Reportagem

O herói das fístulas

Texto de Bento Venâncio

No seu trabalho de cirurgião, tem feito centenas de mulheres sorrirem novamente. Estamos a falar de senhoras que tinham perda contínua de urina e fezes pela vagina e que exalavam mau cheiro. Hoje por hoje assumem vida normal e revitalizaram, algumas delas, casamentos destruídos. Estamos a falar de Aldo Marchesini, padre e cirurgião italiano, hoje moçambicano assumido.

Doutor Marchesini, o que são fístulas obstétricas?

A palavra fístula significa orifício que, espontaneamente, não fecha mais. A fístula em geral mete em comunicação a cavidade de um órgão com o exterior.

A fístula obstétrica pode meter em comunicação a bexiga com a vagina (fístula vesico-vaginal) ou o recto com a vagina (fístula recto-vaginal).  Obstétrica significa que este orifício se formou em consequência de um parto: a cabeça do feto ficou bloqueada na vagina, comprimindo os tecidos moles da vagina e da bexiga contra os ossos da bacia.

A compressão pode ser de tal ordem que já não deixa o sangue circular. Se isto permanecer algumas horas, os tecidos moles ficam sem circulação e morrem. Descolam-se dos tecidos vivos dando origem a um orifício, que, se a compressão foi entre bexiga e vagina, é a fístula obstétrica vesico-vaginal. Se a compressão acontecer entre vagina e recto, a fístula será recto- vaginal.

Qual é a manifestação mais comum das fístulas nas comunidades onde trabalhou?

A manifestação é a perda sem controlo, dia e noite, de urina através da vagina e, por vezes, também das fezes através da vagina. A perda contínua de urina e fezes produz mau cheiro, que faz envergonhar a doente e a leva a se afastar da vida de relacionamento. Não visita os vizinhos, não frequenta os locais onde se juntam muitas pessoas.

É padre italiano. Por que decidiu ficar em Moçambique?

Porque sou um padre pertencente a uma congregação conhecida como Sacerdotes do Coração de Jesus (chamados Dehonianos, a partir do nome do nosso fundador, o Pe. Leão Dehon).

Eu fiz aos meus superiores o pedido de ir trabalhar em Missão e fui enviado para Moçambique, onde havia um bom número de padres missionários. O antigo Bispo, Dom Francisco Teixeira, tinha desejo de abrir um hospital na sua diocese de Quelimane. Como eu era já médico, fui encarregue para levar à frente tal projecto

Quando surgiu a sua paixão pela cirurgia às fístulas?

Desde quando aprendi a técnica operatória, nos meus primeiros anos de cirurgião em África, nomeadamente no Uganda. Pouco a pouco fui operando um grande número de pacientes, conseguindo melhorar a técnica e procurando transmitir essa habilidade a numerosos colegas, especialmente os dos hospitais distritais.

Qual foi a experiência mais marcante para si ao longo do seu trabalho?

Foi o trabalho no serviço de urgência, banco de socorros, maternidade. Foi o impacto de encontrar pacientes, já encaminhados para o fim da sua vida, que, de repente, em poucos minutos, graças a uma operação bem sucedida, ficam de novo a viver de maneira cheia.

Às vezes tem usado dinheiro do seu bolso para ajudar doentes?

Sendo um padre pertencente a uma congregação religiosa, não possuo dinheiro nenhum, mas interessei-me para procurar fundos para ajudar pobres e doentes.

“CONTAMINEI-ME COM HIV 1

NA MINHA PROFISSÃO DE CIRURGIÃO”

Consta-nos que teve acidente de trabalho em plena operação. Quer comentar?

Sim, contaminei-me com o virus HIV 1 durante a minha profissão de cirurgião. Mas como todos, penso, saibam: a doença do HIV/ Sida manifesta-se bastantes anos depois do acidente de trabalho. Não sei dizer quando foi, pois, é muito frequente cortar-se ou picar-se durante uma operação com um doente de HIV/SIDA. Muitas vezes, com certeza, me contaminei, especialmente nos anos em que trabalhava na maternidade.

