Sociedade

O perigo que vem da cozinha

Afinal cozinhar mata. Mais de quatro milhões de pessoas morrem por ano, em todo o mundo, em consequência deste acto. As mortes são intrigantes e ocorrem em cozinhas com pouca ventilação. A inalação de gases como monóxido e dióxido de carbono é apontada como principal causa. Moçambique tenta inverter este cenário promovendo fogões melhorados, uma iniciativa que já envolve mais de cinco mil pessoas na cidade e província de Maputo.

O caso não é para menos. A OMS refere que a poluição do ar em ambientes fechados, nas nossas cozinhas tradicionais, está relacionada a mais de 4,3 milhões de mortes em todo o mundo.

Invariavelmente, as mortes estão associadas ao uso de fogões de biomassa, carvão e madeira.
Ou seja: anualmente, segundo a OMS, cerca de 4,3 milhões de mortes prematuras devem-se ao ar respirado dentro de casa. Por outras palavras morrem 11 mil pessoas no mundo devido ao cenário das cozinhas nos países em desenvolvimento.

As fogueiras estão na dianteira deste ambiente sinistro. “Ter uma fogueira na cozinha é como fumar 400 cigarros numa hora”, indica Kirk Smith, professor na University of California Berkleley, cujas investigações indicam que a poluição resultante da confecção de alimentos matou entre 3,5 a 4 milhões de pessoas prematuramente em 2010.

A explicação é fácil. Para alimentar as fogueiras é utilizada madeira, carvão e outros combustíveis. O fumo proveniente destas “combustões” enche a casa de pequenas partículas prejudiciais e de monóxido de carbono. Adicionalmente, muitos destes locais onde são confeccionados os alimentos não possuem boa ventilação – o que impede o fumo de sair.

A exposição tende, assim, a ser muito mais nociva para as pessoas que passam mais tempo à volta destas fogueiras: mulheres e crianças.

A inalação de gases (monóxido e dióxido de carbono) parece ser a causa fundamental, sendo urgente a oferta de alternativas seguras.

MOÇAMBIQUE TESTA

FOGÕES MELHORADOS

Moçambique começa a experimentar várias linhas de fogões melhorados, destinadas a vários segmentos da população, apostando presentemente na sua distribuição na cidade e província de Maputo. “Futuramente poderemos identificar pontos de venda noutras províncias”, promete Débora Carvalho, assessora na área de energias renováveis na SNV, uma organização holandesa de desenvolvimento.

Estima-se que 82 por cento da população moçambicana usa fogão a carvão e 11 por cento lenha. Mais ou menos 61 por cento dos moçambicanos usam fogões dentro de casa às vezes sem janela.

Resultados: 54 por cento tem irritações na vista (lacrimejam); 46 por cento já se queimaram e 27 por cento reportam episódios de tosse (devido a inalação de gases como monóxido e dióxido de carbono).

A SNV, uma organização holandesa de desenvolvimento, implementa este projecto em Moçambique, apoiada pela GIZalemã, no âmbito do programa INVEV.

Segundo Débora Carvalho, a empresa ICEMA, que até pouco tempo produzia manilhas para canalização e esgotos, e que com o advento dos PVC quase ia a falência, assume-se como âncora deste projecto, produzindo fogões melhorados com alto potencial de conservação de calor.

Em Moçambique estão a ser promovidos os fogões “zavala” e “mbaula”, este último com muito sucesso no Quénia e no Malawi. Ambos têm uma poupança acima de 50 por cento e não irradiam gases.

A Irradiação bate o barro e fica retida. Não emitem fumo e fazem 42 por cento de poupança de carvão. “De três saquinhos para cozinhar, as mamanas podem usar apenas um”, esclarece Débora Carvalho.

E salienta: “A aderência tem sido muito boa, o que mostra que a alternativa é mesmo viável”, disse, acrescentando que 5 970 pessoas estão a beneficiar-se do projecto de fogões melhorados. A meta é alcançar 200 mil pessoas ( 40 mil famílias).

