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Não falamos apenas de democracia, praticamo-la!

Por admin

O secretário-geral da Frelimo, Eliseu Machava, concedeu em exclusivo uma entrevista ao nosso semanário na qual fala da actualidade interna do seu partido, em jeito de balanço do ano prestes a terminar, da preparação do XI congresso, do desempenho do Governo que suporta, bem assim do exercício democrático no seio daquela organização, hoje cinquentenária.

Perguntámos a Eliseu Machava o balanço que fazia de 2016, tendo em conta que está prestes a terminar…

Nós continuamos a seguir a linha que nos guia, desde como Frente, de nos organizarmos em cada etapa, através da planificação interna e prestação de contas: na área de Organização, de Mobilização e Propaganda, na Formação, ultimamente naquela que zela pelas assembleias provinciais, órgãos autárquicos nos municípios por nós geridos, nas organizações sociais e na económica. O nosso desejo é lançado sob forma de tarefas e pomos mãos à obra.

Estava a perguntar, por outras palavras, o que é que o seu partido fez?

Temos a felicidade de termos visitado todas as províncias e estamos a repetir as visitas, desta feita para o encontro do detalhe sobre o que é que se fez em cada uma das áreas e o nível de realização para nos permitir que em tempo útil possamos recuperar o recuperável e corrigir o corrigível e daí nos munirmos de informação sobre o que é possível realizar até ao fim do ano.

Depois de todo esse movimento que temos vindo a fazer e ainda como é tradição da Frelimo, há encontros periódicos do Secretariado do Comité Central, na Comissão Política, para avaliar o decurso das actividades a todos os níveis.

É com satisfação que notamos que a nossa prestação é positiva. A análise foi feita pelos próprios membros dos órgãos que vivem o dia-a-dia do nosso partido no terreno, o que nos leva a concluir que estamos no caminho certo em termos de organização, mobilização e propaganda, enfim, de funcionamento à luz das actividades a que nos propusemos realizar.

Pode ser mais claro?

Fomos identificando os níveis indicados pelo nosso desempenho e, pegando, por exemplo, os municípios sob a nossa gestão, fomos sabendo a que percentagem de realização se encontra cada um deles e daí chamarmos a atenção para a necessidade de acelerarem o passo para o caso daqueles que achamos estarem a atrasar. O mesmo se aplica aos governos provinciais, à participação dos nossos deputados na Assembleia da República ou dos nossos membros nas assembleias provinciais.

Depois de avaliarmos e termos notado terem sido dados passos significativos, ponderados os factores desfavoráveis…

Quais?

As calamidades naturais e os contrangimentos que advêm do facto de estarmos a sofrer os efeitos da crise financeira mundial, concluímos ter na verdade avançado, concluímos ter conseguido pôr na primazia aquilo que era prioridade a ser vivido por cada um dos nossos militantes.

Qual (é) era a prioridade?

Reconhecendo que a crise económica afecta a todos, que a nossa acção fosse direccionada para a produção de alimentos e que isso deveria começar de nós mesmos, a partir daqui do secretariado. Era preciso saber, por exemplo, que para além do trabalho político o que é que mais fazemos na nossa vida particular visando esse desiderato.

Está a falar da produção?

Sim, definimos um dia para falarmos do que produzimos individualmente, na nossa vida particular, para que tenhamos força de mobilizar os militantes, indicando esse caminho de produção de comida, dado que está claro que se conseguirmos produzir comida teremos meio caminho andado por forma a darmos o passo seguinte para o progresso do país, a partir de acções individuais. Esse exercício foi feito e por causa disso cada militante tem a sua contribuição e fala com propriedade sobre o que tem de se fazer para enfrentar a crise que a todos afecta.

Qual foi a produção do senhor?

Se tivéssemos de ir, eu mostrava-lhe a minha machamba, onde para além do milho que consegui tirar, obtive acima de três toneladas de batata-reno, na minha própria machamba. Significa que é possível. Eu não posso comer três toneladas de batata, quer dizer que devo vender e ao fazê-lo estarei a alimentar muitas outras pesssoas e assim terei contribuído para minimizar a situação.

E assim começa por não comprar na África do Sul…

Claro, vou buscar na minha machamba. Agora estou a meter milho, amendoim, mandioca… isso tudo não consumirei apenas com a minha família. Acima de tudo, é uma chamada de atenção de que somos capazes. Estamos a dinamizar isso não só ao nível central, mas também aos outros níveis abaixo. Por onde passamos, colocamos esta ideia aos militantes e visitamos o que os camaradas fazem para além do trabalho meramente político. Nalguns casos participamos durante as nossas visitas no plantio de algumas culturas. Entendemos que é esse o caminho que nos conduz a uma contribuição efectiva.

Mas então onde está a tarefa do Governo que o vosso partido sustenta?

