Reportagem

Sou uma mulher de desafios

Texto de André jonas

Cabo Delgado é uma província que ocupa um lugar especial no imaginário moçambicano. Foi lá onde começou a epopeia que culminaria com a Independência Nacional em 1975. Celmira Pena da Silva, é a primeira mulher a desempenhar o papel de Governadora na província que detêm uma das maiores baías do mundo. Nas páginas que se seguem se retrata como mulher de desafios.

Quem é a nova governadora de Cabo Delgado?

Sou Celmira Frederico Pena da Silva. Sou natural da Beira. Cresci no bairro da Manga e fiz os estudos primários na Escola Primária 1º de Maio. Depois passei para a Escola Primária Maguiguana lá na Manga.

Mais tarde fiz o ensino secundário na Escola Secundária da Manga antes de frequentar o liceu na Escola Pré-Universitária Samora Moisés Machel na Beira.

E o ensino superior?

Fiz o curso de Linguística na Universidade Eduardo Mondlane.

O que fez depois do curso de Linguística?

Fui trabalhar no Ministério da Juventude e Desportos, concretamente na área dos assuntos da juventude.

Mais tarde, como trabalhadora, fui fazer mestrado, em Lisboa, Portugal, em Desenvolvimento Social e Económico em África, antes de assumir as funções de directora nacional de Estudos e Projectos no Ministério da Juventude e Desportos, onde fui porta-voz durante alguns anos.

Dentro do Ministério da Juventude e Desportos, trabalhei directamente ligada a vários projectos com doadores. Fui, durante alguns anos, directora do programa Geração Biz…

Certamente que acumulou muita experiência…

Sim. A minha exposição, diria, aos assuntos de programas e projectos fez com que tivesse certa solidez de trabalho nessas áreas, sobretudo quando falamos sobre análises de números, dados e projecções.

Onde passou a sua infância?

Como disse, nasci na Beira e cresci na Manga. Sempre fui, em termos de estudos, aluna dedicada. Somos sete irmãos. Sou órfã de pai, um cidadão que era funcionário bancário. Minha mãe foi funcionária da LAM desde os tempos da DETA.

Quando a minha mãe começou a trabalhar na DETA eu tinha apenas três anos de idade. Como devem depreender a minha infância foi de muitas viagens, por causa das regalias contratuais do serviço da minha mãe…

Lembra-se de algum episódio que marcou a sua infância?

Sim. O sacrifício que fazia para continuar a ser aluna dedicada. Percorria longas distâncias a pé para chegar à escola. Nós morávamos na Manga para estudar na Beira. São mais de 10 quilómetros. Saiamos de casa sem saber como íamos chegar à escola…

A INFÂNCIA E A GUERRA

Não tinha medo de percorrer grandes distâncias sozinha?

Tinha, sim. Principalmente durante a guerra dos 16 anos. Recordo-me de muitos momentos em que a minha mãe nunca dormia enquanto eu não chegasse.

Lembro-me duma vez em que os meus pais apanharam sono de tanto esperar. Cheguei e comecei a tocar campainha e ninguém abria a porta. E nessa altura, comecei a ouvir os bombardeamentos (era longe mas ouvia-se) e fiquei com uma aflição muito grande. Insisti e, com o barulho dos bombardeamentos, a minha mãe acabou acordando, mas muito aflita…

Essa vontade de aprender partia apenas de si?

Não. Partia de casa. Meus pais sempre incentivaram seus filhos a estudar. Por exemplo, quando fiz o 11º ano de escolaridade, tinha a possibilidade de ser admitida no Banco de Moçambique. O meu pai como trabalhava lá foi dizer a minha mãe que estava aberto um concurso para admitir jovens no banco. A resposta da minha mãe peremptória: não!

