Sociedade

“No capitalismo, há um preço a pagar. E esse preço exige uma responsabilidade”

O actor chega com o novo filme, “Mata-os Suavemente”, e uma retórica contra os males do sistema económico selvagem americano. Apela a uma chamada à regulamentação,

ao mesmo tempo que garante que o cinema não é a sua prioridade.

 

No novo filme de Andrew Dominik, “Mata-os Suavemente”, três palermas que não têm onde cair mortos  decidem fazer um assalto e violar as regras do jogos da  máfia local, levando aquela economia paralela à beira do colapso. Contratado para os liquidar, jackie Cogan, um assassino a soldo sem piedade e sem  remorsos, é encarregado de restabelecer a ordem. Eis um gangster movie que, deste modo, tem a ambição de nos falar da crise económica e, através dela, de um país onde o capitalismo desregulado e as leis do dinheiro perverteram os ideais do sonho americano. O assassino Jackie tem um rosto bem conhecido de todos, Brad Pitt, protagonista e também produtor da obra. Falámos com ele, em entrevista exclusiva, no ultimo Festival de Cannes, horas depois da estreia mundial de “Mata-os Suavemente”.

Está de volta a um filme de Andrew Dominik cinco anos depois de  um papel  impressionante em O Assassínio de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford (2007). Alem disso, todos sabemos que é amigo pessoal do cineasta. Como é que se passou esta nova experiência? Desta vez interpreta o cool guy…

É verdade que a minha personagem é o cool guy mas pensei muito nisso. Decidi entrar neste filme com um sentimento diferente, sem me lembrar do meu papel anterior nem dos filmes anteriores do Andrew. Não me vou esquecer que fiz entretanto “A árvore da Vida”, de Terrence Malick ou “Moneyball- Jogada de Risco” de Bennett Miller, que são trabalhos muito diferentes… E agora, “Mata-os Suavemente”, que não podia ser mais distinto daqueles. Acho que estou a atravessar uma boa fase da minha carreira.

No fim de “Mata-os Suavemente”, há aquela famosa tirada que  já começa a correr pelos bastidores do festival: América is not a country, is a fuckin´ business…” o que é que pode acrescentar a isto?

Pessoalmente não acho que seja uma frase que defina a América. E é obvio que, sendo produtor, estou a lidar com isso mesmo, com um fuckin’business, embora este filme me pareça pela sua natureza e pelo seu orçamento, que está um pouco à margem da grande indústria de Hollywood. Ao mesmo tempo não desdenho o comentário político que a frase comporta porque… (pausa) bom, a minha personagem, Jackie Cogan tem os seus motivos. O Andrew queria fazer um filme sobre a América vendo o país como um negócio e em simultâneo pretendia camuflar essa intenção com a história e com o drama. A América é um país de ideais, vivemos com esses ideais, alguns deles muito fortes, mas muitas vezes eles são usados como marketing puro, e em nome da ganância. Eu acredito que, de certa maneira, “Mata-os Suavemente” faz por portas e travessas um apelo a um capitalismo responsável. Para o Andrew, justapor esta ideia à crise financeira que atravessamos foi uma intenção  psicológica muito clara porque isso faz-nos pensar no que somos hoje e no que temos feito. Nos anos 90, durante o período Clinton, toda a gente acreditava que podia ter uma casa e realizar o sonho americano, foi um período de endividamento grave à banca. Mas depois chegou o Bush e desregulou isto tudo. As pessoas começaram a perder as suas casas e não conseguiam pagar as hipotecas. E todos nós sabemos o que aconteceu: muita gente saiu magoada da experiencia. Julgo que é interessante pensar simplesmente nisto: como é que a sociedade americana julga os seus membros mais desprotegidos? Como é que os estados Unidos os Defendem? A América pode ser muito dura neste ponto. É  realmente um sitio muito complicado para se viver.

Além de protagonista do filme, você  é também o produtor. Neste caso, a expressão fuckin’business ganha outro significado?

