Sociedade

Falta de chapas sem solução à vista

A crise de transporte de passageiros que se faz sentir nas cidades de Maputo e Matola está a atingir contornos cada vez mais alarmantes. Os utentes madrugam e, mesmo assim, nunca sabem a que horas poderão chegar aos seus destinos. Recentemente, parte dos transportadores semi-colectivos enveredou pela mudança de negócio, abandonando o transporte de passageiros nas diferentes rotas para se dedicar ao transporte escolar, que parece ser mais rentável.

A falta de transporte público e semi-colectivo é uma realidade que se acentua a cada dia que passa nas cidades de Maputo e Matola, e está a levar milhares de utentes e mudarem a sua rotina, pois, são obrigados a despertar cada vez mais cedo para tomarem o meio de transporte que os pode conduzir aos seus destinos.

Gente de todas as idades que reside nas autarquias de Maputo e Matola começa a tratar a madrugada “por tu”, na medida em que afluem às paragens a partir das quatro horas de manhã para evitar atrasos constrangedores.

Aliás, em muitos terminais as populações se organizam em filas como forma de evitar empurrões. Porém, quando o transporte chega esta estratégia é literalmente esquecida e inicia a batalha por um lugar no interior da viatura, dado que parte dos passageiros faz “ligações”, um cenário que se repete ao fim do dia.

Para além da batalha para aceder à viatura, há que suportar os congestionamentos que podem durar mais de duas horas com os ocupantes dos transportes públicos e semi-colectivos “ensardinhados”.

Entretanto, nos últimos anos o governo experimentou várias medidas com diferentes parceiros, num esforço visando a busca de uma solução para este problema. De entre as saídas encontradas destaca-se a introdução de Táxi-Marítimo que fazia o transporte de passageiros Maputo-Matola-Rio e os autocarros articulados com capacidade de levar mais de 160 pessoas. Mas, foi tudo sol de pouca dura.

Em 2011, o Governo através do Fundo de Desenvolvimento de Transporte, instituição tutelada pelo Ministério dos Transportes, atribuiu por leasing 50 autocarros à Federação Moçambicana de Transportes Terrestres (FEMATRO) e 70 para a Empresa Municipal de Transporte Público de Maputo, vulgo TPM. Dados em nosso poder dão conta que, passados três anos, quase a metade dos carros atribuídos à FEMATRO já não circula.

O acordo rubricado com o sector privado indicava que cada empreendedor beneficiário de um autocarro deveria pagar em prestações num período de cinco anos até completar o montante.

A verdade é que, pouco depois, alguns agentes económicos, mesmo exercendo a actividade, não pagaram as letras devidas. Esta situação foi confirmada por Castigo Nhamane, membro da direcção da FEMATRO, que referiu que mais tarde os autocarros que estavam na gestão destes foram recolhidos e devolvidos ao Fundo dos Transportes.

Chapas desviados para transporte escolar

Recentemente, parte dos transportadores semi-colectivos enveredou pela mudança de negócio, abandonando o transporte de passageiros nas diferentes rotas dos municípios de Maputo e Matola para se dedicar ao transporte escolar que parece ser mais rentável.

Castigo Nhamane, não sabe dizer quantos carros foram desviados mas, acredita que seja um número grande. Porém, afirma que esta situação é uma faca de dois gumes.

Por um lado, esta iniciativa está a ajudar os alunos a chegar mais cedo às escolas mas, por outro, está a contribuir para a falta de transporte de passageiros nestas duas autarquias.

Falando das causas que levaram os seus associados a optarem pelo transporte de alunos, Nhamane disse que uma das vantagens é que ninguém interfere na decisão do preço, pois o acordo é feito entre os encarregados de Educação e os proprietários dos carros.

“O transporte urbano já não é rentável, apenas acumula prejuízos, então quando as pessoas descobrem outras formas de tirar benefício dos seus serviços abandonam alinham nisso”,disse.

O nosso entrevistado acrescentou que o serviço de transporte de passageiros que “está a bater” é o interprovincial, razão pela qual todos procuram ter mais de cinco autocarros para alimentar a sua frota.

“Falamos com os nossos associados do transporte urbano para se unirem e criarem uma empresa, mas ninguém quis porque não dá lucro”,disse.

