Reportagem

Começo e fim dos dilemas de Chókwè

O distrito de Chókwè, no sul da província de Gaza, voltou a enfrentar cheias de grande magnitude que deixaram mais de 200 mil pessoas ao “Deus dará”. Mas nada pior do que o que aconteceu em 

2000, quando o mundo assistiu arrepiado à invulgar fúria do rio Limpopo. Entretanto, mal o rio se acalma, todos regressam como se nada tivesse acontecido. Porém, o perigo está sempre à espreita, pois, segundo pesquisas recentes, esta cidade foi construída no local errado e nem era para fins habitacionais como é hoje. Para pôr fim às ameaças será preciso muito mais do que vontade, porque entre uma cheia e outra, Chókwè acolhe secas severas.

 

Cidade de Chókwè. 27 de Fevereiro de 2000. 23 horas e 40 minutos. Uma enorme vaga de água cerca a cidade e o pânico toma conta da multidão que não acatou os avisos lançados poucas horas antes. Incrédulos e assustados, muitos trepam árvores, outros buscam refúgio nos tectos das casas e alguns conseguem fixar-se em pequenas ilhas onde dão o melhor de si para se salvar a si próprios, mas sobretudo ao gado bovino, sua riqueza.

Na manhã seguinte, 28 de Fevereiro, Chókwè é manchete em todos os órgãos de comunicação social nacional e internacional. O mundo assiste abismado à morte de cerca de 700 pessoas, milhares de desalojados e gente sitiada entre a correnteza, com a morte sempre à espreita. Um caos nunca visto.

Poucas semanas depois, a população retornou àquela cidade e reergueu tudo, a ponto de surgirem habitações novas e caprichadas, serviços bancários, creches, restaurantes e bares, comércio geral, armazéns, oficinas, enfim. Até Janeiro deste ano, Chókwè tinha exterminado a imagem de devastação que tinha sobrado, depois da passagem daquelas cheias.

Entretanto, treze anos depois, a população do mesmo distrito de Chókwè volta a ser forçada a abandonar as suas casas para deixar passar mais uma tenebrosa vaga de água carregada de ameaças à vida humana e às infra-estruturas ali erguidas.

Outra vez, uns foram para os galhos de árvores, outros para os tectos, outros ficaram sitiados, havendo vítimas mortais, ainda que em número menor, quando comparado com o famigerado ano 2000. Passado cerca de um mês, os residentes de Chókwe estão de volta ao seu aconchego. Dali, ninguém os tira.

Porque a fatalidade parece não estar disposta a “largar o pé” deste distrito, várias perguntas não querem calar, mas, entre eles, duas falam mais alto. “O que se passa com esta cidade?” e“o que se deve fazer para acabar com o drama que as cheias provocam em Chókwè?

 

Perfil dos rios não ajuda

Entre os que estudaram as fraquezas e medidas de protecção do distrito de Chókwè, encontramos Xavier Chavana, ponto focal técnico de Moçambique na Plataforma de Acção de Hyogo, que afirma que o problema deste distrito está na sua génese. “Tomou-se a decisão errada de implantar a cidade numa área vulnerável a calamidades”.

Com efeito, o que mais aflige os residentes desta parcela do país nem sequer são as cheias, apesar do impacto destas chamar mais atenção ao país e ao mundo. A calamidade mais comum e avassaladora por aquelas bandas é a seca, conforme indicam vários estudos, incluindo a tese de Chavana, feita em 2008, sob o tema “Gestão de Risco de Desastres Naturais”, assim como o Atlas Contra Desastres na Bacia do Limpopo.

Segundo estas e outras fontes compulsadas pelo domingo, ao longo daquela bacia, as secas severas ocorrem num ciclo de 7 a 11 anos, havendo regularmente secas de menor intensidade que resultam do facto desta bacia ter precipitações irregulares, imprevisíveis e, pior, toda a chuva cai num punhado de dias.

