Editorial

Hipocrisia!

Quando faltam menos de 5 meses para as eleições, sucedem-se os ataques militares perpetrados pela Renamo; e não há aqui segundas intenções nesta afirmação. A própria Renamo, por via dos senhores António Muchanga e Manuel Bissopo, já veio a terreiro atirar-nos com essa informação. E sempre que o fazem – curioso notar isso – é com grande estilo como quem anuncia um aumento salarial ou a redução de preços de produtos de primeira necessidade.

A verdade é que o assunto já ultrapassou as fronteiras nacionais. Até os Estados Unidos da América já vieram a público condenar as manobras e os ataques perpetrados pela Renamo. Parece que é cada vez mais aceite, ao nível internacional, a ideia de que a Renamo está a fazer um estranho jogo de cintura para fugir das eleições e, ao mesmo tempo, forçar os acontecimentos para viabilizar a ideia de um Governo de Unidade Nacional. Se mais dúvidas houvesse, o que está a acontecer no Centro de Conferências Joaquim Chissano é ilustrativo; mais de 90 por cento das exigências da Renamo, incluindo a revisão da Lei Eleitoral, foram satisfeitas. A regra de que numa negociação é preciso saber ceder parece não se aplicar à Renamo que volta e meia descobre razões escusas para manter o status quo da situação. Não dá para perceber…

A Renamo não está a proceder ao reconhecimento de assinaturas e já fala de fraude eleitoral. É a mesma coisa desde 1994. Incrível. Forçou a alteração da Lei Eleitoral e agora não faz nada para participar nas eleições mas ao mesmo tempo o eterno pai da democracia berra aos quatro ventos que quer fazer pré-campanha. A pergunta que não quer calar é: porquê tudo isto se não é para garantir o tacho?

Vejamos as coisas com a frieza necessária; faz sentido que o mesmo partido se divida em grupos – um no mato aos tiros, outro na Assembleia da República de fato e gravata e outro na “Joaquim Chissano” – para negociar a mesma coisa? Parece que a Renamo está gradualmente a meter-se num colete de sete varas do qual terá dificuldades imensas de sair. É que o tempo tem respostas para todas as dúvidas… que o diga o chacal que engoliu uma foice e agora os seus uivos para expeli-la são medonhos!

E os gritos ameaçam transformar-se em urros porque Afonso Dhlakama tem também o problema dos homens que integravam as assembleias municipais que ficaram no “desemprego” porque a Renamo excluiu-se do último pleito eleitoral municipal. São centenas de pessoas que ficaram sem tacho por causa dessa decisão do líder… e o número só não é maior porque alguns decidiram, contrariando o grande chefe, tomar os seus lugares na Assembleia da República depois das últimas eleições gerais!

Mas há coisas mais profundas e assustadoras nisto tudo; há quem alvitre que Afonso Dhlakama não sai do “sítio incerto” tão-somente porque não pode. A desculpa de que não o faz com medo de ser metralhado pelas FADM não passa mesmo disso: uma desculpa para boi dormir. Dizem que ele, na realidade, é a moeda de troca que os cérebros da Renamo têm para conseguirem benesses no Centro de Conferências Joaquim Chissano. Ou seja, ele na realidade está preso no mato para servir de elemento de persuasão – por causa do aparente controlo que tem sobre o braço armado da Renamo – ao Governo. O inconveniente da estratégia é que o nó pode apertar tanto e ser difícil desfazê-lo.

Mas dizíamos que há notas preocupantes: As forças militares da Renamo estão a matar gente indiscriminadamente; os militares que dizem orgulhosamente estar a matar são filhos de moçambicanos, pais de moçambicanos, netos de moçambicanos, amigos de moçambicanos. De que Moçambique estão a falar e que moçambicanos querem governar se gabam-se de matar os mesmos? Não haverá nenhum dispositivo para deter cidadãos que ameaçam a integridade física e moral de outros e, mais grave ainda, ufanam-se de matar os seus compatriotas? O que passa na cabeça de uma pessoa quando diz em público: “matamos 20 militares”. Acaso os referidos militarem não são seres humanos?

Há dias, em Manica, um grupo de antigos militares portadores de deficiência física, veio a terreiro exigir o fim das hostilidades armadas; não querem que os seus filhos vivam as mesmas experiências. E eles sabem do que falam. Não são gagos nenhuns. Sabem que a guerra só faz recuar. Adia o desenvolvimento e cria dependentes. A Renamo parece ter esse objectivo; fazer recuar o país e fazer-nos reféns da vontade de meia dúzia de pessoas. Na realidade, o que pode querer um partido que nunca fez um seminário de verdade; que nunca fez uma reunião de quadros. Até a indicação de um candidato para a corrida presidencial aconteceu na “calada da noite”; isto é, disseram que iam reunir para indicar um nome e, antes mesmo de o diabo pestanejar, já se anunciava o eterno nome do pai da democracia. Há democracias e democracias!

Interessante é que há, entre nós, vozes que continuam a dizer que o desenvolvimento do país está refém do partido no poder. Quem diz que o leão é um jumentinho, que vá pôr o cabresto nele!

Ser realista é saber tomar decisões acertadas, levando em conta um único factor: a própria realidade. Esse realismo é lucidez que permite ver com que pessoas e com que recursos se pode contar, é objectividade para prever as consequências de uma acção, é capacidade para escolher os meios adequados tendo em mira a consecução de um determinado fim, sem permitir que o medo, a covardia, a precipitação e os interesses interesseiros influenciem negativamente essas avaliações e decisões. O sábio, no alto da sua longa experiência de vida, não foi à toa que aconselhou: Não comas alho e não cheirarás a alho!

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