Sociedade

Sapatos como fonte de vida

Alfredo Dengo é portador de deficiência e sapateiro de profissão há mais de 30 anos. Desenvolve a actividade para sustentar sua família e mostrar à sociedade que ser deficiente não significa vida de esmola.

Alfredo Dengo é natural de Chidenguele, na província de Gaza. Vive actualmente no bairro Luís Cabral, na cidade de Maputo.

Pai de cinco filhos, com idades que variam entre dois a 14 anos, mostra que não podemos pensar que a vida acabou quando o infortúnio nos bate a porta. Para além de ser sapateiro, o nosso entrevistado sabe também fazer cestos, estantes, sofás, usando a palha como matéria-prima. 

Conta-nos que sua condição de deficiente não pode, assim, ser pretexto para fuga ao trabalho. Exerce sua profissão com gosto e paciência, procurando sempre ir ao encontro das expectativas dos clientes.

No passado amigos com os mesmos problemas físicos convidaram-no para deixar de exercer aquela profissão e passar a frequentar diferentes estabelecimentos comerciais da cidade de Maputo para pedir esmola.

“Não aprovei a ideia. Passar a vida andando nas ruas a pedir esmola seria o mesmo que desviar os meus filhos para uma vida sem futuro, pois pensariam, erradamente, que aquela é a melhor forma de ganhar o pão”, disse.

Ressalvou que continuará a desenvolver a sua profissão. “ Com o pouco que ganho consigo suportar as despesas da escola dos meus filhos. Talvez, vão ter dificuldades quando chegarem nos níveis mais altos onde é necessário muito dinheiro”, vaticina.

DEFICIENTE DESDE QUATRO ANOS 

Alfredo Dengo é portador de deficiência desde os quatro anos de idade por causa de doença.

Dengo nasceu sem deficiências, mas três anos mais tarde ficou doente e foi evacuado ao Hospital de Manjacaze onde ficou hospitalizado quatro anos.

O nosso entrevistado revelou que houve grande esforço no seio dos profissionais de saúde afectos àquela unidade sanitária, no sentido de resolver a difícil situação de uma criança que já não andava e nem sequer gatinhava. Só conseguia se arrastar de barriga.

Como a desgraça não caminha só, sua mãe perdeu a vida e ele passou a viver com o pai e a madrasta. O tratamento na casa não era católico. Em razão disso um amigo o levou para cidade de Xai-Xai onde passou a viver.

“Em Xai-Xai, a diocese local lançou um programa para a formação em diferentes áreas profissionais como carpintaria, dactilografia, sapataria, electricidade, entre várias outras profissões”, recorda.

Falando sobre as razões da sua escolha, Dengo referiu que quando foi anunciado o projecto ficou alguns dias a pensar sobre qual seria a profissão adequada para si, tendo em conta a sua condição física.

“Nisso vi que na dactilografia teria pouca possibilidade de ser admitido numa empresa. Electricidade também, então, conclui que sapataria era a único ofício, pois caso não conseguisse uma colocação poderia montar a minha oficina em casa”, explica.

Recorda que de entre os inscritos, ele foi o único que tinha escolhido a carreira de sapateiro e hoje destaca-se como notável profissional , tendo  montado a sua oficina nas proximidades do Hospital José Macamo, no bairro Luís Cabral, Cidade de Maputo.

fotos de Jerónimo Muianga

Abibo Selemane

habsulei@gmail.com

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