Reportagem

Festas tranquilas mas,…

O mundo inteiro está ainda na ressaca da quadra festiva que teve o seu início lá para as bandas do dia 24 de Dezembro, com a inevitável Tolerância do Ponto a partir das 12 horas para que as famílias pudessem se agrupar e aprumar o traje e o apetite para o Natal, ou se quisermos, o Dia da Família.

Quando muitos ainda procuravam se recompor da azáfama natalícia chegou a celebração do Fim-do-Ano com o seu frenesim que inclui mesas fartas, bebidas a rodos, música de fazer estremecer a vidraça do vizinho e a queima de objectos pirotécnicos.

No balanço que as autoridades policiais, sanitárias e bombeiros fizeram a partir do dia 1 de Janeiro, o Natal e a transição do ano 2014 para 2015 indica que correu tudo bem. Segundo eles, “as festas foram tranquilas, na generalidade”, e para isso terão concorrido vários factores, a começar pela estabilidade geral de preços, fenómeno que começa a virar tradição por estas alturas.

A este respeito, as nossas equipas de Reportagem constataram que, ao contrário dos outros anos, em que os vendedores dos mercados asfixiavam o poder de compra das famílias ao praticarem preços de outras galáxias, desta vez mantiveram quase todos os produtos no preço certo.

Terá pesado para este fenómeno, o facto dos principais mercados do país terem estado mais do que abastecidos de produtos básicos, incluindo de tomate, cebola e batata nacional, cerveja e refrescos, bem como de frangos, peixe e vegetais.

Também pesou o facto de as autoridades ligadas ao sector do Comércio e Indústria, assim como o Banco de Moçambique, terem aplicado medidas dissuasoras para a estabilidade geral de preços que, em última estância só beneficiou à maioria desprovida de posses para ter à mesa um peru, champanhe, bolo-rei ou um fino whisky.

Com comida e bebidas disponíveis, e quase aos pontapés, o senão veio dos céus, com a queda de chuva na véspera do Natal, na região Sul do país, e na transição do ano na região Centro e Norte, o que provocou alagamentos e desabamentos de casas nas cidades de Maputo e Matola, assim como enxurradas no Chimoio, desabamento de casas e muros em Nampula, com a morte deste e daquele cidadão. Uma pena.

Ainda hoje, muitas famílias residentes nas cidades de Maputo e Matola continuam com os quintais inundados de água que começa a libertar um cheiro nauseabundo, a fazer crescer e multiplicarem-se rãs, mosquitos e indesejáveis plantas aquáticas, num cenário desolador e de elevado risco de eclosão de doenças diarreicas e malária.

Festejou-se com

um nó na garganta

Angelina Mahumane e Lurdes Cossa

“A comemoração da passagem do ano 2014 para 2015 foi tranquila”, garantem as autoridades policiais, médicas e bombeiros que também não escondem que houve atropelamentos, choque entre carros, agressões físicas, acidentes com objectos pirotécnicos, coma alcoólica, entre outros. “Mas, no geral, correu tudo bem”. Entretanto, milhares de famílias das cidades de Maputo e Matola festejaram na maior amargura. A chuva destroçou-lhes a alegria ao destruir as suas casas e inundar por completo os quintais.

Fogo-de-artifício, champanhe, carne assada, batata frita, refrigerantes, bolos, abraços e danças são alguns ingredientes das festividades do final do ano que qualquer chefe de família faz de tudo para oferecer ao seu agregado. Custe o que custar.

Relatos que nos chegaram de todos os cantos do país indicam que houve festa rija e que a maior parte das famílias moçambicanas e estrangeiras aqui residentes celebrou sem muitos sobressaltos, à excepção daqueles que se envolveram em acidentes ou que beberam demais, se puseram em pelejas descontroladas e foram parar aos hospitais e esquadras.