As características do rio Limpopo também não ajudam muito, dado que ele nasce na fronteira entre Botswana e África do Sul, a mais de mil metros acima do nível das águas do mar. Quando entra no território nacional, o rio desce drasticamente para uma altura de 200 metros e, a partir de Pafúri, o Limpopo percorre os seus últimos 400 quilómetros (km) abaixo de 100 metros do nível médio das águas do mar, quase sempre em zonas demasiado planas.

Segundo os mesmos dados, nos últimos 175 km, entre Chókwe e a foz, o Limpopo flui abaixo dos sete metros do nível médio das águas do mar, o que se transforma num foco de inundações da zona baixa de Xai-Xai quando há marés vivas (no mar).

Como um mal nunca vem só, o perfil do rio dos Elefantes (afluente do Limpopo) é igualmente ameaçador. Com metade do comprimento do rio Limpopo, o Elefantes desce de 1500 metros para apenas 50 metros entre as barragens de Witbank, no interior da África do Sul, e Massingir, em Gaza.

Consta que a maior parte da água que o Limpopo carrega na curta época chuvosa é fornecida pelo rio dos Elefantes, pois este percorre uma zona com alto índice de pluviosidade. Mas o que tem estado a servir de escudo para a cidade de Chókwe é a existência da barragem de Massingir, que reduz o fluxo das águas. Senão, “já era”, como diz a rapaziada.

 

Cidade feita para monitorar regadio

Mas, conforme diz Xavier Chavana, é na história da cidade de Chókwe onde reside o principal problema, pois quando aquela foi erguida tinha por objectivo servir de ponto fulcral de gestão do regadio e indústrias de agro-processamento montadas nas vilas das cercanias, e não para fins habitacionais.

Reza a história que por volta de 1925, o governo colonial criou missões específicas de colonização do Vale do Limpopo que se deram de caras com uma área com cerca de 30 mil hectares prenhes de potencial agrícola, mas bastante castigados por secas severas.

Enquanto duraram aquelas missões, foi apurado que por volta de 1915 e 1916 tinha havido uma cheia tida como de grandes proporções, mas a seca continuava a ser o elemento mais aflitivo, pelo que se começou a cogitar a possibilidade de se erguer um sistema de regadio.

Terá sido entre estes vaivéns que surgiu o colonato agrícola de Chókwe, nos primórdios da década 50, pela mão do português Trigo de Morais, o qual estabeleceu perto de uma dezena de colonatos menores, que pouco depois se transformaram em espaços agro-industriais, como é o caso de Lionde, o que fez com que a vila de Chókwè assumisse um papel de centro administrativo, onde se fazia a gestão global do regadio e indústrias afins.

Porque de tempos em tempos as cheias faziam das suas, em 1956 foi tomada a decisão de construir um dique de protecção do sistema de regadio, tendo como base informações colhidas junto da população nativa, que referiu que todas as cheias presenciadas pelos colonos portugueses eram “mirins” e que as grandes aconteceram por volta de 1915 quando a água atingiu Chibuto.

A par da construção do dique de protecção do regadio, também foi construído o açude de Macarretane que funciona como barreira para conduzir a água para o canal principal do regadio e, por gravidade, fazer a canalização para os canais secundários, perfazendo cerca de 100 km de canais de rega.

Por outro lado, esta infra-estrutura funciona como ponte ferroviária e rodoviária, “mas nunca se fez um estudo para perceber até que ponto o açude pode estar a contribuir para a propagação das águas durante as cheias”, afirma Chavana.

 

O desafio de proteger Chókwe

Segundo as nossas fontes, de 1950 até ao ano 2000, a Bacia do Limpopo acolheu pelo menos 31 cheias, sendo as mais violentas as de 1955 (oito metros), 1971-72 (8.11 metros), 1975 (8.01 metros), 1977 (8.47 metros). A cheia do ano 2000 continua a bater todos os recordes, havendo até debates acesos entre especialistas na matéria, dado que uns defendem que foi uma cheia de 10 metros e outros que defendem que foi para além dos 13 metros.

