Reportagem

Mulher lutadora e inspiradora

Ela pode ser a face de milhares de mulheres que hoje celebram o seu dia. Já passou por dissabores, mas reergueu-se cheia de determinação que catapulta as nossas mamanas para o pódio do 

sucesso, inspiradas pela necessidade de gerar filhos melhor habilitados para as tarefas do dia-a-dia.

 

Ela sabe disto de cor e salteado: de segunda a sábado, o seu dia começa antes do raiar do sol. Deve despertar às 4 da manhã, cuidar do corpo e partir para estrada.

Seu primeiro destino é o mercado Fajardo. É lá onde compra os diferentes produtos para abastecer a sua banca, antes de rumar ao seu local de trabalho: o Mercado Central.

Passa todo o dia neste local. Há quem diga que ali é a sua segunda casa. Vende piri-piri, mel, alho entre outros produtos. Estamos a falar de uma mulher que tem no currículo trinta anos de trabalho feito na estrada e na banca.

Com o lucro/rendimento proveniente do negócio, conseguiu construir a casa onde vive hoje e conseguiu educar os filhos.

Estamos perante uma mulher trabalhadora, empreendedora e inspiradora que sabe dizer que nas mãos de alguém não pode crescer capim. Labutou e muito, palmilhando a estrada da vida com sacrifício e esperança.

Passou por dificuldades, mas nunca pensou em desistir, lema que gostaria de arremessar para todas as mulheres moçambicanas.

“Quando perco as forças. Recorro à fé em Deus, que tem iluminado os meus caminhos. Acredito que as orações que faço todas as manhãs, antes de sair de casa, me ajudam ao longo do dia”, diz cheia de convicção.

Estamos a falar de Maria Macuacua, 65 anos, mulher que nasceu no bairro 25 de Junho, vulgo Choupal, arredores da cidade de Maputo. Vem de uma família humilde e é a terceira dentre quatro irmãos.

Filha de pai estivador e mãe camponesa, não foi além da segunda classe. A família não dispunha de dinheiro para pagar a escola.

Casou-se aos dezoito anos de idade. Contudo, não ficou muito tempo no lar. Nem tudo corria bem. “Não havia harmonia com o meu parceiro. Não nos entendíamos porque ele desaparecia e me deixava dias a fio sozinha com as crianças e, ainda por cima, vivíamos numa casa alugada”, conta, acrescentando que mais tarde descobriu que seu marido ficava em casa de outras mulheres.

Sem lar, estudos e emprego, sua vida caiu num beco sem saída. Viu-se, por isso, obrigada a regressar à casa dos pais carregando consigo todos os filhos do primeiro casamento.

Recorda-se do episódio com tristeza contagiante e diz-nos que já nessa altura aprendeu que a vida não pode ser vista como conto de fadas. Viu-se forçada a comer pão que o Diabo amassou, acenando para um destino que só Deus revelaria mais tarde.

“ A vida não foi fácil para mim. Tinha quatro filhos e estava grávida. Tive de lutar duramente para sobreviver e zelar pelos meus meninos”, conta à nossa Reportagem, recordando que de manhã saía de casa, deixava as crianças sob os cuidados da minha mãe e partia às machambas de Boane para comprar hortaliças e laranjas para revender nos mercados.

Sentada na sua banca, com uma peneira sobre as pernas e “escolhendo” piri-piri, remata: “O dinheiro que conseguia, não chegava para comprar tudo. Tinha quatro crianças sob minha responsabilidade. Mesmo assim nunca faltou pão e caril”.

 

 

A morte da mãe

A pobreza da Maria acentuou-se com a morte da mãe, pois já não podia contar com o apoio de suas mãos preciosas, maternas, para velar pelos filhos menores quando saísse de casa.

A labuta pela busca da refeição virou, assim, bico de obra, pois as crianças não podiam ficar sozinhas. “ Não tinha outra alternativa senão deixá-las sob o cuidado dos irmãos mais crescidos, senão não havia comida para a família”, sublinhou.

 

Suicídio do filho

Dos oito filhos gerados pela Maria, dois faleceram. Não se recorda do ano, mas afirma que a sua segunda sorte, um rapaz, perdeu a vida com apenas um ano e três meses de idade, vítima de doença.

Entretanto, mais tarde o mesmo infortúnio voltou a suceder: “Omeu quarto filho suicidou-se. Tinha ele 19 anos de idade e até hoje não sei concretamente o que o levou a enforcar-se”, lembra-se, amargurada.

Ressalva que soube da morte quando regressava do mercado. “Fiquei chocada, porque ninguém soube explicar o que levou o miúdo a tirar a sua própria vida”, lamentou com tristeza no rosto.

Os restantes filhos cresceram. Estão hoje em suas casas. Ela, vive com sua filha mais nova, a Rosita.

Volvidos tantos anos de tristeza, ela é hoje uma outra mulher. Amadureceu com o tempo, com a idade. O trabalho desde cedo revelou-lhe a porta da esperança e vê nas suas mãos a mais importante ferramenta da sobrevivência.