Nós sabíamos que estávamos a fazer um filme que critica o sistema dentro do próprio sistema. E eu acho que há algo de nobre num filme assim, que nos conta uma história e essa história nos convida a pensar e a descobrir outras coisas. Isto é basicamente o que a Dede Gardner, coprodutora, e eu temos procurado fazer nos últimos tempos: concentrarmo-nos em filmes mais exigentes que, sem o nosso empurrão, talvez nunca conseguissem ser feitos. Filmes que falam do  aqui e agora, do que nós somos hoje. “Mata-os Suavemente” expõe-nos a um microcosmos do sub-mundo do crime que na verdade quer falar do  mundo inteiro.

Foi esse desejo de falar explicitamente da América de hoje que o levou a incluir a imagem de Obama no filme quando ele aparece na TV? Foi por isso que, tanto quanto se sabe, chegou mesmo a pensar em convidar Obama para um papel?

Não, Obama  está lá numa aparição  na TV mas podia ser Bush, ou outro político qualquer. Não há nenhum significado político nisso além de termos querido figurar a pessoa que esta neste momento a tentar endireitar o barco. O que é interessante pensar é que nós temos esta coisa, chamada democracia, que esta baseada na persuasão das pessoas. Ora, persuadir custa dinheiro. O dinheiro é suportado pelos negócios que tem os seus próprios interesses. E o que nos damos conta é que o governo, afinal, é apenas uma pequena engrenagem desta grande roda-viva, deste grande processo que faz avançar a America.Ao mesmo tempo a América é um país surpreendente. Em muitas coisas, ainda funciona como um colectivo. E, quando é necessário, sabe reflectir as preocupações desse colectivo e responder por ele de um forma extraordinária. Neste filme, estamos a jogar com personagens que têm opinião e modos de vida muito específicos mas elas não deixam de reflectir o país a que pertencem. E nos EUA, neste momento, vivem-se tempos de grande divisão.

Na sua opinião, até que ponto foi a produção  cinematográfica afectada pelo clima criado pela crise económica?

O Andrew Dominik não é americano, vem de outro continente, da Austrália, e talvez tenha por isso outro ponto de vista mais distante porque as diferenças culturais entre América e a Austrália são enormes. Para ele era claro que os  filmes americanos e América  não são a mesma coisa. Hollywood não é necessariamente o melhor espelho da realidade e da nossa sociedade. E quando o é, isso só acontece ocasionalmente. Ora, nós vivemos em Hollyood, que é só um pequeno mundo à parte dentro da América.  Não queríamos que “Mata-os Suavemente” se ficasse por ali. A nível político, o que eu acho mais interessante é que o filme não quer apenas lidar com os problemas em si, com a sua identificação com as promessas para a sua solução, mas sim com a percepção desses problemas, o que é um ponto de vista totalmente diferente.

Mas isso não quer dizer, tanto quanto creio, que “Mata-os Suavemente” não deixe a sua critica ao país, à sua mentalidade e ao seu sistema político. E aqui, talvez entre alguma ironia em jogo, não?

A ironia era fundamental porque nós estávamos a lidar com uma  realidade em que nada é a preto e  branco. E é por isso que o filme começa como começa com uns falhados que nem se dão conta de como são estúpidos, uns Chico-espertos que não costumam durar muito nos filmes de gansters e que decidem destruir a pequena economia criminosa em que estão inseridos. Eles vão ser observados pela perspectiva de um assassino contratado pela máfia – a personagem de jackie. Eu não estou seguro de que haja um sistema melhor para viver além do capitalismo. Mas estou seguro de uma coisa: no capitalismo há um preço a pagar. E esse preço exige uma responsabilidade.

 Já falou de capitalismo responsável. Pode definir melhor esta ideia?

