Sociedade

Famílias afectadas vivem em celas

Quarenta famílias provenientes do bairro do Hulene, vítimas das enxurradas que assolaram a capital do país em Dezembro passado, estão albergadas desde a última sexta-feira no Centro de Observação e Recuperação Juvenil de Chihango. A sua grande preocupação é viverem separadas dos filhos.

Numa altura em que os olhos do país e do mundo estão virados para as regiões centro e norte, em pleno “coração” da cidade de Maputo dezenas de concidadãos afectados pelas enxurradas vivem em situação difícil no Centro de Observação e Recuperação Juvenil de Chihango.

Antes de rumarem para o novo “lar”, viviam abrigados em salas de aula algures no bairro de Hulene, arredores da capital. Contudo, em virtude do início das aulas do ano lectivo 2015, no passado dia 9 de Fevereiro, eles foram forçadas a abandonarem estabelecimentos de ensino.

Por não terem onde ficar, a vereação do distrito municipal Ka Mavota, optou agora por transferi-las ao Centro de Observação e Recuperação Juvenil de Chihango.

Estamos a falar de 40 famílias distribuídas que vivem hoje em três pavilhões que outrora acolheram jovens adolescentes a contas com a justiça e que passavam pelo processo de reabilitação.

Maior parte dos afectados são famílias cujo ganha-pão é (era) catar garrafas, latas e plásticos na lixeira do Hulene. Outros, em número reduzido, dedicavam-se ao comércio ou trabalhavam em barracas.

Seus filhos estuda(va)m nas escolas do bairro de Hulene ou circunvizinhas.

A reportagem do domingo deslocou-se a Chihango para ouvir o sentimento das vítimas a respeito das condições da sua nova “morada”. O sentimento é unânime: “a nossa vida parou”.

No meio de dificuldades presentes, ainda lhes sobra réstia de esperança de um dia serem atribuídos novo espaço numa zona segura.

Alegam, contudo, que faltou uma palavra de esclarecimento por parte do secretário do bairro de Hulene “B”, Armindo Tai, sobre a sua situação. “Não sabemos se estamos de passagem ou viemos para ficar em Chihango”, disseram.

FALTA DE COMIDA

NO TOPO DAS QUEIXAS

“Aqui vivemos de forma individual, apesar de dormirmos em grupo nos pavilhões. Cada família desenrasca o pão de cada dia”, disse Aida Cossa uma das afectadas.

Algumas pessoas recorrem a parentes e pessoas de boa-fé que ajudam em mantimentos de primeira necessidade, porque estão longe da esfera de negócio habitual.

Eles consideram distante o percurso de Chihango para lixeira de Hulene onde habitualmente catavam garrafas, latas e plásticos para o negócio da sua sobrevivência.

“Realmente estamos a sofrer porque o dia passa sem que tenhamos algo para comer”, disse uma munícipe, sublinhado: “ o pouco que conseguimos é para as crianças”.

A maior preocupação das mães reside no facto dos filhos não poderem ir à escola por falta de condições financeiras para transporte. Algumas deixaram seus filhos junto de parentes para não perderem o ano lectivo (ler depoimentos à parte).

Contas feitas, a pessoa gastaria 28 meticais por dia, a razão de duas ligações, para sair de Chihango para ir estudar no bairro de Hulene.

As vítimas queixaram-se do formato dos compartimentos onde vivem (celas) que dificultam a circulação do ar no interior.

Outra lamúria prende-se ao facto de não terem sido criadas condições internas para o fornecimento de água, sabido que existe um sistema de abastecimento no local.

Vivo longe de meus filhos

– Amélia Manuel

Amélia Manuel deixou quatro filhos em casa de uma amiga que, por força das circunstâncias, é quase família. Destes, três estudam e o quarto por sinal mais velho, já procura desenrascar a vida.

“Deixei meus filhos por falta de opção e quase que entregues à sua sorte, pois fico sem saber se o uniforme escolar está limpo e engomado”, lamentou.

Dói estar longe dos miúdos

– Helena Matlula

Helena Matlula optou por mandar seus três filhos para casa dos avós em Boane, onde serão matriculados e iniciarão uma nova etapa escolar.

Dói estar longe dos miúdos. Estou com amargurada, mas devido as enxurradas tive que me separar deles para não perderem o ano escolar”, disse.

Antes das inundações, os filhos estudavam na Escola Primária de Mavalane.

Eles dizem que estão bem

– Alzira Machava

Alzira Machava é mãe de quatro filhos. Contou que teve que os separar para reduzir os encargos sobre as famílias que os acolheram. Assim, o mais velho foi para casa da irmã, enquanto os restantes três estão em casa da cunhada. Dois filhos estudam em escolas do bairro de Hulene e outra na secundária da Polana.

Falo com os miúdos ao telefone e eles dizem que estão bem. Só poderei ir para lá aos fins-de-semana para vê-los e lavar a sua roupa”, disse.

Jaime Cumbana

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