O nosso Governo está a fazer um esforço bastante visível, perante as múltiplas situações adversas que o nosso país atravessa, nomeadamente a severidade das calamidades naturais (seca, cheias, vendavais jamais vistos) tudo concorrendo para estragar os bens da nossa população. Aí encontramos o nosso Governo firme na gestão da vida política, económica e social. É por isso que nos insiste para que privilegiemos as acções de pacificação do país, começando na própria família, para que todos os moçambicanos saibam que a paz não depende só do nosso Presidente da República ou de uma outra pessoa, individualmente, mas sim, daquilo que cada moçambicano faz para que ela reine em cada um de nós. O que acontece nas famílias pode determinar a paz e a unidade entre os moçambicanos, o que já foi provado no passado. É com essa unidade que queremos sair da crise e de todas as crises que poderão aparecer à nossa frente.

É preciso unir os moçambicanos para o bem comum. Podemos ter divergências, políticas, ideológicas, mas aquilo que é comum, que é o bem-estar dos moçambicanos deve prevalecer, para o que devemos trabalhar arduamente.

OS DETRACTORES DA FRELIMO

NÃO NOS CONSEGUEM DISTRAIR

Qual foi a maior dor de cabeça da Frelimo neste ano?

O aparecimento injustificado e inesperado de disparos por um partido que não o fazendo pela primeira vez, se mostrou, todavia, completamente descabido. Que fechou, mais uma vez, os caminhos por onde o nosso povo devia passar, destruindo bens móveis e imóveis dos moçambicanos e não só. Estou a referir-me à Renamo que perturba a vida normal dos cidadãos e quando isso acontece, o nosso partido que luta pelo bem-estar do nosso povo sente na carne o impacto negativo. Pouco se pode fazer havendo quem se organiza para contrariar o objectivo supremo de todo o povo, neste caso, de bem-estar.

São os vossos detractores ou é verdade que parece haver uma dissonância no seio dos órgãos do Partido Frelimo, quando a questão é o alcance da paz. Quer dizer, entre o que o vosso presidente, que calha ser o da República, diz e os diferentes níveis da Frelimo?

Nós já tivemos uma amostra de que a Frelimo é um grande partido. As pessoas tentaram desenvolver esse pensamento, a partir de intervenções de um ou outro militante, ou ainda os chamados analistas e comentaristas, falaram, inclusive, da divisão no seio da Frelimo. Mas nós trouxemos a amostra da verdadeira Frelimo no país, em reunião de quadros. Devem ter notado o ambiente que se viveu lá e o respectivo desfecho. Ficou claro que a Frelimo continua coesa e a trabalhar para o objectivo que traçou, que é conseguir o bem-estar do povo moçambicano. Portanto, nós continuamos a trabalhar tomando em consideração que não nascemos hoje. E essas perturbações não são de agora, nalguns casos até culminaram com assassinatos. São desafios que esta cinquentária enfrenta e sabe que todos aqueles que gostariam de vê-la fracassar fazem tudo trazendo elementos estranhos à organização, pensando que assim a destroem. O assassinato de Mondlane visava esse fim. O assassinato de Samora Machel tinha o mesmo objectivo. Saiu o presidente Joaquim Chissano e pensaram que era o fim da Frelimo. Saiu Armando Guebuza, alegraram-se, que a Frelimo iria pelo menos esmorecer. Estamos com um outro dirigente. Continuaremos firmes visando o objectivo traçado há cinquenta anos, contribuir para o bem-estar do nosso povo.

Portanto, para nós, a perturbação movida pelos nossos detratores não é nova, não começa hoje e, nalgum momento, notará que nas estratégias que traçam não trazem novos elementos, trata-se de uma perfeita cópia do que fizeram noutras fases da nossa história. Tentam virar à esquerda, quando na verdade querem ir à direita, etc. São truques estudados há muito tempo e nós queremos trabalhar para alcançarmos aquele objectivo largamente repetido nesta entrevista – o bem-estar do nosso povo.

Para quem vê e quer ver, olhando para o Moçambique de ontem, nas infra-estruturas, nas áreas sociais, como é que viveram e estudaram, a percorrerem grandes distâncias para entrarem em contacto com as escolas primárias e hospitais ou a não conseguirem alcançar, dirá que já estamos a conseguir o objectivo. Hoje a população exige Universidade na aldeia, porque já a tem nos outros níveis administrativos acima desta. Não vem por acaso essa evolução, é fruto do trabalho colectivo dos moçambicanos que perseguem um objectivo traçado por um partido visionário, concreto…

O Congresso vem aí,  como vai a sua preparação?

O Congresso está a ser preparado, o que para nós significa o seguimento da prática do nosso partido, que é, de facto, democrático. Quando a Frelimo fala de democracia não anda à procura de vocabulário, de sofismas, trazer filosofia, ela pratica-a desde a Luta de Libertação Nacional. O presidente Mondlane foi eleito por voto secreto. Essa prática, a que hoje se chama democracia, não terminou. A Frelimo tem uma parte muito importante que muitos (principalmente à ela estranhos) não conseguem ver, que é a preservação da sua própria memória institucional. Dar seguimento de todos os actos que produziram bons resultados, tentar tirar as falhas e melhorar a sua prestação.