Ela disse na altura que com o recebia dava para libertar a filha para continuar a estudar. Dito e feito, fui fazer exames de admissão para ingresso na Universidade Eduardo Mondlane e passei. Eram cerca de quatro mil candidatos para 800 vagas…

Prover água e energiapara atrair investimentos

-sublinha Celmira da Silva

Chegou a Cabo Delgado, fez a prospecção e fez o seguinte diagnóstico: é fundamental prover água e energia à todos os cidadãos para atrair mais investimentos nacionais e internacionais e rumar ao desenvolvimento harmonioso e sustentável de uma das províncias com maior potencial em termos de recursos naturais, nomeadamente hídricos, gás, minérios e solos férteis para a prática da agricultura. Estamos a falar de Celmira Frederico Pena da Silva, uma mulher que Filipe Nyusi foi buscar no Ministério da Juventude e Desportos.

A nossa entrevistada de hoje é uma pessoa aberta à comunicação social, alegre e, sobretudo, comunicativa. Nesta entrevista aborda o sonho de tirar a província e sua gente da pobreza e dos projectos que permitirão a produção de mais comida e gerarão mais emprego.

 “Sem água e energia não há desenvolvimento, não há investimento”, sentencia.

Mas, oiçamos que seja ela, na primeira pessoa, a falar dos projectos que tem em carteira para tornar Cabo Delgado uma província com desenvolvimento notável.  

Qual é a sensação que tem de dirigir uma província considerada especial do ponto de vista histórico e político?

A sensação que tenho é de grande sentido de missão. Missão porque? Porque temos recursos no subsolo, temos desafios de desenvolver a província, mas também temos muitos desafios na área social. A indicação para um cargo destes é clara mensagem de responder às necessidades das populações, com a responsabilidade de se dar uma visão concreta sobre o desenvolvimento.

Todos temos que ter um entendimento sobre o que queremos para que possamos em conjunto caminhar para um único sentido com o povo… 

Chegou a Cabo Delgado e encontrou elenco governativo totalmente seleccionado pelo anterior Governo. Está satisfeita ?

Estou muito satisfeita, afortunada. Minha equipa é de pessoas muito experientes. Todos eles têm experiências anteriores de gestão a outros níveis e noutras províncias, o que é bastante rico para nós. Olhando para os administradores, todos eles passaram por mais de um distrito, e isso traz-nos a riqueza de pessoas maduras e com potencial para galvanizar as dinâmicas que nós pretendemos imprimir na nossa equipa desde o nível da província até ao distrital, postos administrativos, localidades e povoados. Devo dizer que neste aspecto estou muito feliz…

Cabo Delgado é uma província que tem sido alvo de interesses das multinacionais devido, principalmente, à descoberta de hidrocarbonetos. Tendo em conta que para a materialização dos projectos implica o reassentamento da população, como pretende gerir este delicado processo?

Os problemas são inerentes à nossa existência. Quando julgamos estar a resolver uma questão, que é justamente a colocação de investimentos daquela envergadura, encontramos desafios. E no caso da movimentação das populações ou reassentamento, devo dizer que estamos claros sobre o que pretendemos. A nossa filosofia de trabalho consiste em responder às necessidades das populações e sabemos que a necessidade das populações é compreender o que vai nortear a sua vida daqui para frente. No início da instalação dos projectos, é natural que as populações estejam preocupadas com o seu futuro.

 Neste processo qual deve ser o papel dos líderes comunitários?

Os líderes comunitários estão ali precisamente para facilitar a comunicação. Muitas vezes há problemas de incompreensão e conflitos quando os assuntos não tratados nos níveis adequados. Então surgem um pouco em temos de descrença do processo em si. É importante que, sempre, os líderes sejam envolvidos. E o nosso papel é este: envolver, esclarecer e, sobretudo, os benefícios que as populações vão ter para não criar conflitos e mal entendidos.

REABILITAÇÃO DE ESTRADAS

Duas estradas nos chamaram particular atenção pelo avançado estado de degradação. Referimo-nos aos troços de Ruace/Balama e Lúrio/Metoro, na província de Cabo Delgado. Existe algum plano imediato para inverter a situação?

Como sabe, os projectos de estradas principais são de nível central. Ao nível da província, nós temos que responder por outro tipo de estradas e projectos de vias de comunicação. Devo garantir que uma atenção especial é dada a essas estradas.

