Reportagem

Quando não há garantias, jogam-se factores psicológicos

Na nossa ronda pelos distritos, fomos até ao distrito de Moma, na província de Nampula, onde encontrámos a ASS Microcrédito, uma IMF criada em nome individual, por Alexandre Salvador Sumbana. 

Esta instituição financia o sector pesqueiro, o comércio rural, a comercialização agrícola e dá crédito ao consumo.

“Somos a única instituição financeira formal aqui no distrito e o banco comercial mais próximo se localiza a cerca de 150 km daqui. Por vezes somos forçados a fazer o papel de banco comercial tradicional. Por exemplo, alguns cidadãos, sobretudo funcionários, pedem para que troquemos os seus cheques como forma de minimizarem os custos e tempo da deslocação ao banco”, disse Sumbana.

Para além deste balcão, a ASS Microcrédito possui uma agência em Mogovolas (que cobre a área de Mogovolas e parte do distrito de Angoche) e está a preparar a abertura de mais um balcão na vila de Namialo. Gere uma carteira de crédito estimada em sete milhões de meticais para o comércio, cerca de dois milhões concedidos ao sector de agricultura, a volta de três milhões para as pescas e pouco mais de um milhão e meio de meticais para o consumo.

Entretanto, as contas desta IMF não fecham. Vinte por cento do total de crédito andam por aí e não mostra sinais de “regressar à casa”. Segundo Sumbana, a dificuldade reside no facto de os mutuários não disporem de bens susceptíveis de penhora. “As garantias são frágeis. Muitas vezes, os nossos clientes apontam palhotas sem valor comercial e nós aceitamos, porque podem servir de objecto de pressão psicológica, pois o cliente despendeu algum esforço e tempo a construir e não estaria disposto a perdê-la”.

De Moma, fizemos a viagem no sentido Este-Oeste, até à sede do distrito de Ribaué, onde está implantado o Modelo Microcrédito, propriedade de Alexandre Macongo, que é igualmente gerente. “Quando nos estabelecemos, tivemos muitas dificuldades, porque a população não tinha experiência de trabalho e convívio com um banco. Passámos algum tempo só com 15 clientes e, quando a população entendeu, recebemos acima de 480 pedidos, dos quais 128 foram aprovados”, disse Macongo.

Curioso é que o Modelo Microcrédito usa um mecanismo de avaliação dos candidatos ao crédito típico de zona rural. “Perguntamos aos vizinhos se o nosso futuro cliente devolve faca, catana, sementes, enxada, machado que pede emprestado. Este é o elemento de base para se seguir a escolha da garantia “hipotética”, dado que ninguém tem documentos que comprovam que a palhota é sua”.

Quem parece não ter razões de queixa no negócio das IMF´s é Binasse Nacir, que gere a “Manunu na Mamwenhe Lamucani” (MML), que em português significa “Senhoras e Senhores Acordem”, estabelecida no distrito de Montepuez, em Cabo Delgado. O seu índice de retorno anda à volta de 99,33 por cento.

“Penso que devia haver aqui serviços complementares e de apoio à agricultura para que os camponeses pudessem aceder aos créditos e fazerem as aplicações em tempo útil. Na realidade actuais, os camponeses recebem o dinheiro e gastam parte dele com viagens para Pemba e Nampula para adquirirem insumos e isso encarece o empréstimo”, sublinhou.

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