Consta que o Hospital Central de Maputo (HCM), o maior do país, recebeu 301 pacientes, mais 41 que na transição de 2013 para 2014, dos quais 28 foram vítimas de acidentes de viação e destes, nove foram internados, um dos quais com um grave traumatismo craniano.

Como é comum por estas alturas, três pessoas ficaram com os dedos dilacerados por mau uso de objectos pirotécnicos e 38 andaram aos socos, pontapés, pauladas, catanadas e garrafadas só porque apanharam uns copos e entenderam se desentender justamente no momento em que todo o mundo brindava por um ano novo repleto de saúde e sucessos. Como se diz por aí, há sempre alguém na contramão da vida.

Mas houve famílias que não tiveram muitos motivos para celebrar por causa da chuva que lhes destruiu as casas e inundou por completo os respectivos quintais e vias de acesso. Os casos mais gritantes ocorreram nas cidades de Maputo e Matola, mas também em Nampula, no dia 1 de Janeiro, na sequência da chuva intensa e de um vendaval que derrubou casas e vedações.

Sem moral para festejar

A nossa Reportagem percorreu vários bairros destes aglomerados populacionais e encontrou famílias inteiras desesperadas pelo facto de terem ficado sem tecto. Joaquina Alberto, residente no bairro Zimpeto, na cidade de Maputo, é um exemplo disso. Ficou sem moral para festejar porque a sua casa, construída a pouco mais de um ano, humedeceu a ponto de desabar como um castelinho de areia.

Os estragos foram causados pela última chuva. A casa desabou por completo. Há mais de um ano que vivemos aqui e água sempre passou pela estrada, longe da nossa casa mas, desta vez, entrou e levou tudo”, lamentou.

Depois deste triste episódio, Joaquina conta que foi ter com o chefe do quarteirão que a encaminhou ao Círculo do Bairro. Depois de apresentar toda a documentação e cumprir com vários formalismos, terá sido mandada de volta para a ruína sem nenhum tipo de assistência.

Perdemos a maior parte dos bens, as poucas coisas que recuperamos não estão em condições, por isso não conseguimos pensar em festejos, porque não temos onde dormir. Felizmente alguns familiares se ofereceram para nos acolher mas, é sempre um transtorno”, disse.

O que parece irónico na história desta cidadã é que está a viver este drama pela segunda vez. A primeira foi no bairro de Laulane. “Mal completamos um ano descobrimos que este bairro (do Zimpeto)é pior, mais uma vez temos a nossa casa destruída pela fúria das águas”.

No bairro Ferroviário encontramos Ana Paula Afonso com a tristeza estampada no rosto. “Não tenho condições para pensar em festas porque a chuva destruiu parte da minha casa e fui forçada a levar o pouco que sobrou para as casas dos vizinhos como forma de tentar salvaguardar alguma coisa. Sempre que chove dormimos em casa dos vizinhos devido a incerteza que vivemos porque a água passa por baixo da casa”.

Para Ana Paula, o Conselho Municipal de Maputo não devia parcelar ou reassentar famílias sem verificar o estado em que os terrenos sem encontram. “Já fomos ao Município reclamar e mandaram peritos para avaliar e ainda não aconteceu nada”.

Sulemane Pires vive há mais de um ano no Zimpeto, transferido da zona conhecida por Xiquelene. “Toda água que vem lá de cima passa daqui e causa-nos muitos transtornos. Choveu antes do Natal e a água abriu uma enorme cratera. Gostaria de ter um espaço condigno, sem ameaças constantes de inundações”.

No Bairro Ferroviário encontramos Rachel Eugénio, mãe de três filhos, que disse que perdeu vários bens e não sabe por onde recomeçar. “Já pedimos ajuda para sair daqui e nunca tivemos. Tem pessoas que fazem visitas constantes, não sabemos se vem da parte do município ou de organizações não governamentais. Estou farta de ver nuvens e ficar com o coração na mão”.