Sabemos que elas são o caminho para o desenvolvimento quando falamos em comercialização, circulação de pessoas e bens. Elas são as vias por onde passa a comida, maquinaria e tudo o resto para alimentar o desenvolvimento…

Insisto: como resolver o problema da estrada Ruace/Balama que apresenta sinais de total intransitabilidade?

Como disse anteriormente, as estradas nacionais são da responsabilidade do Governo central e não da província. Estamos atentos ao problema. Muito recentemente estivemos reunidos, juntamente com responsáveis da Administração Nacional de Estradas (ANE) ao nível da província e administradores para discutir o tipo de arranjos que cada governo distrital poderá fazer.

Nós temos um comando de que é preciso notificar a ANE, porque existe especificações e padrão da qualidade, que é preciso imprimir nas estradas. E entre as estradas mencionadas a EN14 está dentro das nossas prioridades.

“É FUNDAMENTAL A REPOSIÇÃO

DE ESPÉCIES FLORESTAIS”

Circulam informações de que há um reconhecimento tácito de que a reposição das espécies florestais não é proporcional aos recursos explorados. Que esforços estão sendo empreendidos para imprimir um novo plano de reflorestamento na província?

Temos claramente a ideia das áreas que estão a ser concedidas para exploração e quais são as áreas de reserva. Temos indicações claras de que tem havido, nalguns casos, violação das áreas de reserva. Esta situação merece a nossa atenção de tal forma que nós redobramos a vigilância, sobretudo nas zonas de conservação.

Tem que haver obrigatoriedade em termos de reposição das espécies que são retiradas das florestas. É necessário que tanto os operadores, como a população, entendam que a reposição é fundamental. Estamos abordando futuro das novas gerações…

RESOLVER

PROBLEMA DA ÁGUA

Como é do conhecimento público, algumas regiões da província de Cabo Delgado enfrentam escassez acentuada de água, com destaque para os distritos de Mueda, Chiúre e a capital provincial, Pemba. O que as populações destas zonas, e não só, podem esperar do seu governo?

Quando nós falamos de água, falamos em duas dimensões. Uma primeira dimensão que é água para o consumo. E nós sabemos que temos um plano de extensão visando abertura de furos, a par da reabilitação de pequenos sistemas de abastecimento de água. Esta é a nossa grande preocupação, fazer com que a água potável chegue cada vez mais ao cidadão.

A outra dimensão de abastecimento de água está relacionada com a produção agrícola. Nós sabemos que a agricultura é a base do nosso desenvolvimento. Precisamos de ter disponibilidade de água suficiente para a agricultura.

E neste capítulo de disponibilização de grandes quantidades de água para agricultura, nós olhamos para os grandes regadios…

Está a falar dos regadios de Inguri, em Muidumbe, e Chipembe, em Balama?

Sim. Este é um projecto de grande dimensão e está a ser negociado a nível central. Hoje (terça-feira, dia 17), tivemos uma reunião onde abordamos este assunto, dada a importância que tem para o desenvolvimento agrícola da província. Durante o encontro, falamos bastante sobre a importância da disponibilidade de água.

E em relação aos furos de água?

Felizmente, hoje é um dia em que estivemos a discutir o nosso orçamento. A disponibilidade de água foi eleita como a prioridade das prioridades. Como falaremos da água, também falaremos de electricidade. Estas são duas condições basilares para o desenvolvimento. Portanto, disponibilidade de água e de energia, vinte quatro horas por dia para, por um lado, levarmos a nossa vida normal e, por outro galvanizarmos a nossa indústria, agricultura e com isso aumentarmos os postos de trabalho…

RESSUCITAR

A INDÚSTRIA MINEIRA

Para além do gás, a província de Cabo Delgado tem potencial em minérios e as grandes empresas, nomeadamente a Marmonte e a Grafite de Amcuabe estão praticamente inoperacionais. Por outro lado, fala-se agora da existência de quantidades industriais de grafite no distrito de Balama. Qual é a real situação da indústria mineira na província e o que está a ser feito para a sua reanimação?

