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MOTORES: Motoqueiros diferentes

Por admin

Têm um amor umbilical pelas motos e pelo alcatrão. Do tipo mãe para filho. E, desengane-se, desde já, quem pensa que são apenas meia dúzia. Não são poucos, não. São centena e meia sendo que 30 são mulheres. Para melhor coordenação e organização, em 2002, constituíram uma associação que funciona na capital do país. domingo conversou com o líder da “tribo”, Zé Cláudio, na sua oficina, algures na cidade de Maputo.

Trajado de botas pretas, chapéu vermelho, calça da mesma cor e “t-shirt” com algumas manchas de óleo, Zé Cláudio era todo sorriso. A colorir o espaço lá estavam as motos de alta cilindrada como Suzuki, Yamaha, Ducate, Honda, BMW, Aprilia, Hardware, entre outras.

A nossa mente, ao contemplar aquela montra fina, voa momentaneamente para nomes como Valentino Ross, Marques Marquez, Filipe Oliveira, que literalmente levitam em algumas motos semelhantes àquelas nas grandes provas de Motos GP.

A diferença é que enquanto aqueles competem, os nossos motoqueiros divertem-se em cima daquelas pérolas que custam os olhos da cara, isto é, são mais caras que um automóvel.

Zé Cláudio confidencia-nos que as motos são, na sua maioria, adquiridas na África do Sul, normalmente em segunda-mão, embora reconheça que alguns membros conseguem comprá-las ainda novinhas em folha.

Sorridente e animado, elucida-nos que a maioria daquelas “ferras” atinge, em fracção de minutos, velocidades acima de 250 quilómetros por hora, mas para a maioria dos membros do seu clã isso não é problema porque não estão constantemente em loucas correrias.

O sabor de uma passeata numa Hardware, Ducate, Aprila, confidencia-nos uma vez mais, sente-se ao contemplar a natureza humana e humanizada, tendo, por vezes, o vento como atrito.

Questionado sobre a beleza irrepreensível das motos, Zé Cláudio afirma que a maioria resplandece fruto de imensos “mimos e beijinhos” que os proprietários lhes dedicam.

Há quem fique todo o fim-de-semana cuidando da sua moto, razão pela qual os transeuntes, ao se cruzarem com eles, ficam quase hipnotizados e, ao mesmo tempo, maravilhados e sedentos de ter uma, ou, pelo menos, experimentar a garupa daquelas máquinas.

Efectivamente, é um autêntico regalo cruzar-se com aqueles motoqueiros na Estrada Circular de Maputo, na avenida Sebastião Marcos Mabote, na Estrada Nacional Número 1 (EN1), envergando os seus capacetes, luvas, blusão e calças de napa, cabedal ou jeans, montados, às vezes, a solo ou um par de namorados, sempre deixando o alcatrão para trás.

“RAIDERS” EM TODOS

OS FINS-DE-SEMANA

A tribo é composta por indivíduos que provêm de várias áreas profissionais e, aos fins-de-semana, se diverte realizando “raiders” com a finalidade de cimentar a união e irmandade. São pessoas com idades compreendidas entre os 18 e 60 anos.

 

Segundo Zé Cláudio, já escalaram as províncias de Maputo, Gaza, Inhambane, Sofala e Tete, e aventuraram-se pelo menos uma vez para a vizinha África do Sul, a terra do Rand.

“Os nossos passeios ou viagens mais longas duram um dia. Temos dormido no destino caso seja necessário. Em algumas províncias como têm associações do desporto motorizado, às vezes, estabelecemos contactos para confraternização e possível apoio caso sejamos forçados a isso”.

NÃO SOMOS

DESORDEIROS

Zé Cláudio nega que eles sejam “desordeiros do asfalto”, muito embora seja essa a fama que os motoqueiros têm a nível mundial. Amiúde são tidos como pessoas que não respeitam a lei, a sua própria viva e das demais, muito menos o código de estrada.

Ele afasta-se dessa ideia quase cristalizada em algumas mentes e defende que a indisciplina nas estradas moçambicanas, bem como a falta de respeito são cometidas por automobilistas quando se deparam com os motoqueiros nas estradas.

Segundo contou, alguns automobilistas criam embaraços para a circulação normal, chegando a causar acidentes, uma vez que não cedem espaço para eles poderem circular livremente.

“Eles (os automobilistas) têm falta de respeito, fazem ultrapassagens bruscas que não têm sentido. Gostam de se exibir com aquele ar de superioridade. Se pudessem nos respeitar seria bom. Eles fazem de tudo para fechar a passagem o que, às vezes, resulta na queda de um e outro motoqueiro”.

O motoqueiro Rui Bruheim, um dos associados, tem uma ténue vaga sobre a última vez que caiu da moto. Faz parte da agremiação desde que existe, isto é, 2002. Fala devagar e pouco, mas tem ideias que bem aproveitadas podem ser uma mais-valia.

Há muita coisa que podíamos fazer aqui na cidade de Maputo como, por exemplo, ajudar a polícia de trânsito, o Conselho Municipal, mas ainda está tudo parado.

Mesmo com as adversidades, a associação tem vindo a praticar acções de responsabilidade social, para ajudar as camadas mais vulneráveis. Fardos de roupas e mantimentos são os bens de eleição que os motociclistas oferecem.

Aliás, como contaram ao domingo, já viajaram a Inhambane em missão da mesma responsabilidade social. Por agora, dizem, a ideia é ficar por aqui na cidade, conquistando mais simpatizantes.

De entre as dificuldades enfrentadas pela associação de motoqueiros, Zé Caúdio cita a falta de reconhecimento que eles ainda não encontraram nas comunidades.

De referir que os motoqueiros da cidade de Maputo possui um escritório onde os associados se encontram e reúnem, mas actualmente está em reabilitação. Por conta disso, as reuniões do grupo são feitas informalmente durante os fins-de-semana para decidirem sobre a vida e planos do grupo.

Pretilério Matsinhe
 pretilério.matsinhe@snoticicas.co.mz

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