Sociedade

O sapateiro “rasta” que os bancos desconfiam

Alberto Beta Faife é cidadão de 52 anos de idade, residente no bairro cinco, arredores da cidade de Chimoio, capital da província de Manica. Nasceu em Catandica, distrito de Báruè. Muito cedo emigrou para a vizinha República do Zimbabwe, onde residiu durante muitos anos. Mais tarde regressou a Chimoio onde reside e trabalha como sapateiro. Mais conhecido por “rasta”, vê a sua fama crescer a cada dia que passa pela forma “artística” como faz e desfaz o sapato.

Teve infância difícil. Seus pais eram camponeses. É um homem que se dedica ao trabalho. Acredita em si e no poder das suas mãos.

Começou a cuidar de sapatos há 27 anos. Sua labuta iniciou numa simples tabuleta na rua. Hoje por hoje, é proprietário duma carpintaria que se localizada no centro da cidade, onde trabalha com dois ajudantes.

Vê no sapato como sua fonte de sobrevivência. Construiu uma casa e manda seus filhos à escola com base no dinheiro obtido na sapataria.

Gosto do meu trabalho. As pessoas podem desprezar-me, mas consigo alguma coisa para sobreviver. Trabalho com muito gosto, por isso o meu produto é muito apreciado. Este é o principal segredo para sucesso”, afirma.

Durante a década de 80, aprendeu o ofício no vizinho Zimbabwe, onde vivia com seu tio. Quando já se achava capaz de produzir para o seu auto-sustento, regressou à Moçambique, terra que o viu nascer, para reiniciar a sua actividade.

" Logo pela manhã recebo muita gente. Chegam-nos diversos tipos de sapato. Outros em estado muito crítico. Tentamos recuperá-los. Muita gente vem porque acredita no nosso trabalho. Olhamos para todos clientes sem nenhuma diferença e todos saem satisfeitos. Esse é que é um dos segredos para o sucesso de qualquer trabalho”, disse-nos Rasta, que descreve o sapateiro como uma pessoa bastante importante na sociedade e que devia merecer alguma valorização .

“Acabamos sendo mais importantes ainda quando alguém estiver a caminhar e nota que o seu sapato se descolou. A primeira coisa que faz é perguntar por um sapateiro para socorro. Mesmo que a pessoa esteja bem vestido, quando isso acontece somos procurados.”, refere.

“MEUS CABELOS

PREJUDICAM-ME”

Rasta procura transmitir os seus conhecimentos de sapataria aos mais jovens. Num passado recente, trabalhou com algumas crianças em número de cem.

Elas aprendiam a coser sapatos e a fazer outros trabalhos relacionados com a sapataria. Contudo, o projecto esbarrou-se com falta de fundos e caiu na falência.  

Disse que pretende dar continuidade ao projecto com as crianças se tiver algum financiamento.

Explicou que em várias ocasiões pediu apoio junto de alguns estabelecimentos bancários e outras instituições de micro-credito sediadas na cidade de Chimoio. Contudo, mesmo depois de os projectos terem sido considerados de boa qualidade e aprovados, nunca recebeu a referida ajuda porque quando olham para ele e observam o seu cabelo “rasta” ficam com muita dúvida e, automaticamente, começam a cortar tudo.

“Não acreditam na minha pessoa. O meu cabelo tem me penalizado bastante, mas não posso fazer nada. Também não posso cortar o cabelo para ludibriar as pessoas. Na minha opinião, a falsidade da pessoa não se resume nos cabelos”, sublinha.

Domingos Boaventura

mingoboav@gmail.com

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