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CATADORES DE MAHLAMPSENE: O lado penoso de uma profissão

Por admin

Toneladas e toneladas de resíduos de diferentes origens depositados na lixeira de Mahlampsene servem de cenapara a dura rotina de cidadãos que encontram neste acumulado a fonte para a sua sobrevivência. Trata-se de um ambiente monocromático, onde se desenvolve um trabalho de partir o corpo e a alma: “ninguém faria por prazer”, disse-nos Ermelinda Ernesto, uma cidadã que, diariamente, tira dali o dinheiro para colocar o pão à sua mesa. 

Encontrámo-la com os seus companheiros de jornada na lixeira, onde confluem todas as manhãs e lançam-se na procura por objectos de alguma valia para venda.

 “Os chineses é que compram” a um preço que, segundo afirmaram, não contenta. A verdade é que o esforço ali empreendido fica refém de uma balança que marca um peso, multiplicado por “meros” 7 meticais por quilograma, o máximo, seja de restos de objectos de plásticos ou de sacos do mesmo material, seja de ferro, vidros ou ainda de latas de refrigerantes, entre outros.

TRABALHO DIFÍCIL

BAIXA REMUNERAÇÃO

Revirar o lixo em busca de algo negociável é considerado, por quem o faz ou presencia, uma actividade somente para quem tem  fígado. “É duro, nenhum de nós gosta de estar aqui”. Foi desta forma que Ermelinda Ernesto, de 65 anos de idade, iniciou o seu testemunho, em torno de um trabalho que vem desenvolvendo há 11 anos, quando resolveu deixar para trás a sua terra natal, Homoíne, província de Inhambane, rumo à capital do país, Maputo, à procura de melhores condições de vida.

Mãe de três filhos, desamparada, “não tenho marido e os meus filhos não me ajudam”, Ermelinda remói-se não somente pelo descaso dos seus próprios familiares, mas, sobretudo, por estar refém da vontade do comprador quando chega o momento de marcar o preço pelo trabalho que faz: “vasculho lixo à procura de ferro, lata… suporto o mau cheiro, corro risco de vida, encontro objectos cortantes que me rasgam as mãos, pela falta de equipamentos como luvas e máscaras, e na hora de me pagarem pelo que faço, o chinês dá uma quantia baixa”.

Por dia, tira “quase nada”, de acordo com os seus pronunciamentos. Nos piores momentos, conforme revelou, chega a voltar para casa sem um tostão amarrado na ponta da sua capulana.

Ao perguntarmos sobre o seu rendimento mensal, afirmou que não tem passado dos 1500 meticais. Contudo, é com esse valor que “cuido do meu neto órfão de pais, compro material escolar e comida. Conforme vê, é muito pouco, e, acima de tudo, não paga o sacrifício que faço”, anotou.JÁ ENCONTREI FETOS

 

A nossa reportagem conversou com outra cidadã que, à semelhança de Ermelinda, tira da lixeira o dinheiro para a sua subsistência.

Laura Langa, de 50 anos, casada, mãe de 5 filhos, entrega-se desapaixonadamente a este trabalho “há vários anos”, para tomar conta do seu lar que depende, unicamente, do seu suor. “Por dia, saio daqui com 100 até 200 meticais. É desagradável, mas não tenho outra alternativa, o meu marido está desempregado, sou obrigada a passar a vida neste lugar: trabalho, cozinho, passo as refeições… o que não é nada doce”, observou.

A dado momento da sua vida, de acordo com as suas declarações, trabalhou como agricultora. Para a sua infelicidade, “o Governo tirou-me as terras em Beluluane e estimulou a minha desgraça”. A solução para os seus problemas financeiros passa agora por vasculhar um interminável mundo de resíduos sólidos à procura, preferencialmente, de ferro.

Entretanto, a referida busca fê-la passar por situações desoladoras, quando, por duas vezes, “encontrei fetos dentro de sacos de plástico jogados aqui na lixeira”. Nessas circunstâncias, a sua maturidade permitiu que não se alarmasse. Pelo contrário, “chamei pelo fiscal, que seguiu os trâmites legais para a retirada desses restos mortais e encaminhamento correcto”.

PEDIDO DE SOCORRO

Máscaras, botas, luvas e outros acessórios de protecção precisa-se. Este foi o apelo lançado, através da nossa reportagem, pelos cidadãos que buscam o seu sustento na lixeira de Mahlampsene.

