Artes & Letras

Um actor moçambicano nas telas de Hollywood

Seu nome é Vipino Chaudulal. Nas lides da sétima arte o tratam por  Vipinno. Nascido em Inhambane,  sua família veio a cidade capital no ano de 1978. Tal como os jovens da sua era, Vipino frequentou as salas de cinema para ver filmes como “Comboio dos duros”; “Cholai”;  “Comboio em chamas”, entre outros. Ao assistir os filmes criou a apetência pelo mundo da sétima arte, determinando como sonho – ser actor.

Confiante e ciente de que não basta sonhar, tudo fez para concretizar o sonho.  Vipino olhou para o horizonte confiante e hoje, conta com a participação em dois filmes, “A máfia do carvão”; “Só tu e mais ninguém”.  Em Agosto vai para Hollywood, onde irá assinar contrato para participar em mais um filme.

DE INHAMBANE A HOLLYWOOD

Num belo dia, Vipino quebrou os seus próprios tabus e procurou através da internet, contacto de um actor de cinema. ConseguiU o contacto do Anupham Kher, que é um actor e realizador famoso na Índia. “Liguei e felizmente, ele atendeu. Perguntou quem falava e eu disse, Vipino, de Moçambique. Expliquei que tinha o sonho de ser actor e gostava de concretizá-lo. Ele recomendou-me que fosse para Índia por forma a falarmos com mais desenvolvimento”, explica.

Vipino arrumou a mala e foi até Bollywood, em Bombay, hoje Mumbay. “Isso foi há oito anos. Quando lá cheguei, ele estava a rodar um filme. Mandou-me aguardar e fiquei entre os artistas, tendo almoçado com eles. Quando terminaram as filmagens, Anupham Kher veio ter comigo e eu estava nervoso. Foi honesto ao dizer-me que não tinha bagagem como actor e não sabia nada sobre cinema e não tinha contactos. Sim, no cinema, os contactos são muito importantes”, esclarece o actor moçambicano.

Anupham Kher, actor e realizador indiano, tem uma escola de formação de actores chamada The actors prepare.  Anupham  aconselhou Vipino a se matricular. “Ele disse para que ficasse três meses na escola dele para aprender a ser actor. Mas não era possível para mim ficar na Índia. Ia pela primeira vez e tenho família e trabalho em Moçambique. Não podia ficar três meses. Voltei para o país”.

Durante a permanência em Bollywood, Vipino fez amizade com um actor indiano. “Uma vez estávamos juntos e ele foi convidado para ir ouvir a história e o papel que iria fazer no filme. O realizador do filme disse que eu era capaz de fazer um dos papéis do filme. Quando li o guião, ele disse logo, ficas com o papel. Assim consegui o primeiro filme em 2010. O título em Urdu é Tum hi to ho (Só tu e mais ninguém)”.

Segundo Vipino, Tum hi to ho, era a primeira longa metragem em que participava. Mas nem tudo correu como esperava, por isso não teve o prazer de fazer o filme, pois como actor, ainda não estava preparado. “ Não me deram tempo para preparar-me. Cheguei a dormir duas a três horas por dia. Rodávamos o filme e eu tinha que ensaiar as danças (às quais não sou bom). Perdi sete quilos em duas semanas e estava muito calor. A partir daí decidi que não faria mais nenhum filme sem preparação”.

EM LOS ANGELS

Depois da amarga experiência que teve no filme Tum hi to ho, Vipino decidiu no ano 2013, frequentar um curso na New York Film Academy.

Com a duração de dois meses, o curso é destinado àqueles que pretendem ser actores. “Na formação aprende-se a disciplina, monólogo, a forma de lidar com as câmaras. Aliás, logo nos primeiros dias na academia põe os cursandos em frente as câmeras”.

Depois da formação, Vipino foi a Índia, onde  conheceu o realizador Asshu Trikha. “Convidou-me a fazer parte do elenco e voamos para o sítio onde o filme seria rodado. Só que um dia eu lhe disse que não estava feliz com o papel que fazia. O realizador olhou para mim e disse, vai-te embora. Arrumei minhas coisas e voltei para Moçambique”.

