Reportagem

GARIMPO INFESTA RIO PÚNGUÈ E BUZI

O rio Púnguè está todo ele turvo e vermelho. O alarme vem de Manica, onde o garimpo tem crescimento exponencial. A turvação do rio é causada pelo rio Nhancuarara que nasce no nosso país e que passa por uma zona onde ocorre forte actividade mineira desde a famosa “Mina Mimosa”.

As águas percorrem o território zimbabweano já turvas e regressam turvas, desaguando no rio Honde que descarrega no Púnguè.

A turvação é consequência da actividade mineira artesanal. Os garimpeiros desenvolvem deferentes tipos de técnicas nocivas, destacando-se a mineração hidráulica, que consiste numa espécie de “desvio do rio”.

Movidos pelo interesse no potencial aurífero, garimpeiros conseguem desviar o curso do rio, remexendo terra e ouro, juntamente com outras partículas. O processo decorre com alguma intensidade até eles concluírem que o ouro, que é uma partícula mais densa, já se encontra a “flutuar”.

Este processo, também chamado “lavar a terra com água”, traz consequências ambientais já visíveis em todo o curso do Púnguè. Toda água adquiriu coloração vermelha, o que é agravado pelo facto de os solos donde essa actividade é desenvolvida serem argilosos e muito vermelhos.

Resultado: a água do rio já não serve para lavar a roupa. Não pode ser consumida por pessoas, animais e plantas. Se em algum momento as comunidades a jusante usavam essa água, agora já não podem. E isso implica investimentos para abrir furos e poços para assegurar que pessoas possam ter água para consumo e lavar a roupa.

Se em algum momento nesses rios houve pesca ou havia peixe, hoje não se pode falar da existência desse peixe porque, como qualquer animal, precisa de ver. E peixe não pode ver na escuridão.

Outro aspecto, que é também científico, é que a vida, tanto das plantas como dos animais dentro da água, precisa de energia solar. Deste modo a vida no fundo da água torna-se complicada e isto vai dificultar toda cadeia alimentar. Sabemos que na cadeia alimentar não pode haver corte.

Outro facto é que os animais, “inadvertidamente” bebem aquela água do rio. O gado “não sabe” que aquela é água turva , adquirindo problema dos sedimentos que causa danos à saúde e morte.

Estamos a falar dos grandes problemas ambientais associados à actividade de garimpo.  Trata-se de problemas que que podem igualmente afectar a agricultura, dado que muitas machambas estão a virar campos de mineração.  

Constamos isso na zona no Tchua, um afluente do rio Revuè para quem vai a Penhalonga. Esse desvio vai dar ao rio Nhancuarara.

Podemos dizer que são várias as consequências do garimpo em Manica onde  comunidades a jusante dos rios poluídos não só não beneficiam dos produtos extraídos, como eles têm prejuízo, porque não podem usar a água.  Aliás, para a agricultura a água turva é problemática, pois usada para regar as plantas fecha os poros das próprias plantas e elas precisam de respirar para poderem desenvolver.  Por outro lado, aquela água torna os solos plásticos com alguma dificuldade de permeabilidade, o que não é bom para as plantas.

 

REDUZ POLUIÇÃO QUÍMICA

Constatamos, no terreno, que a turvação dos rios mediante poluição química. O trabalho de educação que tem sido transmitido às comunidades, sobretudo na forma como eles devem usar o mercúrio, melhorou bastante.

O Governo de Manica está a trabalhar no sentido de mobilizar esforços para que se minimize o problema ao longo das margens dos rios, aconselhando as populações a abrir poços ao lado do rio e não consumir directamente aquela água que na verdade é vermelha.

Por outro lado, a Direcção Provincial dos Recursos Minerais  está desde o ano passado a treinar as comunidades em boas práticas para que não usem mercúrio nas zonas de garimpo.

Contudo, durante o processo, esta instituição do Estado  foi colocada perante a evidência de estar a educar o povo a trabalhar em áreas já concessionadas.

“Mas nós agora estamos a ter um nosso paradigma: os donos daquelas áreas têm que estar ali. Temos que treinar as comunidades juntamente com eles. Ou eles têm que trazer tecnologias para treinar as comunidades, mas cientes que estão a treinar sobre as áreas deles e que eventualmente cumpram com as suas obrigações como donos das áreas mineiras”, explica Olavo Deniasse.

Para minimização da poluição química, através da contaminação por mercúrio, muitas medidas foram introduzidas, entre as quais as retortas. No princípio houve muita resistência por parte dos garimpeiros, mas devido a insistência que foi sendo dada, foram compreendendo que tinham mesmo que usá-las , pois até recuperavam o tal de mercúrio que usam para capturar o ouro.

De notar que o mercúrio é usado para aquelas minas primárias que, por coincidência, ocorre nas margens dos rios. Quando as pessoas vão lavar as águas vão dar ao rio.

O risco do mercúrio reside apenas nas minas primárias, nas rochas. Para o caso do rio Revuè, existe a mina Munhena que em nenhum momento chegou a ser problema porque foi montado um sistema onde existem bacias de decantação e represas que não permitem o retorno da água para o rio.

Hoje já não se coloca muito o problema de contaminação por mercúrio. Empresas como a Exploreter e a Panafricam fizeram testes e nada apuraram em termos de contaminação à margem da mina de Gaifox, na margem esquerda do rio Revuè, para quem está no a jusante. A Gaifox é conhecida como sendo a segunda maior mina do ouro na história do país sob ponto de vista de produção, lado-a-lado com Mina de Bragança que também está no distrito de Manica.

O mercúrio é usado para capturar ouro muito fino, invisível ou inseparável por processos físicos. O proveniente do rio “aparece” porque os processos naturais já “trataram de tudo”. O próprio nome diz tudo: ouro aluvionar.

 

POPULAÇÃO JÁ NÃO

CONSOME PEIXE DE CHICAMBA

Receando contaminação química da água por mercúrio, a população de Manica receia consumir o peixe de Chicamba, outrora bastante apreciado.

Contudo, as autoridades sublinham que não há motivos para tanto alarme. Estudos feitos há cinco anos atrás que traziam resultados alarmantes. Os dois últimos estudos, um que foi feito pela Messe University dos Estados Unidos da América, mostram que a presença de mercúrio ao longo da bacia de Revuè no final do ano passado já era pouco expressiva.

Ou seja: os dois últimos estudos revelam que se há algum mercúrio, está abaixo dos níveis recomendados. Neste momento, a única preocupação das autoridades assenta na turvação da água.  


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