Política

Dhlakama perdeu oportunidade de se reconciliar com o povo

Ao recusar o convite do Presidente da República, Filipe Jacinto Nyusi, para prosseguir com o diálogo político, o líder da Renamo, Afonso Dhlakama, perdeu uma oportunidade soberana para se reconciliar com os moçambicanos neste novo ciclo de governação inclusiva. A tese é avançada por alguns analistas e líderes políticos ouvidos pelo domingo a propósito das précondições exigidas por Dhlakama para se reunir com o Chefe do Estado.

Com efeito, no passado
dia 24 de Agosto,
o Chefe do Estado
remeteu um convite ao
presidente do partido
Renamo solicitando um encontro
para fazer uma reflexão sobre a
situação da paz em Moçambique.
A intenção do Presidente da
República de se reunir com Afonso
Dhlakama foi anunciada no
último domingo durante um culto
na Igreja Universal do Reino de
Deus.
O líder da Renamo, Afonso
Dhlakama, anunciou que não vai
se reunir com o estadista moçambicano
colocando como pré
-condições a implementação integral
do Acordo Geral de Paz, assinado
em 1992, em Roma, e do
Acordo de Cessação das Hostilidades
(ACH) de Setembro último.
Antes, Dhlakama havia anunciado
a suspensão do diálogo político
com o Governo (que dura há
mais de dois anos) num encontro
com os desmobilizados de guerra
e comandantes do seu partido,
que teve lugar em Quelimane
entre 20 e 21 de Agosto, onde foi
referido que o partido iria “governar
se necessário à força” nas
seis províncias onde reivindica
ter ganho as eleições gerais de
Outubro 2014.