Quintais e casas inundadas

Cristina Machava, residente do bairro de Tsalala, no município da Matola, tem a casa cercada de água porque um dos vizinhos entendeu ligar uma motobomba para se livrar da água que tinha no seu quintal. Entretanto, aquele equipamento escoou toda a água para o espaço mais próximo que coincide com a casa de Cristina.

“A passagem do ano não decorreu como pretendia porque recebi água escoada por um vizinho e fiquei sem espaço para circular livremente pelo quintal. Felizmente não perdi nenhum bem, mas tenho a casa cheia de água. A minha preocupação é ver esta água desaparecer e investir nos meus projectos de escola e trabalho”, disse.

Entretanto, Alves Martins, também residente do bairro Tsalala desde 1989, revelou que a transição do ano foi precária, uma vez que não havia espaço para que pudessem conviver em tranquilidade. “Festejamos de forma muito sofrida devido as águas das chuvas que inundaram a nossa casa. Não tínhamos nem espaço para sentar em nosso quintal”, disse.

Para este munícipe, o município da Matola deve construir valas de drenagem, pois “já estamos cansados de sofrer”, sublinhou para depois acrescentar que quando a edilidade entende realizar obras de construção de estradas não cria, de forma simultânea, condições para a passagem da água, o que culmina com a inundação dos quintais circundantes.

Gil Fábio Chau, residente da Machava, no chamado Quilómetro15, disse à nossa Reportagem que teve uma passagem de ano fora do comum porque a chuva fez das suas no seu quintal. “Passámos muito mal as festas do final ano, conforme vêem as condições aqui em casa são péssimas desde o dia em que choveu até hoje. Tive que me mudar para a casa da minha mãe, que vive aqui perto, porque até dentro de casa estava cheio de água.

No entanto referiu que as condições já estão melhorar, uma vez que pelo menos dentro da casa já não há água, e já têm espaço para dormir. Acredito que a maior causa dessas enchentes é a estrada que foi aqui construída e que tem uma quota elevada mas falta-se um sistema de drenagem.   

Conselho de Ministros

conforta vítimas

Na sequência do cenário que se assiste um pouco por todo o país, o Conselho de Ministros emitiu um comunicado no qual endereça as suas condolências às famílias que perderam os seus entes queridos por causa da chuva e do vento que tem afectado muitos pontos do país e manifestou a sua solidariedade em relação àqueles que perderam os seus haveres.

Naquele comunicado pode-se ler que o governo da República de Moçambique continua a monitorar e a concentrar todos os esforços para a rápida normalização da vida das pessoas afectadas pelas calamidades naturais.

Neste momento que se caminha para o pico da época chuvosa e o impacto já se faz sentir particularmente nas comunidades das províncias de Maputo, Gaza, Inhambane, Zambézia, Sofala e Nampula, o governo expressa as suas condolências a todas as famílias que ficaram enlutadas e manifesta a sua solidariedade a todos aqueles que perderam os seus haveres, encorajando-os a não desfalecer”, refere.

Tomando em conta a magnitude com que as chuvas e outros fenómenos naturais têm incidido sobre o nosso país, o governo exorta a população para que se mantenha calma e continue a acompanhar atentamente as medidas que  estão a ser tomadas pelas autoridades e seguir rigorosamente as devidas orientações.

Os governos provinciais, distritais, líderes comunitários e Comités Locais de Gestão de Risco de Calamidades (CLGRC) e todas as forças vivas da sociedade devem continuar a mobilizar a população para abandonar as zonas de risco, bem como prestar assistência e solidariedade aos afectados, particularmente nas Cidades de Maputo, Matola, Chókwè, Panda e Nacala-Porto”, sublinha.

O sector privado, a sociedade civil, a população em geral e os parceiros de cooperação são igualmente exortados a continuar a manifestar a sua solidariedade às populações afectadas, contribuindo com meios e bens que permitam a continuação da assistência humanitária, a redução do impacto e a rápida reconstrução pós-calamidades.

 

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