Editorial

É parte da cura o desejo de ser curado!

A Tuberculose continua a ser uma das maiores preocupações em termos de saúde pública no país, tendo em conta que Moçambique integra o grupo de países no mundo que continua a notificar números alarmantes.

A OMS assinala como principais causas para a gravidade da situação actual da tuberculose no mundo os seguintes fatos: desigualdade social, advento da Sida, envelhecimento da população, grandes movimentos migratórios. Sabe-se que cerca de 95 porcento dos casos de Tuberculose ocorrem no terceiro mundo, e, aí ocorrem 98 porcento dos óbitos.

Com cerca de 140 mil casos de tuberculose diagnosticados por ano, Moçambique consta da lista dos 22 países mais afectados pela doença no mundo. O dia 24 de Março serviu para mais uma campanha de advocacia tendo em vista a redução de casos. Com uma cobertura em todos os distritos com serviços de tratamento, o país conseguiu alcançar 85 por cento de tratamento de casos no ano passado, embora, sob vários aspectos, esta continue a ser uma doença “maldita” que as pessoas infectadas e afectadas procuram ainda “esconder”por várias razões sendo a mais corrente o facto de relacionar-se, cada vez mais, esta doença ao HIV-Sida.

Segundo os dados da OMS, a tuberculose e a Sida juntas constituem, hoje, uma calamidade sem precedentes na história. Em 1999, cerca de 1/3 dos infectados pelo HIV o eram também pelo bacilo de Koch. O impacto desta inter-relação se faz criticamente alarmante quando se tem presente que o HIV, na actualidade, é o maior factor de risco para o desenvolvimento da tuberculose em pessoas previamente infectadas. A estimativa mundial da OMS de adultos infectados pelo HIV, para o ano de 2000, foi de 13 milhões, com maior concentração na África – 9,3 milhões, e na Ásia – 2,3 milhões.

No nosso país, cujo programa de controlo da Sida é amplamente reconhecido, o impacto da terapia anti-retroviral na co-infecção tuberculose-Sida parece ser positivo. Entre os casos de Sida está havendo uma redução da ocorrência de casos de tuberculose, um maior percentual de cura e diminuição de mortes com tuberculose associada, identificando-se a necessidade de estudos mais aprofundados para atribuir-se, à terapia anti-retroviral, esses eventos. Ainda assim, os números são assustadores.

Entretanto, o Ministério da Saúde já se revelou preocupado com o aumento de casos de doentes que desenvolvem tuberculose multidroga resistente devido à fraca adesão ao tratamento, toma irregular da medicação e não observância ou abandono do tratamento.

Diante da gravidade da situação mundial e à permanência, em nível preocupante, da epidemia de tuberculose, o país, desde muito, vem sistematicamente tomando apropriadas iniciativas para combater a doença. Basta referir que o Ministério da Saúde padronizou e passou a distribuir, gratuitamente, a nível nacional, as drogas que integravam os esquemas terapêuticos de maior eficácia. Com os avanços da ciência o país substituiu os antigos esquemas prolongados pelos novos de relativa curta duração mas ainda assim exigentes porque podem prolongar-se até aos 9 meses, sem incluir os casos de tuberculose resistente que não só encarecem os custos do tratamento como aumentam o período de terapia.

Desde que a OMS, em 1993, declarou a tuberculose em estado de emergência mundial, o nosso país avançou com uma série de medidas tendentes a fazer frente a epidemia; Destacaram-se: o lançamento do Plano de Emergência, entre outros dispositivos que concorreram para que hoje, o país no seu todo, tenha possibilidades reais de fazer o rastreio e tratamento da doença

Muito já foi feito e muito ainda há de se fazer. Políticas públicas que possam efectivamente melhorar a qualidade de vida da população têm repercussões positivas no controle da tuberculose. No entanto, para os órgãos responsáveis pela saúde pública do país é necessário e prioritário a imediata melhoria das acções de busca de casos, tratamento e prevenção, bem como das actividades de promoção da saúde.

Em um país de alta prevalência como o nosso, do ponto de vista da biossegurança, as acções para o diagnóstico precoce dos casos, e seu efectivo tratamento, interessam a todos os profissionais de saúde, em particular àqueles que trabalham em grandes hospitais ou serviços de emergência. Estas unidades de saúde, funcionando como grandes portas de entrada, têm em sua demanda um número representativo de pacientes com tuberculose que, antes de seu diagnóstico, circulam livremente por todos os lados, incluindo dentro das unidades sanitárias. Ocorre que, na maioria das vezes, estas unidades não têm implantadas medidas para o diagnóstico precoce e o correcto manuseio destes casos, que atendam às necessidades de isolamento e cuidados de biossegurança.

Em conclusão, se o controle da tuberculose não se efectivar de forma satisfatória e, diante da ausência de inovações terapêuticas e profiláticas, seremos obrigados a conviver com as estimativas do Banco Mundial – em 2020 a tuberculose contribuirá com 55 por cento das mortes observadas em adultos nos países em desenvolvimento.

Não haja ilusões; É parte da cura o desejo de ser curado!

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