Reportagem

Vale de lágrimas na bacia do Licungo

Texto de Bento Venâncio e Fotos de Inácio Pereira

Vale de lágrimas na bacia do Licungo. Grande parte das sessenta e quatro perdas humanas na Zambézia registaram-se aqui. Este é o balanço preliminar das autoridades, pairando no ar o receio de que mais corpos sejam localizados nos próximos dias.

Autoridades anunciaram a morte de 64 pessoas desde que as cheias bateram à porta da bacia do Licungo. Deste universo, 42 foram arrastadas pela fúria das águas e afogadas 22.

Ainda na senda das mortes, seis compatriotas foram vítimas de aluimento de terra, um não escapou a descargas eléctricas e 15 faleceram em consequência de desabamento de casas.

Os distritos de Milange , Morrumbala , Ile e Gurué foram os que mais perdas humanas registaram. “Muitas pessoas perderam a vida tentando atravessar o rio”, explica Carmelita Namashulua, Ministra da Administracao Estatal e da Função Pública.

Para além de vítimas mortais, a hecatombe na Zambézia pode ser ilustrada pelos seguintes números: 44 feridos, 24.278 famílias afectadas, 5.319 casas totalmente destruídas, 378 salas de aula destruídas e 6 centros de saúde destruídos.

O Governo tem o receio de a tragédia ter assumido proporções mais gigantescas, uma vez que a Unidade Nacional de Protecção Civil (UNAPROC) tem recolhido corpos à medida que o caudal do rio vai reduzindo nos últimos dias.  

Carmelita Namashulua sublinha que neste momento a grande prioridade é mesmo salvar pessoas para colocá-las em lugar seguro. A governante refere que o rio Licungo subiu muito, criando uma situação sui generis.“E as pessoas foram encontradas desprevenidas”, ressalva.

ACTIVADOS 176 COMITÉS DE RISCO

Em consequência da hecatombe, foram activados os 178 Comités Locais de Gestão de Risco de Calamidades ao nível da província da Zambézia.

Segundo a Ministra da Administração Estatal e da Função Pública, presentemente existem 49 centros de acomodação na província acolhendo mais de 50 mil pessoas em situação de extrema vulnerabilidade.

Apesar do visível esforço do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC) e parceiros, há défice de alimentos para assistência a milhares de cidadãos afectados pelas inundações, daí se apelando à solidariedade nacional e internacional.

Porque grande parte dos distritos se encontram sitiados (ler reportagem), a distribuição de víveres vem sendo garantida por meios aéreos. Entretanto, a força aérea sul-africana terminou a sua missão no passado dia 23 de Janeiro.

Para além da assistência alimentar em kits básicos, as autoridades têm feito de tudo para promoção de higiene básica nos 49 centros de acomodação criados.

Médicos e enfermeiros prestam assistência médica e medicamentosa aos reassentados e parceiros do Governo (Visão Mundial, ADRA, Cruz Vermelha de Moçambique) desdobram-se em acções que visam o abastecimento de água potavel. O INGC tem camiões-cisternas que fornecem este precioso liquido.

Para evitar a eclosão do surto de diarreias, estão sendo abertas latrinas melhoradas nos centros de acomodação e bairros de reassentamento.

Segundo a administração de Mocuba, 836 famílias já foram reassentadas nestas condições. “Ainda estamos a reassentar”, garantiu a administradora local.

Para prevenção da malária, mais de mil redes mosquiteiras (1.336) foram distribuídas nos centros de acomodação de Mocuba. Em paralelo, foram instalados postos de socorro com técnicos de saúde e activistas da Cruz Vermelha de Moçambique.

Crianças dos zero aos 5 anos recebem vacinas mesmo nos centros de acomodação. Recebem alimentação gratuita constituída por leite e papinhas enriquecidas.

Foi desta forma que a pequena Zaina, nascida a 5 de Dezembro, recebeu a sua primeira vacina.

CENÁRIO DANTESCO

A nossa Reportagem viu milhares de concidadãos vivendo em condições deploráveis nos centros de acomodação em Mocuba.

Trata-se de vítimas na sua maioria evacuadas no vizinho distrito de Lugela que perderam tudo.

Nos centros de acomodação vão chegando mais vítimas à medida que o tempo passa, recebendo os chamados kits de abrigo, constituídos por tenda que abriga, por vezes, mais de cinco pessoas. É o caso de Flávia Manuel.

Domingas Eliseu é uma das vítimas que conversou com nossa equipa de Reportagem. Disse que perdeu tudo: casa, panelas, roupa. No centro de acomodação está a começar a vida do zero.

Diz ter recebido apoio em duas mantas, insuficientes para o seu agregado de cinco pessoas.

Proveniente do bairro Saca, conta-nos que as chuvas foram violentas demais. Destruíram habitações, infra-estruturas. “O sítio que tinha casa já não posso reconhecer”, referiu.

Odete Avelino, outra vítima, viu a sua casa a ficar submersa algures no bairro Baixo Lugela. “A minha pobreza aumentou e vai custar reerguer-me”, disse lacrimejando.

Primeiro Ministro

visita centros de acomodação

O Primeiro Ministro, Carlos Agostinho do Rosário, visitou sexta-feira última alguns centros de acomodação nos distritos de Mocuba e Namacurra para transmitir a solidariedade do Governo para com as vitimas das cheias.

Carlos Agostinho do Rosário, que se fazia acompanhar pelos Ministros da Saúde e das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos, disse à população que as águas estão a baixar, não obstante manter-se o nível de alerta face à ocorrência de chuvas em algumas regiões da província e a montante.

Sublinhou que o Chefe de Estado, que o instruiu a fazer a visita, ordenou para que o Governo fizesse o levantamento dos danos para alocar recursos.