Estou a falar de uma chamada à regulamentação. Por exemplo: porque estamos nós a sugar petróleo do Equador há mais de três décadas? estou a falar, acima de tudo, de uma responsabilidade pessoal que tem de vir de cada um de nós. Bom, eu não sou economista. Não posso ter sobre este tema a última palavra. O que eu acho é que, se é no capitalismo que vivemos, esse sistema tem que ser protegido de forma a proteger as pessoas que vivem nele. Ora, se tu roubas um banco, és preso. Mas se o banco te rouba, não te resgatam a ti, resgatam o  banco – e isto é verdadeiramente preocupante. O Andrew tem uma ideia  muito original para definir o capitalismo: é uma célula em mutação, uma coisa bizarra, e não sabemos para onde nos vai levar. Não é estanque, como o comunismo o foi – e por isso o comunismo acabou. Ele diz que o capitalismo é qualquer coisa que aplica a selecção natural das espécies à economia. Não  acha isto uma ideia terrível?

O pano de fundo do filme é importante ou a cidade em ele foi rodado, New Orelans, podia ter sido uma outra qualquer cidade americana?  

 Eu acho que o filme se podia passar em qualquer local da América e a cidade talvez não tenha uma grande importância mas, em termos de trabalho, o Andrew precisa de coisas concretas, de se ligar a lugares, e é assim que ele gosta de trabalhar, com pessoas e relações humanas credíveis em locais determinados.

O filme procura outras coisas: por exemplo, há uma estilização da violência que atravessa “Mata-os Suavemente” de uma ponta a outra e que é sublinhada na morte da personagem de Ray Liotta, Markie Trattman…

Essa morte é uma balada; aliás, eu acho que a violência é muito bonita neste Filme. Acho mesmo. Isto não tem explicação. Agora não me diga que “Mata-os Suavemente” é um filme sobre a violência, ou sobre a máfia, porque não é. Eu acho que “Mata-os Suavemente” fala de outra coisa: de como concluir com eficácia uma trabalho rápido e  sujo a troco de uma recompensa. Por baixo disto, talvez passe uma mensagens indignada sobre o estado da coisas na América.

O drama do Filme é lançado por uma economia paralela alicerçada no jogo e onde o dinheiro é a lei. Até que ponto o dinheiro é importante para si e para a sua vida quotidiana?

 Ouça… (pausa) isto pode soar a cliché mas eu diria que o dinheiro nunca é suficiente (risos). Dá-te oportunidade para fazeres muitas coisas, para veres o mundo, para viajar- quem me dera que toda a gente pudeses dizer o mesmo. E  também é algo que te traz uma série de problemas, a uma escala muitos diferente. Às vezes olho para trás e penso que teu local de nascimento determina desde logo as oportunidades que vais ter na vida e eu sei que tive sorte em relação a isso: cheguei a Hollywood, na lotaria. Mas eu acho que as pessoas hoje se esquecem que eu sou um rapaz que veio de Oklahoma, a terra do Mark Twain e do Jesse james. Fui educado muito longe de Hollywood.

Será por isso que costuma dizer que o cinema não é a sua prioridade?

Sim, na verdade estou mais preocupado em ser pai (risos). Não é uma tarefa fácil.

Corre aqui em Cannes o rumor de que se vai casar em breve. Já acertou uma data com Angelina Jolie?

Não, nós não temos datas. Já pensamos nisso mas não temos nada combinado. É apenas um rumor (risos).

Fala de dinheiro com os seus filhos? Da importância e também dos problemas que existem à volta dele?

Já tenho tentado transmitir-lhes algo mais geral e  edificante, que é a distinção entre o bem e o mal. Sobretudo quando eles andam à bulha uns com os outros (risos). Ainda é cedo para lhe explicar que há muita gente no mundo que se esforça e luta todos os dias para pagar a renda ao fim do mês. Mas este tempo vai chegar. Para a maioria das pessoas, o quotidiano é uma questão de sobrevivência. Passam a semana a trabalhar e depois dão um passeio com os miúdos ao domingo e, de facto, não tem muito tempo para pensar nos verdadeiros problemas. Os media podiam ajudar aqui, podiam educar, podiam informar, e ainda bem que surgiu uma coisa tão extraordinária como a internet, mas também  têm interesses capitalistas que os impedem de cumprir a sua missão. A democracia é algo que só funciona se as pessoas estiverem informadas. Só que a maioria das pessoas não tem tempo para isso.

