçulmano, o Sheik Aminudin Muhamad que começou por “separar as águas” ao afirmar que o que os cristãos celebram hoje, 25 de Dezembro, é o Natal e não Dia da Família. “Quem trouxe essa nova denominação foi o Presidente Samora Machel, pretendendo demarcar o Estado das festividades religiosas, incluindo o feriado alusivo à Páscoa”.
Contudo, e como dizia Luís de Camões, “mudaram-se os tempos e as vontades”, e o Sheik Aminudim afirma que, aos poucos, se está a retornar ao espírito natalício, uma vez que até em instituições do Estado já são visíveis Árvores de Natal, luzes e adereços de Pai Natal.
Afirma que para o Muçulmanos, a haver algo a celebrar nesta data seria na perspectiva de ser Dia da Família pois, para este grupo religioso, “não há provas de que Jesus Cristo nasceu, efectivamente, nesta data, daí que os cristãos Ortodoxos, Testemunhas de Jeová, entre outros, celebram o seu Natal numa outra ocasião.
Vendo o Natal como Dia da Família, o Sheik Aminudim afirma que as famílias enfrentam hoje múltiplos desafios, pelo que os muçulmanos procuram apregoar a defesa dos direitos da família porque é o alicerce da sociedade. “Se os filhos conhecerem os seus deveres e obrigações para com os seus pais, nunca os abandonarão ou os levarão para asilos de idosos”.
Paras este líder religioso, há nos jovens a responsabilidade de cuidar dos seus pais para que reduza o número de anciãos que mendigam nas ruas. “Há manobras satânicas que levam a que os filhos maltratem os pais e os expulsem de casa”.
Perante este quadro, disse que gostaria que houvesse uma maior moralização das famílias para que deixe de ser comum assistir a jovens que se dedicam com devoção ao consumo de álcool e drogas.
Da parte do Presidente do Conselho Cristão de Moçambique, o Reverendo José Moiane, que lidera a Igreja do Nazareno, a mensagem a ser passada no dia de hoje estará voltada para a esperança, reconciliação e o amor, uma vez que são estes os ingredientes que parecem escapar à atenção do Homem em temos de crise.
Festa em dia chuvoso
O Instituto Nacional de Meteorologia (INAM) prevê para hoje chuva durante as primeiras horas na zona Sul do país. As cidades de Maputo e Matola observarão melhorias do estado do tempo no período de tarde. Para as províncias de Manica e Sofala o INAM prevê ocorrência de chuva durante todo o dia, o mesmo sucedendo para o norte de Gaza e Inhambane.
Refira-se que a zona sul do pais esteve a dias sob influência de baixas pressões que induziram altas temperaturas.
A chuva resulta da acção de um sistema central frio. Amanhã está prevista chuva intermitente na Zambézia.
Tolerância de ponto
amanhã e dia 2 de Janeiro
Por ocasião da quadra festiva, designadamente, o Natal e passagem de ano, o Governo, através do Ministério do Trabalho, Emprego e Segurança Social (MITESS), numa nota enviada à nossa Redacção, recorda que há tolerância de ponto para amanhã, dia 26 de Dezembro, e para a próxima segunda-feira, dia 2 de Janeiro de 2017, de acordo com o previsto na legislação laboral vigente no país sobre os feriados nacionais.