Frisou que enquanto isso não acontece, é importante continuar com o reassentamento da população, uma acção que, segundo suas palavras, precede a demarcação e distribuição de talhões definitivos em Maganja da Costa, Mocuba, Namacurra e Nicoadala.

Segundo ainda o governante, os novos talhões, incluem compensação de áreas agrícolas perdidas.

Carlos Agostinho do Rosário admitiu que o Governo está perante o permanente desafio de garantir a permanência das populações nas zonas seguras.

Falando de infra-estruturas destruídas sublinhou que está em curso o levantamento de danos causados para se iniciar com acções de recuperação.

O sofrimento trazido pela queda da ponte

A destruição da ponte sobre o rio Licungo configura a imagem mais visível da violência trazida pelas cheias na Zambézia.

Um corte gigantesco é visível na Estrada Nacional Numero Um (EN1), sobrando troco diminuto do tabuleiro da ponte. Mocuba representa, assim, o marco de isolamento do Norte e o resto do país.

Milhares de pessoas concentram-se nas duas margens isoladas aguardando o transporte em pequenas embarcações para poderem seguir viagem.

Refira-se que a ponte sobre o Licungo foi construída em plena segunda guerra mundial, em 1944. Tem uma altura próxima dos 15 metros e já aguentou com impacto de cheias violentas de 1970.

“As cheias deste ano foram mais violentas. Das mais violentas dos últimos 20 anos”, disse o general Nazário Zandamela, comandante nacional da UNAPROC.

O general Zandamela controla de perto o trabalho de 15 militares das FADM que asseguram a travessia das populações em pequenas embarcações.

Com quatro embarcações, eles transportam três mil pessoas por dia e seis toneladas de carga.

Com a entrada de mais duas embarcações (uma da Visão Mundial e outra do próprio INGC) passaram a ser transportadas cinco mil pessoas por dia e 10 toneladas de carga.

TANTA DESTRUICAO EM QUINZE DIAS

Em apenas 15 dias, Zambézia perdeu 57 pontes que asseguram ligação rodoviária entre diferentes distritos. A província enfrenta deste modo um vistoso retrocesso no desenvolvimento da sua rede viária, deitando por terra avultados investimentos realizados desde o primeiro mandato do presidente Chissano.

Os distritos que mais pontes perderam são: Ile (9), Molumbo (11) e Namarrói (11). Os distritos de Derre, Ile, Lugela, Maganja da Costa, Milange, Mopeia, Morrumbala e Nicoadala estão com os acessos isolados.

O Governo admite dificuldades na criação de vias alternativas, pois as chuvas continuam a cair e os solos encontram-se saturados.

Em conversa com a nossa Reportagem, disseram-nos que a espera pela travessia por vezes leva dias. Alguns viajantes estão doentes e buscam o hospital mais próximo. Outros perdem cerimónias fúnebres.

“Venho do distrito de Ile e vou a Sofala. Vim cá buscar duas crianças que perderam familiares. Estou à espera de atravessar há quatro dias. As minhas férias acabaram e tenho receio de perder emprego”, conta-nos Vasco Sebastião, visivelmente desolado.

Já Joana Manuel diz que espera pela travessia há uma semana, tendo perdido a esperança de participar numa cerimónia fúnebre.

Deolinda Alfredo conta-nos que vem de Ile. Está na margem há três dias sem comida nem água. A criança que ela traz ao colo testemunha o sofrimento e chora.

As evacuações entre as duas margens cortadas pela ponte começam das 6 e só terminam às 18 horas. Cada embarcação transporta 12 pessoas.

Para além de transportar pessoas, as pequenas embarcações levam consigo carga diversa, incluindo geradores destinados a carga de equipamentos de empresas de telefonia móvel.

Refira-se que em consequência de cortes registados noutros distritos, o INGC alocou meios fluviais, nomeadamente, quatro em Namacurra, duas na Maganja da Costa, dois em Nicoadala, seis em Mocuba e dois em Morrumbala.

AINDA NÃO HÁ PRAZOS PARA REPOSIÇÃO DE INFRA-ESTRUTURAS

No terreno, decorrem obras que visam a reposição da ponte sobre o rio Licungo. A obra foi adjudicada à Mota Engil, contudo ainda não há prazo para finalização dos trabalhos.

Outra ponte com ameaça de corte é a de Lugela, recentemente erguida sobre o rio com o mesmo nome. A erosão tomou conta de infra-estruturas rodoviárias em Lugela em consequência das inundações.

A ponte local já esteve assoreada. Fruto do trabalho de limpeza e de pequenas obras de manutenção continua a evitar o isolamento do distrito de Lugela.

Fornecimento de energia será normalizado

O fornecimento de energia à chamada Alta Zambézia, incluindo províncias do Norte do pais, será normalizado até dia 30 do corrente.

A garantia foi dada pela Ministra da Administracao Estatal e da Função Pública, Carmelita Namashulua, que ressalvou existirem já diversas equipas da EDM que trabalham para reposição de torres destruídas pelas chuvas.

Gildo Sibumbe, PCA da EDM, disse ao domingo que o que está a atrasar a finalização das obras é a dificuldade de transporte de material para uma zona que dista 15 quilómetros.

Referiu que tal dificuldade poderá ser ultrapassada porque a congénere sul-africana ESKOM disponibilizou um helicóptero.

“Vamos restabelecer o fornecimento de energia o mais breve possível”, reiterou o PCA da EDM, sublinhando que os prejuízos resultantes da queda das torres que abastecem o norte do país ascendem os três milhões de dólares.

Texto de Bento Venâncio

Fotos de Inácio Pereira

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