A propósito das declarações
do líder da Renamo, domingo ouviu
alguns analistas e líderes políticos,
os quais consideram que
aquele político perdeu uma grande
oportunidade de se reconciliar
com os moçambicanos e que os
argumentos que apresenta são
subterfúgios para não encarar a
realidade.
Renamo ainda é um instrumento
de desestabilização
– Moisés Mabunda, sociólogo
O sociólogo, Moisés Mabunda diz
que a Renamo sempre foi e continua
sendo um instrumento de desestabilização
que abraçou a democracia de fachada,
uma vez que ainda não abandonou
a sua génese belicista e de pretender
chegar ao poder por vias ilícitas.
“Dhlakama não está a fugir à regra
uma vez que foi assim em todas
as eleições. Portanto, isso faz parte
da sua estratégia de pretender
chegar ao poder à força e por vias
ilícitas, uma vez não possuir argumentos
para convencer o eleitorado
a votar nele. Na sequência de não
convencer o eleitorado, a estratégia
que adoptou é querer partilhar
o poder à força. A história de não
entregar a lista dos seus homens
é antiga e é o seu ponto forte para
intimidar as populações”, indicou
Mabunda, sublinhando que estamos
perante mais uma tentativa de empurrar
o país para uma nova guerra.
Sobre a questão da criação de um
quartel em Morrumbala, disse tratar-
-se de uma tentativa de mergulhar
o país numa nova guerra. “O que a
Renamo está a fazer é empurrar o
país para a guerra. Não diria que
é um golpe do estado porque não
está no poder, mas o que pretende
é fazer com que o Estado recorra à
violência.”
Dhlakama quer mergulhar
o país no caos
-Amorim Bila, analista político
O analista político Amorim Bila afirmou
que ao impor pré-condições para dialogar com
o Presidente da República, o líder da Renamo
demonstra não estar interessada na paz.
“Não faz sentido condicionar a aceitação
do convite pelo resgate do AGP, uma
vez que este foi incorporado na Constituição
de 2004 aprovado por consenso e aclamação
por todas bancadas, pelo que essa
questão cai por terra.”
Mesmo em relação ao Acordo de Cessação
das Hostilidades, Amorim Bila entende não
haver espaço uma vez a Renamo não ter se
mostrado disponível para a sua implementação
ao não entregar a lista dos seus homens
para serem incorporados nas Forças de Defesa
e Segurança.
Acrescentou que tudo o que se assiste hoje
se deve a um precedente aberto com a viabilização
das eleições de Outubro último, em que
se permitiu a revisão eleitoral segundo os apetites
políticos da Renamo.
“Este mal-entendido é que está na cabeça
de Afonso Dhlakama que anda equivocado,
e o indicador disso é que mandou
romper com as negociações porque está a
sentir uma frustração pelo facto de o governo
não abrir a mão às suas reivindicações
inconstitucionais”, disse Amorim.Sobre a criação do quartel em Morrumbala,
aquele analista diz que o Estado tem que se posicionar
e tomar as devidas precauções. “O Estado
tem que se posicionar no sentido de garantir
a segurança dos cidadãos à semelhança do
que aconteceu em 2013 com o desmantelamento
do quartel de Santunjira.”
Moçambique
não é Guiné-Bissau
– João Massango, Partido Ecologista
“A imposição de Afonso Dhlakama de condicionar
o encontro com o Chefe do Estado ao AGP e
ao ACH revela falta de vontade de prosseguir com
o diálogo político para solução dos problemas do
país. Pretender criar um exército em Morrumbala
é uma afronta directa ao Estado e não se pode permitir
isso porque Moçambique não é Guiné-Bissau
onde não se respeita a Constituição da República”,
palavras de João Massango, líder do Partido Ecologista
quando instado a pronunciar-se sobre que alcance tinham
as declarações do líder da Renamo.
Para Massango, o líder da Renamo deveria pelo menos
desta vez despir a sua veia belicista e reunir-se
com o Chefe do Estado para colocar as suas inquietações
de modo a serem resolvidas de uma vez para
sempre.
Sublinhou que desta vez a sociedade estava expectante
de que as reivindicações seriam resolvidas através
de um debate franco e aberto.
– Dhlakama está a esgotar a paciência do povo.
As suas imposições revelam falta de vontade de
prosseguir com esforços de busca da paz porque
sabe que os seus argumentos são inconstitucionais.
Ainda de acordo com Massango, se a sociedade admitir
que um partido crie uma força militar e respectiva
polícia estará a criar condições para que o país resvale
para inconstitucionalidades.
Não viver eternamente
com intimidações
– Miguel Mabote, Partido Trabalhista
Para o presidente do Partido Trabalhista (PT),
Miguel Mabote, as pré-condições levantadas pela
liderança da Renamo são manobras dilatórias e a
sociedade tem que se unir de modo a colocar ponto
final a este tipo de comportamento que não contribui
para a reconciliação nacional.
Segundo afirmou, as reivindicações daquele
partido não podem ser resolvidas através de
decretos ou acordos, uma vez serem recorrentes.
“O país não pode viver eternamente a ser
intimidado por Afonso Dhlakama, que se acha
em posição de superioridade em relação ao
Chefe do Estado. Aliás, ele pretende fragilizar
as instituições e criar protagonismo político
uma vez não ter propostas e ideias claras para o
desenvolvimento do país. Portanto, ele quer que
se preste mais atenção ao seu partido”, disse
Mabote.
Sobre o anúncio de Dhlakama de criação de um
quartel-general em Morrumbala para acantonar
as suas forças residuais, Mabote diz ser uma
propaganda de quem tem como raízes a intimidação
e criar pânico na sociedade.
“Ele fala assim porque sabe que cria
medo nas pessoas que se deslocam de uma
região a outra obrigando o Governo a ter que
tomar precauções. Portanto, é uma estratégia
para transparecer que são capazes de fazer
guerra, quando sabem que isso não lhes leva à
reconciliação comos moçambicanos”, observou.
Uma força estranha por
detrás das reivindicações…
– Mário Dikson, munícipe da cidade de Maputo
“No meu entender, a liderança da
Renamo está a violar o acordo porque
em nenhum momento se faz referência
de que quando o Governo não cumprir
tem que se atacar civis, ou criar-se um
quartel para acomodar forças ilegais,
assim reagiu o cidadão Mário Dikson, instado
a pronunciar-se sobre que alcance tinham
as imposições de Afonso Dhlakama.
Para ele, ainda há muito espaço para
se resolver a questão do AGP e a saída
seria examinar as diferenças que hoje
se propalam. Se uma parte não está a
cumprir com as cláusulas do acordo
existem instituições onde se pode recorrer
como, por exemplo, o Tribunal
Internacional de Haia (TPI), ou mesmo
aos próprios mediadores, neste caso,
a Comunidade de Santo Egídio para
apresentar as questões que não estão
a ser tomadas em consideração,” disse
Dikson.
Acrescentou que a Renamo está a ser
usada por agentes que não estão satisfeitos
com o progresso que o país regista.
“Há uma força estranha que está a
agitar Dhlakama. Portanto, pessoas
que lhe sustentaram durante a guerra
dos 16 anos e que esperavam algum
retorno.”

Domingos Nhaúle
Nhaule2009@gmail.com

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos Relacionados

Botão Voltar ao Topo