Quantas cirurgias já realizou às fístulas?

Francamente não sei dizer, pois nunca tive o hábito de contar as operações feitas. Posso porém presumir que nos últimos 40 anos de actividade como cirurgião de fístulas, com certeza ultrapassei os 1.000 casos.

Qual foi a cirurgia mais complicada?

Os casos complicados são frequentes. Em todas  as campanhas de operações de fístulas que cada ano fazemos nos hospitais centrais, provinciais e  distritais, deparamo-nos numa meia dúzia de casos muito complicados. Em linha geral posso dizer que entre os mais complicados podemos catalogar as fístulas associadas a apertos muito cicatriciais da vagina. É necessário reparar a fístula e aumentar o diâmetro da vagina com técnicas de cirurgia plástica, usando pétalas de tecidos moles dos pequenos lábios. Outras vezes há fístulas que não é possível reparar. Em tal caso pode-se praticar uma transposição dos ureteres, cortando-os e reintroduzindo-os no recto, de maneira a fazer sair a urina juntamente com as fezes, através do ânus. O esfíncter anal, muito poderoso, permite de reter a urina no recto durante algumas horas sem molhar.

Consta-nos que se tem dedicado à formação de jovens médicos nesta área. Tem havido adesão?

Várias vezes procurei transmitir a técnica operatória das fístulas a colegas jovens. Essa actividade aumentou a partir de 2004, quando se formou um núcleo de cirurgiões de fístulas, que se dedicava à transmissão da técnica. As ideias e as actividades foram intensificando-se e nos últimos anos foi criado o Programa Nacional de Fístulas Obstétricas, cujo director é o ginecologista Dr. Armando Melo. Os cirurgiões já capazes de reparar fístulas não complexas, andam em volta de vinte. Existem também uma dezena de cirurgiões já experientes, capazes de resolver casos difíceis e todos eles contribuem no ensino aos mais novos.

“FIQUEI SUPREENDIDO

COM RECONHECIMENTO DA ONU”

Ganhou recentemente um prémio internacional. O que significou para si? Como viveu esse momento?

Quando recebi o telefonema das Nações Unidas que comunicava a atribuição do Prémio da População das Nações Unidas, fiquei muito surpreendido, porque achei haver uma grande desproporção entre o meu modesto trabalho de cirurgião prático, num pequeno lugar do mundo, como pode ser Quelimane, e o valor moral dum  Prémio relativo a População mundial. A viagem a Nova Iorque, a premiação na Sede Central das Nações Unidas, a solenidade do acontecimento, provocaram sincera comoção e muita emoção e satisfação.

Por que escolheu o Hospital Provincial de Quelimane para trabalhar? Como grande médico que é, por que não ficou em Maputo?

Depois de quatro anos passados a trabalhar no Hospital do Songo, pedi para regressar a Quelimane no início dos anos 80, onde vivia a maior parte dos meus confrades, pelo desejo de “viver em família”. Eu não me estimo um “grande médico” e não considero uma honra particular o trabalhar num grande hospital duma grande cidade. A única honra que conta é poder dedicar toda a própria capacidade e experiência a aliviar na medida do possível, os doentes cuja estrada cruzou com a minha.

“GOSTARIA DE SER

SEPULTADO EM MOÇAMBIQUE”

Como as mulheres podem prevenir as fístulas?

Usando com diligência os serviços que o Ministério da Saúde põe a disposição, tais como consultas pré-natais, partos nas unidades sanitárias, análises de laboratório, palestras nos centros de saúde, etc.

Em que tem consistido o seu tratamento?

Na avaliação cuidadosa das pacientes, controlando também o seu estado geral; na realização – nos tempos mais curtos possíveis da reparação cirúrgica das fístulas, na educação sanitária e na estima recíproca entre pacientes e cirurgiões.

