Artes & Letras

Marrabenta aquece Brasil

 Ano passado, realizamos as filmagens em Maputo e Marracuene do documentário “Marrabenta, o Som de Moçambique” com alguns dos cantores de vanguarda desse movimento que tão bem representa uma parte da rica cultura moçambicana. Participaram do filme os cantores Dilon Djindji, Wazimbo, Mingas, Chico António, Moreira Chonguiça e João Domingos, para além de outras personalidades.

 Através de relatos, lembranças e imagens de arquivo de um passado recente, todos contribuíram na construção de uma narrativa sobre o cenário cultural do início da Marrabenta.

Após meses de trabalho de pesquisa, filmagens e edição realizados pela Cine Group, produtora brasileira com escritórios em Maputo, chegamos a primeira versão do documentário que foi recentemente exibida no Rio de Janeiro, Brasil, durante o Festival Back2Black, dedicado à cultura negra naquele país. Também participaram desse Festival outros artistas internacionais como Angelique Kidjo, Damian Marley, Linton Kwesi e Lenine, entre muitos outros.
O Festival, na sua sexta edição, tem-se consolidado como um importante movimento artístico de divulgação da cultura panafricana no mercado artístico brasileiro. Este ano, inseriu a Marrabenta ao lado de outros ritmos de origem africana como o Jazz, o Reggae, a Rumba, o Funk e o Kuduro. Com destaque, este movimento artístico genuinamente moçambicano passou a enquadrar-se na dimensão universal que sempre mereceu ocupar. A Marrabenta deixou de ser só nossa e passou a ser do mundo!
Para o nosso orgulho, o festival permitiu-nos levar alguns dos músicos que participaram das filmagens do documentário da Cine Group para fazerem um espectáculo inédito. Wazimbo, Mingas e Moreira Chonguiça subiram ao palco da Cidade das Artes, templo do Back2Black no dia 21 de Março.
Além do memorável show que fizeram, durante a estadia dos músicos no Rio de Janeiro, o diretor Victor Lopes  – moçambicano radicado no Brasil há décadas – concluiu a última etapa do documentário. Ao pararem para tomar água de coco na praia do Leblon, todos encantaram-se com a beleza hipnotizante das montanhas, praias e mar cariocas. Quando visitaram o Cristo Redentor, Wazimbo comparou a nossa Elisa à Garota de Ipanema; Moreira desenhou solos no saxofone  na vista das alturas e Mingas cantou emocionada para a Baia da Guanabara.
O passeio serviu de fonte de inspiração para a performance deles, que aconteceu depois da excelente apresentação de Angelique Kidjo em um dos palcos do festival brasileiro. Aos primeiros acordes de “Elisawê Ngomara Saia”, o público de mais de 3 mil pessoas se animou ao ouvir uma música tão autêntica e envolvente. A conexão foi imediata e os corações e cinturas brasileiras foram tomados pela Marrabenta moçambicana. O talento do Moreira Chonguiça, a voz cristalina de Mingas, o carisma de Wazimbo e o gingado das bailarinas de Marrabenta conquistaram os brasileiros.
A seguir, num outro palco do festival, Alcione e Martinália cantaram sucessos de compositores negros em homenagem aos 450 anos do Rio de Janeiro, diante de um público ainda extasiado pela Marrabenta. No camarim, a emoção tomou conta dos músicos e de toda a equipa. Mônica Monteiro, presidente da Cinegroup, estava realizada por ter conseguido levar os músicos da Marrabenta para o Brasil e comemorou também porque em breve, o belíssimo documentário estará pronto para contar a origem desse ritmo que tão bem representa o nosso Moçambique.
Aquela noite inesquecível de exibição do documentário e apresentação dos músicos moçambicanos valorizou e exaltou toda uma cultura, toda uma história e promoveu a integração dos povos. Durante essa digressão ao Brasil, a Marrabenta provou o seu verdadeiro potencial, tamanho o impacto das notícias veiculadas nos medias daquele país.
Para além de Mia Couto, poucas vezes a cultura moçambicana recebeu tamanho destaque num grande mercado como o brasileiro, tendo sido alvo de publicações sobre o documentário nos principais jornais brasileiros. O documentário e os músicos moçambicanos também participaram do programa televisivo Esquenta, apresentado por Regina Casé, da renomada emissora de TV Rede Globo. Todo o país dançou ao som de Moçambique! Marrabentamos o Brasil!

Leandro Estrela

 

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