Sociedade

Céus de Xai-Xai sem aviões

O Aeroclube de Gaza está moribundo. A transferência de duas avionetas da agremiação para a Sabinair e a tomada das instalações do aeródromo pelo Conselho Municipal de Xai-Xai ditou a paralisação da instrução de pilotos particulares e do desenvolvimento da prática desportiva aeronáutica em Gaza.

Segundo nos conta Álvaro Garrine, piloto, sócio do Aeroclube e instrutor de pilotagem desde 1976, “o aeroclube deve ter nascido na década 60 como uma associação particular composta por entidades colectivas e singulares”.

Nessa altura, a agremiação dedicava-se à instrução de pilotos particulares, prática desportiva aeronáutica e a sua participação regular em concursos de aviação privada em outros pontos do país, enfocando, com particular destaque,  Inhambane e cidade de Maputo.

Garrine diz, por exemplo, que em 1981 teve a ocasião de participar num concurso de aterragem de precisão e num outro de lançamento para alvos fixos a partir do avião.

Nos seus primeiros anos de existência, o Aeroclube de Gaza possuía apenas aviões com asas cobertas de tela. Todavia, com a evolução da aeronáutica privada de aparelhos mono motores, adquiriu-se, mais tarde, outro tipo de aviões modernos, com asas metálicas, neste caso, de alumínio, tidos como favoráveis para o efeito.

Em 1974, antes da conquista da independência nacional, o Aeroclube de Gaza teve a iniciativa de comprar dois aviões também distintos quanto à sua configuração.

Ambos aparelhos eram de marca “Grumman”, sendo um de dois lugares para instrução e formação de pilotos particulares e o outro de quatro lugares que servia para viagens.

Sabe-se, entretanto, que a aeronave de quatro lugares foi muito útil para o transporte de pessoas e bens de Gaza para qualquer ponto do país sob pilotagem de Mansuklal Lalji, outro piloto, então colega de Garrine.

Entretanto, segundo Garrine, por volta dos anos 1983 a 1984 os aviões do aeroclube de Gaza passaram para a tutela da transportadora aérea privada designada Sabinair.

Dados apurados pelo domingo indicam que se tratava duma empresa de aviação ligeira moçambicana registada a 1 de Janeiro de 1991 como uma “Sociedade Privada”.

Foi esta mesma Sabinair que, por algum tempo, fez uso, a título de aluguer, de parte das instalações do antigo aeródromo de Xai-Xai, no bairro Fenicelene, instalações geridas pelo Aeroclube de Gaza.

SUMIÇO DOS AVIÕES

O domingo abordou várias fontes que testemunharam a transferência dos aviões na década 80, as quais, indicam que foi determinante para aquela decisão o facto de as aeronaves não estarem a ser utilizadas.

Por isso se chegou a conclusão de que se devia alugar à Sabinair que, por sinal, tinha uma escola de instrução e formação de pilotos. O contrato foi rubricado entre as partes, recebendo o clube valores monetários regularmente.  

As nossas fontes contaram que existia uma conta bancária do Aeroclube na qual se depositava os fundos resultantes do aluguer das aeronaves e de parte das instalações do aeródromo, também alugadas à Sabinair.

Porém, “com o andar do tempo, e com o advento de novas tecnologias, as características de uso deste tipo de aeronaves para efeitos de instrução e formação de pilotos foram-se desqualificando”.

Parte dos associados não concordou com o contrato celebrado, tendo submetido um abaixo-assinado à direcção do aeroclube.  

Face a isso, a direcção cessante, por sua vez, fez a entrega de todo o “dossier” à actual direcção do aeroclube. “Perguntamos se nunca se admitiu a possibilidade de devolução das aeronaves, e as nossas fontes responderam negativamente”, disse o nosso interlocutor, acrescentando que nunca houve preocupação de reaver as aeronaves porque não existia necessidade para tal.

Sobre a transferência dos aviões, Álvaro Garrine diz que “do que sei, como associado, piloto e instrutor, a transferência das aeronaves não foi consensual entre os associados”.

Na sua óptica, “tudo foi por ordem do Governo da província de Gaza que tinha como supervisor um delegado”. Para ele, o processo de transferência das aeronaves nunca foi claro “porque nunca soubemos do acordado. Por alto, soubemos que os aviões serviam de instrução aos pilotos da Sabinair, mas, como associados, nunca tivemos informação formal”, diz Garrine, acrescentando que “nunca se disse nada publicamente sobre a reversão dos benefícios do aluguer a favor dos associados”.

AVIÕES INOPERACIONAIS

Ao que domingo apurou dos nossos intervenientes (Álvaro Garrine e Mansuklal Lalji) o “Grumman” , de quatro lugares, acidentou algures em Maputo sem que se fornecesse mais detalhes sobre a ocorrência. A outra aeronave, mais pequena, se encontra parqueada nos hangares da empresa Transportes de Trabalho Aéreo (TTA) por ter ultrapassado excessivamente as horas normais de voo.

Lalji recorda-se de ter comandado muitos voos comerciais com a aeronave de quatro lugares, em prestação de serviços para a organização Netherlands Organization for Development Cooperation (NOVIB), uma instituição não-governamental que actuava nas áreas de cooperação internacional, desenvolvimento sustentável e protecção dos direitos humanos.

“Houve uma altura que a NOVIB ajudou na compra dos dois motores dos aviões que serviram até à altura em que se recolheu para Maputo, alegando-se que os aviões nada faziam em Gaza”,afirmouMansuklal Lalji, actualmente vice-presidente do Aeroclube de Gaza.

Mesmo assim, afirma que “há uns dois ou três anos recebera uma mensagem referindo a disponibilidade de devolução do avião ora acidentado”.

QUE SOLUÇÕES?

Apesar de versões divergentes, fontes contactadas pelo domingo referem que o importante é “reunificar-se a família dos associados e reactivar-se o aeroclube”.

Álvaro Garrine defende que provavelmente a devolução dos aviões agora não fosse importante porque se um acidentou e o outro parou por muito tempo, ambos deixam muito a desejar.

Deixamos tudo a voar e é possível reagrupar os associados, tentando-se recuperar o perdido. É possível ressuscitar o aeroclube porque existem associados interessados”, afirma Mansuklal Lalji.

Sabe-se, entretanto, que o aeródromo já foi tomado pelo Conselho Municipal de Xai-Xai e as instalações albergam os bombeiros da edilidade provavelmente “por força de sua localização geográfica, o aeródromo acabou ficando tutelado pelo Município de Xai-Xai”, suspeita Garrine.

Seja como for, o Aeroclube de Gaza já não existe em Xai-Xai. O aeródromo também já não existe, estando literalmente coberto de capim. As avionetas só podem aterrar em Chibuto ou na Praia de Bilene, locais tidos como mais próximos de Xai-Xai.

Artur Saute

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