Faixas exclusivas

As autoridades da FEMATRO e Empresa Municipal de Transporte Público de Maputo entendem que a solução da falta de transporte de passageiros é a abertura de faixas exclusivas nas estradas que ligam os dois municípios. Para tal, referiram que submeteram uma proposta ao governo e ainda não tiveram resposta.

Os nossos entrevistados entendem que as faixas de circulação exclusivas vão flexibilizar o movimento dos carros de transporte de passageiro e, por conseguinte, permitir os utentes chegarem cedo aos seus destinos.

Segundo Castigo Nhamane, há dois anos os chapeiros faziam no máximo 50 minutos de Maputo para Matola mas, agora, por causa do congestionamento, percorrem a mesma distância em mais de duas horas.    

“Imagine quantas viagens desperdiçamos por causa do engarrafamento? Se tivessem aceite o nosso pedido, acho que as pessoas já estariam a chegar a tempo aos destinos”,disse.

Por sua vez, Lourenço Adriano, administrador do pelouro de Desenvolvimento de Negócios e Projectos, da Empresa Municipal de Transporte Rodoviário de Maputo, lembrou que há dois anos um autocarro daquela instituição fazia 16 viagens no intervalo entre as 4:00 horas da manhã às 23:00 horas. Actualmente, no mesmo intervalo de tempo, faz oito.

“Os carros que temos são suficientes para colmatar o problema que se faz sentir nas cidades de Maputo e Matola. O que temos sentido é que mesmo havendo um aumento do número de meios de transporte, o tempo de espera continuará a aumentar. Precisamos de resolver o problema da mobilidade do trânsito. Com as faixas exclusivas voltaríamos a fazer mais viagens e o tempo de espera seria mais curto”, disse.  

Mborala” veio para ficar

Convidado para falar sobre o cartão pré-pago “Mborala”, introduzido em Abril de 2013, Lourenço Adriano disse que o sistema veio para ficar, pois o objectivo é o de extinguir o pagamento manual e reduzir riscos de manuseio de “dinheiro vivo”.

O nosso entrevistado referiu que os resultados alcançados desde a introdução do “Mborala” são encorajadores visto que as metas traçadas estão sendo alcançadas.

Uma das apostas era abranger um número significativo dos carros da empresa com este tipo de serviço.

“Sabemos que é um desafio para a instituição, visto que somos a única empresa a usar o sistema”,disse.

A Empresa Municipal de Transporte Público de Maputo conta actualmente com 240 autocarros, destes cerca de 110 transportam passageiros todos os dias.

De recordar que em 2011 os TPM receberam do Governo 196 autocarros. De lá a esta parte zero.

“A frota é dinâmica e anualmente devíamos injectar 35 novos autocarros. Para este ano foram-nos prometido alguns autocarros”, disse Lourenço Adriano.

Novos autocarros

serão adquiridos este ano

A Empresa Municipal de Transportes Públicos de Maputo (EMTPM) está a desenvolverum trabalho de procurement visando a aquisição de um nova frota de autocarros para o presente ano.

Segundo referiu o presidente do Município de Maputo, David Simango, no decorrer da abertura dos trabalhos da II Sessão da Assembleia Municipal, a aquisição de novos autocarros enquadra-se no plano de actividades traçado para este ano.

Paralelamente ao processo com vista a aquisição daqueles meios circulantes, cujo número não especificou, prevê-se a compra de mais peças sobressalentes com vista à recuperação de parte significativa da frota que se encontra actualmente inoperacional.

No que diz respeito ao tão ambicioso projecto de construção de corredores exclusivos para o transporte público, denominado BRT, Simango disse que decorrem trabalhos preparatórios para a elaboração do projecto executivo e do respectivo estudo de impacto ambiental.

Simango acrescentou que, no tocante ao projecto de metro Maputo-Matola, já se encontra no terreno, desde Fevereiro passado, uma empresa que está a trabalhar na elaboração do estudo de impacto ambiental, e deverá, ainda no corrente mês de Abril, elaborar o respectivo projecto de engenharia.

“Estamos convictos que, apesar de complexos e sérios os problemas de transporte público urbano na nossa cidade, as soluções em curso vão, seguramente, contribuir para a resolução a curto, médio e longo prazo”, explicou.

Abibo Selemane

habsulei@gmail.com

 

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