Sociedade

Autoridades desactivam centro de acomodação de Chiaquelane

Chiaquelane despontou do anonimato quando a partir do dia 22 de Janeiro passado acolheu milhares de cidadãos que fugiram da fúria das águas que invadiram a cidade de Chókwé, em Gaza. Por lá

passou todo tipo de gente a prestar apoio e solidariedade. Pouco mais de um mês depois, as autoridades estão a atribuir talhões para que as populações tenham duas casa, uma na zona alta para viver e outra, na baixa, para a produção. domingo foi ouvir as adversidades daquela população que dorme na tenda e usa latrina.

Chiaquelane, local onde milhares de pessoas encontraram abrigo na sequência das cheias que afectaram fundamentalmente o distrito de Chókwè, vai, formalmente, encerrar as “portas”. O processo de desactivação começou ontem embora ainda haja muitas pessoas – sobretudo aquelas que ficaram sem as suas casas, devoradas pelas cheias. O encerramento de Chiaquelane deverá estar concluído numa semana.

 

A decisão resulta do facto de, em quase toda a região afectada pelas cheias, haver já condições mínimas para trabalhos de limpeza e/ou reabilitação das infra-estruturas afectadas pelas enxurradas.

O administrador de Chókwè, Alberto Libombo, referiu que a decisão não abrange aquelas pessoas que perderam completamente as casas e continuam a necessitar de assistência. Para estas, segundo as autoridades, irão continuar a receber apoios até à próxima colheita.

 

“Para tal, iniciámos igualmente com o fornecimento de sementes para sementeira, porque a experiência mostra que em Chókwé, depois da tempestade vem a bonança e, nas machambas, se espera boas colheitas para as próximas sementeiras”, explicou Libombo.

No que toca aos reassentamentos, Libombo anotou que na primeira fase está prevista a distribuição de cinco mil talhões na zona de Chiaquelane, numa média de 100 por dia, sendo 20 pessoas por bairro, num total de 47 bairros de Chókwe, Lionde, Massavasse, Nwachicoluane, Kotsuane, Conhane e Gajane.

 

Libombo sublinhou ainda que a desactivação do centro não representa o fim da distribuição de terrenos que continuará mediante um aviso prévio, mesmo que as pessoas estejam Chókwe.

 

Tendo em conta que o processo de distribuição de terrenos mostra-se moroso, pois os responsáveis não conseguem alcançar a meta diária de 100 talhões por dia, apesar de se falar de 1000 terrenos já parcelados e 700 entregues, a realidade mostra um cenário diferente do referido pelas autoridades que garantem terem entregue pouco mais de 250 talhões.

 

A esse propósito, Libombo disse que a metodologia de trabalho foi confiada às lideranças comunitárias, porque elas é que conhecem os residentes dos bairros, cabendo à autoridade distrital e municipal fazer a verificação para se apurar as pessoas prioritárias. Aquelas que ficaram sem casas, já receberam terrenos para habitação.

 

HÁ VIDA…

ENQUANTO SE ESPERA

Trinta e cinco dias depois desde que os distritos de Chókwe, Lionde, Guijá e Chibuto foram assolados pelas inundações, Chiaquelane tornou-se uma referência na vida de mais de 60 mil pessoas que ficaram privadas dos seus bens e das suas residências.

 

Trata-se de gente que deixou para trás casas de alvenaria, bens matérias consideráveis, actividade agrícola de encher o olho. Outros, não poucos, viram as suas palhotas e casas maticadas completamente destruídas e arrastadas pela fúria das águas.

         

A vida tornou-se um misto de dor e esperança; dor por ter perdido quase tudo e agora a esperança de recomeçar uma nova vida. Mas também é visível o sorriso nas pessoas de Chiaquelane, porque mantém o bem mais precioso… a vida. Noé Chongo é um exemplo flagrante desta realidade. Deixou para trás uma casa tipo três em Nwachicoluane, três hectares de tomate e milho, um de pepino e oito de arroz que deviam ser ceifados este mês, Março. Tudo perdido. Incluindo um viveiro acabado de comprar. Pior: ele não sabe se terá algum tipo de apoio por parte das autoridades para retornar à sua actividade.

 

Agora a vida resume-se a uma refeição diária à base de arroz e feijão nhemba, noites na tenda de um descampado e uma latrina improvisada. Encontrámo-lo na companhia da sua esposa, Amélia Suto, numa cavaqueira animada que disfarçava a dor profunda que ambos sentem. “Vivemos de feijão manteiga”, disse Amélia Suto. “A nossa vida é esta, que estão a ver, e que nas últimas duas semanas ganhou outro sentido, quando voltámos para iniciar com a limpeza da casa. Também recebemos um talhão aqui nesta zona alta para passarmos a residir quando houver cheias”, contou Chongo.

Amélia Suto apanha lenha no mato para cozinhar, tira água do fontanário. Tem duas panelas, dois pratos e dois copos. “Enfim, podemos dizer que não estamos na cadeia, porque estamos livres. O importante era arranjar um sítio para esconder a cabeça”, concluiu Amélia Suto.  

 

Viver com suas esposas

Benjamim Macuácua é auxiliar de Estação nos Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM) e tem duas esposas com as quais partilha a mesma tenda com os filhos.

No dia 21 de Janeiro, um domingo, recebeu a comunicação de que deviam sair por causa das inundações, mas à boa maneira moçambicana foi gerindo a situação até à última hora, pois se fazia referência a Mapai, a caminho de Chókwè. Conta que não era uma informação consistente e oficial. Diziam, segundo ele, que a água estava a derrubar árvores e arrastar tudo o que encontrava pela frente. E na noite da segunda-feira começou a chegar à cidade de Chókwe. Foi aí que ganharam consciência do perigo.

Na mesma noite, Macuácua retirou a família, duas esposas, sua mãe e tia, quatros filhos, noras e netos. Foi deixá-los em Chiaquelane, segundo orientações das autoridades distritais. Depois, na companhia de dois filhos e seu irmão ensaiaram um regresso a Chókwè para resgatar alguns bens, mas foi em vão, porque a casa deles se localiza numa zona baixa e água já estava acima do joelho. No intervalo das seis às nove horas Chókwè ficou submerso.

 

Dez pratos, outros tantos talhares, algumas peças de roupa e de cama molhadas nas mãos era tudo o que tinham para reiniciar uma nova vida debaixo de um frondoso cajueiro.

“Em Chiaquelane vivemos à maneira. Agora só penso em arranjar um talhão para construir uma casa definitiva.Garanto que vou mudar definitivamente para Chiaquelane, mas devido a questões profissionais irei manter uma casa em Chókwè”, assegurou Macuácua.

 

Por enquanto recebem comida do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC), dada na base de um inquérito sobre o agregado familiar, cabendo à família Macuácua 25 quilogramas de arroz ou milho, cinco de feijão nhemba e sal para um período de duas semanas.

O perigo de Chiaquelane não é os mosquitos, mas sim moscas que parecem uma verdadeira praga. As moscas são tantas e só dão tréguas à noite. 

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