Olhando especificamente para Balama, já estamos a compor o nosso portefólio de projecto que temos ao nível da província. Os nossos directores provinciais já receberam orientações de apresentar todos os projectos de pequena , de média e grande dimensão, projectos sem financiamentos, projectos em fase de negociação e projectos que estão financiados mas que ainda não iniciaram.

Qual é a perspectiva?

A nossa perspectiva é que até ao fim do mês de Março aprovemos todos os projectos, para que todos iniciem a sua actividade e possam absorver cada vez mais a mão-de-obra.

Portanto a nossa perspectiva de trabalho é, em primeiro lugar, conhecer as nossas necessidades. Segundo, o tipo de apoio, consciente de que estamos a trabalhar com o Orçamento Geral do Estado. Temos que conhecer o número de empresas que estão a laborar, em termos de emprego e em termos de receita.

Depois, vamos para a sociedade civil, sempre com a perspectiva do que é feito para diminuir as nossas necessidades. Olhando do que sobrar das necessidades – nós estaríamos a falar de lacunas -, nós teríamos a noção de esforços em termos de dinamização naquela área e saberíamos que, dependendo do investimento que queremos fazer cada ano, quantos postos de trabalho vamos criar, qual é a receita que vamos colectar…

E…

Teremos, sim, um caderno, chamaria portefólio, que nós deveremos desenvolver ao nível da província. A partir daí, é fácil ir a conferência de doadores e dizer que nós negociamos cada projecto que tivemos em carteira. E estamos satisfeitos porque temos o Centro de Promoção e Investimentos, CPI, aqui na província de Cabo Delgado. Devo referir que a nossa ideia é focalizar o que é prioritário. Neste momento temos que olhar a província e percebermos qual é a nossa prioridade e em quem vamos investir primeiro que sabemos que vai galvanizar noutras áreas.

Por isso, elegemos a água e energia. Havendo estas duas coisas basilares, será muito mais fácil atrair investidores, por exemplo, na área da agricultura, porque sabe que existe na região esses dois recursos para sustentar este tipo de actividades…

Página 22

Fui uma criança feliz

Como passa os seus tempos livres e quais são os pratos preferidos?

Os meus tempos livres são usados para a leitura. Eu gosto de ler. A leitura é a minha fonte de inspiração. Gosto de ler livros sobre literatura e científicos.

Sempre que não sei algo, procuro me informar sobretudo na internet. Sou muito curiosa.

Gosto aprender de todos e com todos…

Gosta de cozinhar?

Gosto e muito. Faço tudo. É difícil dizer qual o prato preferido, mas privilegio mais as saladas, legumes, os verdes, porque parto do princípio de que um terço do nosso prato deve ter algo verde. Gosto de verduras, da matapa. Não dispenso também a tocossada com xima.

Gosto de receber as pessoas em casa. Acima de tudo, a minha característica é que os momentos são bons para festejar; até uma viagem lá em casa, fazemos um jantar de despedida, se alguém vem, fazemos um almoço ou um jantar de recepção…

Pratica desporto?

Sim. Eu faço ginástica. Gosto de ouvir música clássica e músicas ligeira moçambicana .

Na música gosto de reflectir sobre o que se canta porque a música desperta emoções e nos alegra. O desporto também é algo bonito que se vê. Gosto também de arte. Eu sou do tipo que gosta de arte e literatura e, depois, investiga.

Sou da geração da leitura, da poesia, saraus culturais. Quando estava na Beira, ia sempre à Casa da Cultura ouvir o Eliseu Bento e outros declamarem poemas. Nessa altura, o actual ministro da Cultura e Turismo era o director da Casa da Cultura. Como toda a criança no processo de socialização, também frequentava a catequese. Confesso: fui uma criança feliz.

O que gostaria de ver realizado nesses cinco anos à frente do governo da província de Cabo Delgado?

Como disse anteriormente, eu estou aqui com o sentido de missão. Nossa grande expectativa é alcançar o desenvolvimento que sonhamos…

André Jonas

andremuhomua@gmail.com

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