Imagino que a sua personagem em 2Mata-os Suavemente”, Jackie Cogan, jamais poderá servir de exemplo..

Seguramente não é  exemplo para crianças. Jackie é o egoísta e o cínico do filme. Na verdade, este tipo acredita no sistema em que está inserido. Tolera-o e simplesmente não o questiona. Cumpre as ordens que tem e fá-lo da forma mais eficaz possível. Vive numa mascara impermeável às emoções. Mas quando ele prime o gatilho, não está à espera de causar sofrimento aos outros, não é um sádico, é apenas alguém que mata e para quem matar é um trabalho como qualquer outro. Afinal, talvez haja em Jackie alguma  coisa de humano(risos). Jackie é um degolador. Para mim, ele representa o business world em que vivemos, do qual todos fazemos parte e que é igualmente cruel.

Como é que você e Andrew Dominik se conheceram?

Eu vi a sua primeira obra, “Chopper” realizado em 2000, e achei que o filme trazia realmente uma voz original ao cinema. Trata-se de outra ficção sobre o colapso da natureza humana. Fiquei fã do filme e telefonei-lhe de seguida, foi  tão simples quantos isso.

Isso é uma norma sua, estar atento à novidade? Procura a originalidade ou é mais do género de ficar à espera que o seu agente lhe telefone a propor-lhe um novo projecto?

Ah não, nunca fico à espera que me telefonem. Acho que já me posso dar a esse luxo… Estou  atento às novidades, claro. Procuro trabalhar com realizadores que são autores e que têm algo  de pessoal para dizer, porque os autores protegem-se, ou pelo menos tentam. Gosto de me pôr nas mãos desses autores e de trabalhar com eles, de formar com eles uma equipa. Não sou produtor de “Mata-os suavemente” só por acaso, mas sim porque acreditei sempre neste projecto e na pessoa que estava atrás da câmara.

Vai de seguida participar em “The Counselor” ao lado de um forte elenco: Javier Barm, Michael Fassbender, Cameron Diaz, Penelope Cruz…

É o novo filme de Ridley Scott e vou participar nele agora, sim. Tal como o Andrew, sou um fã incondicional de Cormac McCarthy. Li literalmente cada palavra que este tipo publicou e o argumento de “The Counselor” foi escrito por ele. Na verdade, é o seu primeiro argumento original escrito para cinema. E há o Ridley Scott, claro. Tenho esta dìvida eterna com ele. Foi Ridley quem me deu a minha primeira grande oportunidade no cinema, com “Thelma & Louise”. São coisas que não se esquecem. Tenho imenso respeito por ele.

Acha que Hollywood é um lugar em que a lealdade ainda faz sentido? E você, acredita nela?

Bom, houve muitas vezes em que pensei que Hollywood era um lixo, um rolo compressor em que só a aparência e o dinheiro contam, mas, ao mesmo tempo admito que as pessoas mais interessantes que conheci na vida fazem parte dessa comunidade. E são pessoas curiosas, inteligentes, que se interessam mesmo pelo que fazemos e pelo modo como trabalhamos. Eventualmente, alguns deles tornam-se amigos. E isso é o mais precioso.

Já esteve em Cannes varias vezes, mas nem sempre com filmes em competição pela Palma de Ouro, como é o caso de “Mata-os Suavemente”. Quais são as suas impressões sobre o festival?

Para mim este é e será sempre o lendário Festival de Cinema de  Cannes. Vale pela força do coletivo de cineastas que aqui se juntam nestes dias e pela  selecção  de cinema que fazem. “Mata-os Suavemente” é um filme arriscado, com um  contexto político forte e mostrar o filme aqui em estreia mundial é a melhor janela para o mundo que poderíamos ter.

                                                                   (In Revista Expresso)

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