A falta de entendimento em relação à magnitude do desastre resulta de algo muito simples. A escala hidrométrica colocada no Açude de Macarretane mede até 10 metros e, quando a cheia de 2000 passou, ninguém teve a coragem de ficar para tirar medidas.

Porém, a natureza tratou de deixar o seu rasto, para que os humanos não tivessem dúvidas. “Havia resíduos por cima do tabuleiro da ponte de Macarretane, o que demonstrava claramente que a água galgou aquela infra-estrutura. Isso reforça a tese de que os 10 metros foram ultrapassados”, afirma Chavana.

Perante este quadro, a discussão sobre como proteger os habitantes e infra-estruturas da cidade de Chókwè ganha novos contornos. Uns defendem que se deve construir uma barragem em Mapai, outros entendem que é preciso reforçar e aumentar a altura dos diques e um terceiro grupo sonha com uma medida mais radial. Transferir a cidade para um local mais seguro.

A alternativa de construção da barragem de Mapai impõe uma reflexão económica, dado que se trata de um grande investimento que deve ter retornos, também económicos, ainda que a componente social se apresente como cimeira.

Dados disponíveis indicam que esta ideia já tinha sido aventada na década 60, mas não foi por aí além devido à sazonalidade do rio, o que condiciona em larga medida a hipótese de se construir uma barragem com fins hidroeléctricos, pois em alguns períodos do ano, é possível atravessar o Limpopo a pé.

Ainda neste quadro, alguns defendem que se poderia pensar numa barragem para fins de irrigação, o que até seria fantástico, dado que haveria água para irrigar mais de 130 mil hectares. Porém, o regadio de Chókwè possui cerca de 30 mil hectares e a produção só ocorre em cerca de sete mil, o que mostra que a nova barragem estaria ali “a ver navios”. Mais ainda, no seu auge operacional, a barragem de Massingir está habilitada para fornecer água durante três anos, mesmo sem chuva.

Em relação à segunda hipótese, que versa sobre a necessidade de se construir e reforçar o dique de protecção, a nossa Reportagem apurou que esta pode ser uma boa alternativa, mas seria necessário investir numa obra consistente (se possível de betão), sem falhas nos pontos de união dos materiais, com altura (acima do limite das cheias de 2000) e manutenção garantida.

É que, a ideia de que existe um dique pode conduzir à presunção generalizada de que a cidade está protegida e, se houver uma rotura, o risco de morte de milhares de pessoas e destruição de bens pode subir exponencialmente.

O actual dique possui cerca de oito metros, é feito de terra argilosa e a população usa esta elevação como via rápida de acesso ao rio (a pé e de carro) e até como zona de pastagens o que faz com que se torne ineficiente durante a época de chuvas e cheias. Aliás, em alguns pontos o dique foi completamente corroído.

 

Duas casas, uma família

Enquanto uns reflectem sobre as hipóteses mais complexas, o Governo anunciou esta semana que está a preparar o início do processo de atribuição de terrenos às famílias afectadas pelas cheias, por forma que estas possam ter Chókwè como local de desenvolvimento de actividades económicas, e uma casa em zona segura para refúgio em caso de calamidades.

Esta decisão, no entender das nossas fontes, parece ser a mais acertada na medida em que “não se pode permitir que a população morra simplesmente porque as alternativas postas à mesa não são economicamente viáveis”, afirmam.

Aliás, algumas empresas já começaram a “recolher” o que é seu para ir montar em locais altos e seguros como o Posto Administrativo de Chinhacanine, no vizinho distrito de Guijá. A Electricidade de Moçambique (EDM), por exemplo, já montou lá a sua subestação, para evitar “calafrios” futuros.

 

 

 

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