Então, quando se trata de congresso, estamos a falar duma reunião máxima, com o poder de decisão e de alterar até o programa e os estatutos; que pode revisitar a política e estratégia do partido e traçar o rumo que julgar pertinente para cada fase; leva consigo camaradas de diferentes extractos sociais.

DEMOCRACIA É UM PROCESSO

DE MUITA RESPONSABILIDADE

Mas qual é o caminho para o congresso? Mostre-mo!

… (risos) Para se chegar ao congresso há um processo complexo que é de estudo das teses onde se encontra o pensamento da Frelimo sobre a vida política, económica, social, cultural e como ela entende as relações interncionais. Ao estudar cada uma dessas teses, os militantes fazem-no não para simplesmente compreenderem, também para inculcar as ideias adjacentes a cada uma delas.

Há acções concretas a serem realizadas em cada célula, círculo, zona, distrito, província, etc. Se não existem há que as criar e realizar até à realização do congresso. Há tarefas com um impacto visível. Mas o processo termina com uma outra coisa importante, nomeadamente que todos os órgãos da Frelimo vão ser revitalizados, porque os anteriores cessam! Aí não há meio-termo. Chegou o momento, todo o órgão cessou, para ser eleito outro!

Estamos agora a começar nas células, que termina no dia 26 deste mês. Portanto, depois de estudarem as teses, depois de apresentarem o relatório de actividades, vão ao fogo democrático para a eleição de novos corpos gerentes em voto secreto. Lá, lá… na célula, no mais pequeno grupo, cada um senta-se sozinho e tem de votar. Portanto, nós não falamos da democracia, praticamo-la! Quem quiser ir ver, pode ir agora!

Há-de ver que as células que estão a funcionar vão todas cessar. A seguir elegem-se novos secretariados, elegem-se novos secretários das células, depois entra a vez dos assistentes e a seguir os delegados que vão representar as estruturas inferiores nos encontros da estrutura hierarquicamente superior, que também devem ser eleitos. Há gente que concorre e não passa. E não é a dedo que não passa, é por eleição!

Não parece  muito o tempo?

No próximo ano o mesmo processo vai continuar nos círculos, nas zonas, nos distritos e nas províncias. Assim que terminar esta fase, vem aquela que é mais importante ainda e decisiva. Toda a cúpula da Frelimo vai ao crivo, incluindo o presidente, por voto secreto. O secretário-geral, os secretários do Comité Central, o próprio Comité Central, por aí adiante! Não basta dizer que eu sou deste órgão desde o tempo da luta armada, pode não passar como alguns não passaram. A Frelimo assumiu que o processo tem de ser esse e os membros sabem. Aliás, quando se é membro da Frelimo essa dúvida já não se coloca. É outro momento sério, mas de muita camaradagem. Às vezes desafiam-se entre si, do tipo “da próxima vou-te apanhar, ou, estava quase…”. É um processo, em suma, de consciência livre e de muita responsabilidade.

Então, o congresso é mais importante por aí ou não?

É mais importante por causa dos temas em discussão, a revitalização democraticamente cristalina dos órgãos do partido para os cinco anos seguintes, no debate das questões nacionais, na procura das soluções, na definição de estratégias, que desta vez, de novo, assentam na necessidade da paz, no reforço da unidade nacional, na inculcação da necessidade de trabalho, porque o trabalho de cada um de nós resulta sempre num trabalho colectivo a considerar.

Tem outro exemplo?

Olha, aqui ao lado é um bairro que se chama Polana-caniço, infelizmente devido ao material que fazia a maior parte das casas. Hoje quase não tem significado chamar àquele bairro assim, não foi um programa específico de destruição das casas, mas individualmente as pessoas saíram do caniço, bastando o uso das liberdades de que gozam. Hoje procura-se caniço na Polana-caniço, agora é preciso procurar aquele material de construção e o risco é voltar sem ter avistado nenhum.

Trata-se duma acção individual, mas que acaba colectivizando-se quando todos estão empenhados no objectivo comum. Enquanto o Governo fazia estradas, grandes vias como é o caso da “circular” de Maputo e pontes de todas as regiões do nosso país, o povo fazia aquilo que podia, ir melhorando as suas casas. É isso que faz crescer um país. Todas essas experiências vêm ao congresso e enriquecem os debates, porque nem toda a gente sabe o que se passa em Manica, na Zambézia, em Tete, em Cabo Delgado, em Inhambane, em Nampula, em Maputo, no Niassa, em Sofala, em Gaza… quando se juntam muitas experiências visualizamos a realidade do nosso país.

Quanta gente se encontra envolvida em todo esse processo?

Já estamos em 90% nas células, a seguir serão os círculos, depois as zonas, distritos e províncias, ao todo estamos a falar em mais de 325 mil células, número que pode ser superado. Na verdade estaremos num número superior a 4 milhões de membros no país, depois iremos para os círculos, 14 mil, a seguir 90 mil zonas e o número vai descendo à cifra dos distritos existentes e no fim das províncias que temos, para no fim irmos eleger um único Comité Central.

Pedro Nacuo

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