Ainda pensa em regressar à Itália?

O meu desejo seria terminar a minha vida em Moçambique, morrendo aqui e sendo sepultado aqui, mas não faço disto uma questão determinante. Poderei regressar para a Itália sem mais voltar para cá, se isso Deus o quiser.

A fístula em Moçambique

As fístulas atacam cada vez mais mulheres em Moçambique, contudoapenas cerca de 20 por cento dos casos ocorridos anualmente têm acesso ao tratamento.

Vale a pena recordar que as poucas doentes que conseguem ser abrangidas pelo Sistema Nacional de Saúde (SNS) são forçadas a percorrer longas distâncias para acederem ao tratamento e esperam meses, às vezes anos, para poderem ser operadas.

Em 2013 foram tratadas apenas 357 mulheres com fístulas obstétricas aonível nacional, o que é bastante pouco. A expectativa do Ministério da Saúde (MISAU) é de próximo ano assegurar que cada província moçambicana tenha pelo menos um serviço de tratamento integrado desta patologia feminina de forma a abranger mais mulheres.

Segundo Armando de Melo, coordenador da EstratégiaNacional de Prevenção e Tratamento das Fístulas Obstétricas, existem neste momento 11 unidades sanitárias no nosso país que fazem o tratamento regular de fístulas obstétricas.

O tratamento implica, quase sempre, o recenseamento, informação, pessoal capacitado e criação de equipas com capacidade cirúrgica. Actualmente, estas condições apenas existem no Hospital Central de Maputo, no Hospital Central da Beira, no Hospital Central de Nampula, no Hospital Provincial de Quelimane e no Hospital Provincial de Lichinga .

Ressalve-se que com o suporte do Fundo das Nações Unidas para a População (FNUAP), desde 2002 que Moçambique tem um programa Nacional de Tratamento de Fístulas e de formação de técnicos para a prevenção e tratamento.

Foi no âmbito deste programa que o país formou, nos últimos três anos, 24 quadros superiores em cirurgia de fístula dentre médicos especialistas, licenciados e bacharéis em cirurgia.

É fácil constatar que Moçambique dispõe ainda de quadros em número insuficiente para atender milhares de casos diagnosticados nas unidades sanitárias sobretudo nas províncias de Niassa, Tete, Zambézia, Nampula e Inhambane.

Segundo o MISAU a elevada prevalência nestas zonas prende-se, não só com a baixa cobertura assistencial ao parto nas zonas rurais, “ mas também com uma maior incidência de factores de natureza cultural, como por exemplo, os casamentos prematuros com partos numa idade muito precoce”.

O grupo alvo da Estratégia Nacional de Prevenção e Tratamento das Fístulas Obstétricas em Moçambique são todas as mulheres em idade reprodutiva, com especial enfoque nas mulheres jovens e adolescentes que estão sob o risco sobretudo devido ao trabalho de parto arrastado (ou obstruído).

O objectivo geral da estratégia é reduzir a incidência e prevalência de fístulas através de advocacia, prevenção, tratamento e reintegração social, reabilitação física e psicológica das sobreviventes.

O MISAU está igualmente perante o desafio de aumentar a capacidade do sector de saúde na prevenção e rastreio de fístulas, em paralelo com a necessidade de intensificar a promoção de maternidade segura, em particular para as mulheres e adolescentes que vivem em zonas de difícil acesso.

A integração do tratamento das fístulas na Estratégia Nacional de Saúde Materna e a inserção de conteúdos que visam a sua prevenção nos programas de educação para a saúde (a todos os níveis) figuram também na matriz da estratégia que temos vindo a citar.

O Governo quer mapear locais que prestam serviços de reparação e tratamento de fístulas no país no esforço de definir e organizar uma rede de referência dos serviços de diagnóstico e reparação, integrada no Serviço Nacional de Saúde ao nível de todo o país.

 

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