BOA ADERÊNCIA

Segundo António Timana, coordenador da produção de fogões “Zavala” tudo é feito de acordo com as necessidades de mercado. “Podíamos produzir muito mais, até  800 fogões dia”.

O nosso entrevistado expressou satisfação pela aderência. “A procura está a crescer a medida que as pessoas vão conhecendo o fogão. Trata-se de um produto novo”, sublinhou.

Refira-se que os fogões “zavala” resultam da mistura de argila (vermelha) com a chamada argila refractária (bentonite) para poder aguentar com as altas temperaturas.

O fogão é feito pela mistura. 30 por cento de argila vermelha e 70 por cento de bentonite. A mescla passa posteriormente por uma massadeira, antes da compactação em moldes cilíndricos .

O fogão, composto por cilindro e peça para acomodar carvão, tem poder de absorção de calor muito grande. Poupa carvão. Não faz muito fumo. A inalação de dióxido de carbono é menor.

Trata-se de uma boa notícia para consumidores da cidade e província de Maputo, que viram os custos de carvão dispararem nos últimos cinco, seis anos. De 200, 300 meticais passaram para 750 meticais o saco.

O carvão é geralmente produzido fora da cidade de Maputo, daí o preço proibitivo. Mesmo assim estima-se que 240 mil agregados familiares na cidade e província de Maputo dependem de carvão para necessidades caloríficas.

Facto interessante: o consumo de carvão é mais caro que o de gás e energia eléctrica. Tudo se complica no que concerne ao custo de equipamentos de iniciação.

O que é monóxido

e dióxido de carbono?

Muitas mortes reportadas nas cozinhas, sobretudo no Inverno, são causadas pela inalação de gases, sobretudo monóxido de dióxido de carbono, refastos para a saúde humana.

Monóxido de carbono é um gás inflamável, incolor e inodoro. Essa última característica faz com que este gás seja altamente perigoso.

É produzido pela queima incompleta de combustíveis fósseis como, por exemplo,  carvão , gasolina, querosene, óleo diesel, entre outros.

Alerta: a cozinha é o local onde o monóxido de carbono é constantemente produzido, através da queima de gás butano (gás de fogão). O mau funcionamento do exaustor em cozinhas abafadas faz com que a liberação dos gases para o exterior do ambiente fique mais difícil.
O fato de não possuir cheiro dá ao monóxido de carbono o apelido de “assassino silencioso”. Já foram muitos casos de inalação e intoxicação imperceptíveis. Como o processo é lento, a vítima só se dá conta do ocorrido após altas doses inaladas.

EFEITOS DA INALAÇÃO DE MONÓXIDO DE CARBONO

Em pequenas quantidades pode causar enxaquecas, lentidão de raciocínio, irritação nos olhos e perda de habilidade manual. A inalação de níveis de monóxido de carbono mais elevada pode levar aos seguintes sintomas: náuseas, convulsões, perdas de consciência e, em situações mais graves, pode levar o indivíduo a morte por asfixia.

O dióxido de Carbono é igualmente um asfixiante. Concentrações de 10% ou mais podem causar inconsciência ou morte.

“Agora poupo muito carvão”

Amélia Felisberto

Encontramos Amélia Felisberto no Mercado do Jardim, onde é vendedora. Sem tempo para preparar refeições em casa, estava ela a cozinhar com o fogão melhorado “mbaula”.

“ Este tipo de fogão, para além de emitir pouco fumo, é económico. Poupa carvão”,disse à nossa Reportagem.

Acrescentou que o único problema que o fogão apresenta é possuir recipiente para guardar cinza.

“Preparo 3 refeições

 com pouco carvão”

– Olga Tivane

Para Olga Tivane, para além de ser “amigos do ambiente”, os fogões melhorados são fáceis de usar e não gastam muito carvão.

A nossa entrevistada, que cozinhava usando fogão “Zavala”, disse que prepara, à vontade três refeições com recurso a pouca quantidade de carvão.

Bento Venâncio

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