Com as mãos acenou para uma experiência feita de carinho e labor quase infinitos, sabido a morte limita as ambições como sói dizer-se. Hoje por hoje sofre menos, contando com uma família alargada.

“Sou avô de 15 netos e bisavó de três crianças. Apesar de tudo que passei agradeço a Deus por ter iluminado o meu caminho. A minha filha mais velha está no seu lar. Outro encontra-se no momento em Qatar, em missão de serviço. Os restantes encontram-se a trabalhar cá”, diz cheio com orgulho.

 

“Ainda existem homens

que desvalorizam a mulher”

 

Maria Macuacua mostrou-se satisfeita com o papel, diga-se fundamental, que a mulher desempenha hoje no país. Diz que isso é de louvar, pois durante muito tempo esta figura foi subestimada e reduzida pelo homem.

“Hoje temos muitas mulheres que tiveram oportunidade de estudar e ocupam cargos importantes. A mulher mostrou que com a sua sensibilidade e força ao mesmo tempo pode cuidar de uma família e também de um país”, referiu com um sorriso tímido.

Entretanto, confessa estar indignada com a onda de violência contra a mulher e, sobretudo, contras as crianças no país. “Ainda existem homens que batem em mulheres e violam crianças. Como um homem pode usar uma criança menor para servir de sua mulher?”, questionou.

 

Parabéns, mulher moçambicana

A mulher está de parabéns e Moçambique está em festa. É hoje 7 de Abril, data na qual faleceu Josina Machel, heroína nacional.

Guerrilheira e activista, Josina nasceu a 10 de Agosto de 1945, em Inhambane, Moçambique. Em 1967, a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), que lutava pela independência de Moçambique, criou o Destacamento Feminino, onde Josina se viria a filiar de imediato, abdicando para isso de uma bolsa de estudo no estrangeiro.

Josina Machel viria a falecer precisamente a 7 de Abril, em Dar es Salaam, na Tanzania, deixando para sempre o reconhecimento das suas aptidões. Altos dirigentes da FRELIMO receberam instrução militar de Josina Machel, destacando-se, assim, como uma das figuras mais inspiradoras da história moçambicana.

O dia 7 de Abril, que hoje celebramos, é inspirado na extensa e rica obra desta heroína nacional. Nas páginas que se seguem trazemos histórias de outras heroínas moçambicanas e destacamos depoimentos de mulheres que têm feito a diferença nos sectores onde se encontram.

Falamos com mulheres que conduzem autocarros, camiões e até são dirigentes de sectores tradicionalmente relacionados ao homem, fruto da emancipação que Josina tanto advogou.

Mais uma vez está de parabéns a mulher moçambicana, fonte de vida que “brota”, tal como diz Ivo Mahel, músico moçambicano, engenheiros, deputados, presidentes, ministros, engenheiros…

Tudo isto porque nenhuma influência é tão poderosa quanto a de mãe. Os seus braços são feitos de ternura e os filhos dormem profundamente neles, como bem defendia Victor Hugo.

E todos nós sabemos que tudo é incerto neste mundo hediondo, mas não o amor de uma mãe, pois ser mãe é assumir de Deus o dom da criação, da doação e do amor incondicional. Ser mulher é encarnar a divindade na Terra.

A mulher compreende até o que os filhos não dizem e “mães judiciosas sempre têm consciência de que são o primeiro livro lido e o último posto de lado, na biblioteca dos filhos”, tal como defende Charles Lenox Remond.

Para terminar: “ser mulher é viver mil vezes em apenas uma vida, é lutar por causas perdidas e sempre sair vencedora; é estar antes do ontem e depois do amanhã, é desconhecer a palavra recompensa apesar dos seus actos. Ser mulher é acima de tudo um estado de espírito, é ter dentro de si um tesouro escondido e ainda assim dividi-lo com o mundo.”

Nas páginas seguintes, destacamos o trabalho jornalístico feito por três mulheres da nossa Redacção.

 

 

Guebuza saúda

mulher moçambicana

Por ocasião do 7 de Abril, O Presidente da República, Armando Guebuza, saúda todas as mulheres moçambicanas pelo seu activo envolvimento em diferentes esferas de luta contra a pobreza e pelo progresso e bem-estar do povo.

O estadista refere na sua mensagem de saudação que o lema das celebrações deste ano reconhece esses feitos e insta a mulher moçambicana para, no ambiente de diálogo na sociedade, reafirmar a sua entrega na luta contra a pobreza, o analfabetismo, a violência doméstica bem como a violação e abuso sexual de menores e o tráfico de seres humanos.

“ Quarenta anos depois, Moçambique orgulha-se de ter um forte movimento feminino, cuja contribuição é inegável na superação dos diferentes desafios enfrentados pela mulher e pela nossa Pátria Amada”, lê-se na mensagem do Chefe de Estado.

Guebuza ressalva que o 7 de Abril é também dia de celebração da vida e obra da heroína nacional Josina Machel.

 

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