Três anos depois, conforme conta o nosso entrevistado, o mesmo realizador chamou-o. “ Recebi uma chamada dele a dizer que estava a mandar um guião para mim. O título do filme era “ A máfia do carvão”. Neste filme sou um bandido criado pelo Homem da máfia e olho para ele como patrão, Deus e só me comunico com o meu Deus”.

A vida do actor moçambicano muda quando na vila chega um novo Oficial do Governo cuja missão é acabar com a máfia do carvão. Vipino é instruído para assustar o novo Oficial do Governo. “ Numa dessas incursões de tentar assustar o Oficial, acabo ficando com o filho dele, um menor de um ano de idade. Recebi do meu Patrão, instruções para não maltratar o menor”, conta.

No triângulo Vipino, Deus da máfia e novo oficial do governo, há uma prostituta da zona ligada ao bandido obediente. “ Com a influência dela transformo-me e descubro que o que fazia não era correcto. Descobri que o maior problema da vila era o meu patrão, Deus. O meu pensamento e forma de estar para com a situação começa a mudar. E os dois perdemos a vida nas minas de carvão. Ficamos soterrados nas areias movediças usadas para tapar os buracos abertos. A terra engole-nos os dois”.

Com a duração de duas horas e vinte minutos, A máfia do carvão retrata o cenário vivido quando o Estado indiano nacionaliza a indústria do carvão. Nacionaliza a indústria e tenta controlar todo negócio em volta do carvão. “Assiste-se uma situação dupla em que os donos das minas não querem perdê-las a favor do Estado e por outro, há trabalhadores que lutam por melhores condições, salários e outros benefícios”, explica Vipino.

Contrariamente a primeira experiência, sua participação no filme  “Só tu e mais ninguém” , em que não tinha conhecimentos profundos sobre o mundo do cinema, Vipino diz ter gostado da sua performance em “ A máfia do carvão”: “ Foi uma experiência agradável. Aprendi muito e trabalhei com actores mais velhos e com eles retive muita coisa. Uma das coisas que me deu prazer foi poder ver os actores, experientes que são, a ensaiarem e depois de se sentirem bem, informarem ao realizador que estavam prontos para gravar”, explica.

PLANOS AMBICIOSOS

Entre os planos futuros de Vipino, consta a ida em Agosto para Hollywood, onde provavelmente poderá assinar um contrato para participar em um filme. “Tenho propostas de Hollywood que ainda estou a estudar. Ser feliz com o trabalho que fazemos é o mais importante. Por isso, tenho de ver primeiro o que me espera”.

Falando do cinema, Vipino diz sonhar em um dia poder realizar o seu próprio filme. “Gostaria de um dia dirigir um filme meu, no meu país com toda infra-estrutura que um bom filme exige”.

Questionado sobre o cinema que se faz em Moçambique, Vipino afirma: “ Moçambique tem cineastas e actores de gabarito internacional. Só que fazer filme custa muito dinheiro. Em muitos países sabe-se que o filme é caro. Por isso, o Governo comparticipa pois as receitas não são suficientes para cobrir os custos”.

Vipino olha para o cinema em uma outra perspectiva. “O cinema não se limita apenas a entreter. Tem outro lado da imagem. Podemos através do cinema documentário, por exemplo, mostrar a beleza do nosso país e explorar a componente turismo cultural. As lindas paisagens que o país ostenta, a beleza das pessoas e muito mais, podem ser transportadas e mostradas na tela”.

GOSTOS DE VIPINO

De estatura média, meio tímido e palavras medidas, Vipino nasceu na década sessenta, no dia 1 de Maio (Dia Mundial do Trabalhador), em Inhambane.

Seus tempos livres são passados junto da família. “ Gosto de estar com a família e sempre que posso vejo filmes”.

Filme : O Padrinho 1, com Al Pacino

Actores admirados:Al Pacino, Amitabh Bachan

Prato:Galinha do forno e mathapa; Couve.

Sonho:  Levar a carreira de actor a sério.

Política: Não muito. Mas directa e indirectamente nos afecta

País: Moçambique (gostaria de conhecer melhor o meu país).

Frederico Jamisse

Jerónimo Muianga

 

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