Actualmente, o trabalho é realizado de maneira improvisada. A protecção das vias respiratórias é feita enrolando um pano ao rosto. Já as mãos, que realizam o trabalho de vasculha e busca, ficam expostas ao perigo. “Já nos cortamos várias vezes, fora o cheiro forte que inalamos por falta de máscaras”, referiram.

Os pedidos têm um destinatário definido: “pedimos a ajuda do Governo, pois nos sentimos desamparados”, gritou Laura Langa; “quando a chuva escasseia, sentimo-nos mal por causa do excesso de poeira. Queremos que façam algo por nós, precisamos de equipamento para nos protegermos”, disse, por seu turno, Ermelinda Ernesto.

Por enquanto, contam com algum conforto oferecido em nome da religião. No momento da realização deste trabalho de reportagem presenciámos um curto espaço de cânticos e orações, proporcionado por missionários de nacionalidade brasileira, membros de uma igreja evangélica.

Em conversa com o domingo, Carlos Henriques, membro da congregação, deu a conhecer que o convívio acontece todas as quintas-feiras, sendo que se trata de uma aproximação“para que eles (os trabalhadores da lixeira)não se sintam esquecidos e marginalizados, tendo em conta o preconceito que os rodeia por se dedicarem a esta actividade”. São momentos de puro alívio, em que “cantam, dançam choram…”, afirmou.

Menores largam
a escola e alinham na lida
Helena Afonso e Cesário Puxir, adolescentes de 16 anos, também tomaram a decisão de ganhar dinheiro recolhendo da lixeira objectos recicláveis.

 

Helena é órfã de pais e vive na Matola-Rio com os seus irmãos. Abandonou a escola quando frequentava a 6.ª classe. Actualmente, dedica-se à recolha de restos de objectos feitos de plásticos: “procuro bacias, cadeiras…”. A finalidade é a comercialização. Conforme disse, chega a ganhar de 100 a 300 meticais por dia, direccionados para compra de comida, roupa e pagamento das despesas de casa.

Já o outro adolescente, Cesário, residente em Beluluane com a sua mãe e irmãos, cumpre jornadas diárias de procura por material descartado para garantir a compra de roupa e satisfazer outras das suas vontades. Contrariamente à sua colega, vê-se obrigado a driblar a sua progenitora para se fazer presente na lixeira de Mahlampsene a partir das 7.00 horas da manhã. “A minha mãe nunca permitiu que eu viesse para aqui. Ela quer que eu estude, nem sequer sabe que parei de ir à escola para ganhar dinheiro. Por dia consigo tirar de 50 a 200 meticais”, declarou.

Estes são exemplos de crianças que compõem um universo de várias, que penhoram o seu futuro para conseguirem satisfazer as suas necessidades imediatas.

Ao acompanhar essas movimentações, domingovem constatando que a lixeira de Mahlampsene e a de Hulene servem, inclusive, de albergue para alguns menores de idade, que ali se mantêm em condições deploráveis e espalham algum pavor em quem deles se aproxima, um facto reforçado pelas fontes que conversaram com o nosso jornal.

RAPAZES VIOLENTOS MARCAM O SEU ESPAÇO

Se trabalhar na lixeira sem o mínimo de condições de segurança sanitária já se mostra um exercício espinhoso, este facto é agravado pelas disputas pelo melhor, em matéria de lixo arrecadado, a que estão submetidos os que praticam esta actividade.

A nossa reportagem testemunhou um desses momentos, que ocorre entre assobios, gincanas e emissão de palavras ofensivas ou obscenas, como se de grito de guerra se tratasse, de minutos a minuto, à medida que os camiões acedem ao local para o descarte do lixo.

Trata-se de crianças que, conforme afirmaram as nossas fontes, marcam território aos pontapés e solavancos, em uma verdadeira caça por objectos de melhor valor. “Disputamos espaço com ‘bandidos’. Eles posicionam-se à entrada da lixeira, precisamente para nos impedirem de recolher algo que nos possa dar um dinheirinho razoável ou seja útil nas nossas casas”.

Em uma verdadeira batalha, conforme deixaram a atender, “chegam a empurrar-nos para que não tenhamos acesso a esses objectos. E quando por alguma sorte os temos em nossa posse, fazem questão de nos arrancar”, denunciaram. 

Texto de Carol Banze
carol.banze@snoticicas.co.mz

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