Reportagem

Estória de um goleador

A entrevista que trazemos nas páginas seguintes com um homem do futebol, no caso vertente Aniceto Mhula, ultrapassa a dimensão desportiva. No auge de carências de toda a espécie no país, no início da década de 1980, um número considerável de moçambicanos de quase todas as castas e sectores decidiu emigrar e sem olhar a meios. A África do Sul afigurava-se como terra prometida.

O sumiço, mediático, foi mais notório no desporto-rei, já que, num piscar de olhos, talentos como Pelembe, Isaías, Cossa, Cadango, Amadinho, Vicentinho, Tinga, Zaza, Nico, só para citar alguns, não mais alegraram os corações do povo com a arte de bem jogar à bola nos relvados do Desportivo, Maxaquene, Costa do Sol, Muhaivire, Namutequiliua, Pemba, 25 de Junho, Soalpo, Gaza, Incomati, Alumínios, etc, etc.

Mais doloroso foi para os familiares directos dos futebolistas, porque muitos ficaram anos a fio sem notícias dos seus. A única certeza a que viviam abraçados era de que eles estavam na terra do Rand mas, ao que parecia, tinham-se esquecido dos que deixaram para trás.

Como se o universo estivesse conspirando contra os familiares, as chamadas Tecnologias de Informação e Comunicação e as redes sociais, que hoje povoam o imaginário de toda a gente, estavam a quase duas décadas da massificação que agora se assiste.

A verdade, como o céu ser azul, é que alguns dos futebolistas que à época eram idolatrados em Moçambique, transposto o arame farpado para a Terra do Rand “comeram o pão que o diabo amassou”. Sofreram. Uns ficaram dias minguando à fome. Viveram do que a sorte lhes presenteava. Atente-se para esta frase do nosso entrevistado:

“ O que não faltava era carro para nos levar aos treinos e aos jogos particulares já que o campeonato ainda não tinha começado. Nessas ocasiões é quando tínhamos uma sandes e um refresco para enganar o estômago. No resto dos dias não tínhamos nada para comer. O Jomo Sono brincou connosco. Pior de tudo é que não tínhamos onde nos queixarmos porque éramos ilegais”. Mais palavras para quê!

Felizmente o epílogo não foi amargo para todos os que ousaram imigrar. Há estórias de sucesso.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos Relacionados

Botão Voltar ao Topo